Sou um néscio.

 

Cresci empiricamente, numa aldeia onde cedo se ganhava anticorpos a tudo, desde os espinhos na mata que era sempre além-fronteiras, até à dor, no ego e nos queixos, do “pêro” bem assente por alguém com quem não devíamos ter-nos metido sem pensar.

 

Depois, estudei, e fiz profissão nas ciências exactas. Onde elas não chegam, e onde eu entendo que, cheguem ou não, algo mais ficará por explicar (“porquê” versus “como”, desafio obstinado que tantas vezes lanço a ateus amigos – que os há) tenho crenças e convicções, das quais não fujo um milímetro sem que venha de imediato enroscar-me no acto de contrição. E com isto, atingi dois dos quatro saberes, sem ficar menos néscio.

 

Entretanto a vida encarregou-se de propelir-me, ora portador sintomático da condição humana que é ser-se dual, entre a mais galharda luz e dias de trevas sem quartel. Pouco há onde uma pessoa possa acoitar-se senão na metafísica e no império interior, quando assim é, abraçando o salto sem rede, a paternidade, amores e desamores, ruas, cais, florestas e catedrais. 

 

O que resta daqui no lado escuro do mapa é pertença do último patamar do conhecimento, a Teologia. E disso não faço, por ser mais económico, mais elegante, e mais divertido ser néscio. De uma forma ou de outra, saberei a seu tempo.

 

Do que falo então neste post? Do único dia em que entrei no Palácio de São Bento, ora templo maior da putrefacção em que uma grosa de labregos, a cavalo na gula de muitas tribos excrementícolas, transformou o que outrora foi, mirabili dictu, uma Nação.

 

O que vi eu quando lá entrei? Vi, por ordem sortida, o deputado Paulo Campos passeando impune a sorrir como se nunca tivesse sido acusado, e suspeito, de crimes hediondos contra o interesse público; uma ementa repleta de pratos com descrições sápidas, a preços de feira; muitas salas vazias de gente e prenhes de bustos, placas e demais alusões onomásticas que de bom grado soltaria ao passar de comboio sobre o Tejo; vi e ouvi pessoas de todo o espectro partidário, da esquerda assumida à esquerda em negação – pois nada mais lá sobrevive – a rir, gracejar, e incinerar por inacção, a cada minuto, nota após esforçada nota do contribuinte luso. Não brinquemos, é coisa para contar aos meus netos mal os tenha no regaço com idade suficiente (eu) para saber estoriar e (eles) para saberem ouvir. Vi coisas que nunca ninguém deve ver, sob pena de lá querer voltar e correr a casa, de lés a lés, de machado em riste. 

 

Se ao menos três anos de socialismo encapotado tivessem bastado para devolver tomates a quem quer que tenha alguma razão para cá ficar.