Mês: Julho 2014 (Page 1 of 10)

37 dias

Desta vez há que elogiar o serviço que a SIC N prestou ao transmitir a série 37 Days, da BBC.

 

Quase todos apontam a Alemanha e o Kaiser Guilherme II como os únicos responsáveis pela eclosão do conflito, mas a verdade foi desde sempre conhecida, embora escassamente aceite pelas multifacetadas opiniões públicas.

 

O resvalar para a guerra obedeceu aos interesses de cada uma das grandes potências e a uma miríade de enganos, mal-entendidos, expectativas goradas e  vaidade de alguns dos intervenientes, um jogo perigoso que conduziu a Europa à destruição. Infelizmente, os autores da série não se interessaram pelo decisivo papel representado pelas autoridades da Sérvia, ansiosas pelo liquidar da Áustria-Hungria. O governo de Belgrado claramente patrocinava os grupos subversivos e a pegada Dimitrievic era muito evidente, sendo difícil separar a condescendência dos governantes de Belgrado, da autoria moral e material do crime de Sarajevo. Outro aspecto que é uma novidade para a maioria dos telespectadores, será a imagem que nos fica dos soberanos das principais monarquias em liça. Os imperadores da Áustria e da Alemanha, o czar e o rei Jorge V, parecem muito cerceados daquele poder omnipotente que lhes era atribuído – especialmente no que se refere aos três imperadores -, evidenciando-se então o papel desempenhado pelos diplomatas onde Paul Cambon surge de forma episódica mas decisiva, as discórdias entre os membros dos governos das potências – sobressaindo o relativamente prudente chanceler Bethmann-Hollweg – e também, a pressão exercida pelos militares. Um mês de decisões erráticas, hesitações e porque não dizê-lo?, de múltiplos e recíprocos wishful thinking que levaram a Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia, a França e o Reino Unido à guerra. 

Uma série a não perder.  

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Portugal, o BES e o fim da confiança

Que se lixe a queda na bolsa das acções do Banco Espírito Santo (BES). O mais grave de tudo isto tem a ver com um valor intangível: a confiança. Por causa de salafrários como Ricardo Salgado, Jardim Gonçalves, José Sócrates ou Vale e Azevedo, para nomear apenas alguns de um imenso caldeirão de bandidos, o país inteiro passou a estar sob suspeita. A cada 24 horas que passa nasce mais uma extensão de uma longa novela de prevaricação. Acordamos, e mais três são implicados. Um deles, o delfim-genro de Ernâni Lopes, de seu nome Joaquim Goes (melhor aluno da Universidade Católica, segundo consta). Por causa destes sujeitos, já nem confiamos na Dona Ercília da Mercearia do bairro – “O pão é de hoje? É sim senhor. Acabadinho de chegar na Sexta-feira passada”. Para além de todos os processos judiciais que possam decorrer da investigação às actividades financeiras destes indivíduos e dos grémios que os viram nascer, o povo português deveria levá-los à barra dos tribunais por danos morais e psicológicos causados. Deixamos de confiar. Qualquer coisa que mexa ficamos logo em sobressalto – de pé atrás. Começamos (ou continuamos) a ter dúvidas sobre as grandes instituições financeiras e os seus timoneiros, mas também a vacilar em relação à oficina de reparação da viatura e a conta apresentada, ou por causa da extensa lista de medicamentos inscritos na receita do dermatologista lá da seguradora. O português tem motivos para desconfiar. O cidadão nacional tem razões para olhar sobre os seus ombros. O povo, por estas razões todas, tem a obrigação de escrutinar os políticos, de espremê-los até ao tutano. Se não o fizer, a porta ficará aberta para ainda maiores desgraças. Entretanto, esta estória, para além de mal contada, está longe do seu desfecho.

Spartacus

Snapshot de há instantes. Títulos: BES, BCP ,BPI e PT.

 

Qualquer pessoa que acredite que um aumento de capital (15 mil milhoes de acções? 20? a 15 cêntimos? a 10?) resolve isto,  está tão a leste como um trácio.

 

Cavaco pode ter tido, na frase em que empregou a palavra “sistémico” há dias, o único momento digno da sua Presidência.

 

 

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Teoria da Conspiração (Richard Donner, 1997)

 

“Como foi possível terem feito isto ao país?”

– Anónimo, 2011

 

Excerto de uma entrevista imaginária com o antigo primeiro-ministro e procônsul de Alijó, José Sócrates, na qualidade de cidadão:

 

– Senhor Engenheiro…

 

– José. Não precisamos dessas formalidades, estou aqui enquanto simples cidadão. Sou uma pessoa como outra qualquer. 

 

– José. É verdade que os governos por si liderados, enquanto foi mais do que um simples cidadão, desbarataram os fundos da União Europeia, criando acessoriamente uma rede tentacular de corrupção e controle corporativo de vários sectores da economia, mergulhando Portugal numa bancarrota irreversível e que cerceará o futuro das próximas oito gerações?

 

– É uma absoluta mentira. Repare, não nota que há um padrão evidente na regularidade com que vêm a lume esses alvitres cujo objectivo não é outro senão descredibilizar o trabalho histórico que o partido socialista tem feito no sentido de arrancar Portugal às garras da Idade Média em que os especuladores, tecnocratas, invejosos e inimigos da verdade gostariam que o nosso país ficasse? Os números não mentem.

 

– Mas os números dizem que de todo o dinheiro que veio, só 5% foi devidamente aproveitado, e que agora só temos fundos para quatro dias de funcionamento ao ritmo normal a que o Estado consome dinheiro.

 

– Isso é o tipo de bota-abaixismos que são cuidadosamente pensados para iludir as pessoas, para as distrair do essencial. É de uma ingenuidade perigosíssima dar ouvidos a esses boatos.

 

– Então os números estão errados?

 

– Olhe. Tenho aqui um papel muito interessante. Pode mostrar? Obrigado. Isto é um estudo – um estudo a sério, não é dessas vergonhas que se encontram em blogues e revistas – que demonstra um dos maiores triunfos das nossas políticas de investimento público.

 

– E qual é?

 

– Sabe quantas crianças calçavam, no máximo, o número 39 de sapatos em 1979? 

 

– Bom, não. 

 

– Mas eu digo-lhe, olhe, está aqui, e isto é um estudo elaborado por uma empresa fidedigna, com quem o Estado trabalha desde – sabe desde quando, ó Zé Alberto, olhe, desde 1981. Já viu bem portanto que não se trata de embusteiros. Contamos com esta firma para nos prestar apoio jurídico, na fiscalidade, na constitucionalidade, em tudo. (pausa e enche o peito) Em 1979, em média, só 67% das crianças calçavam no máximo o 39. Já viu? Dois terços. Ora isto é de um país com dificuldades, onde é preciso intervir como ápenas o Estado o consegue. E hoje, volvidos pouco mais de 35 anos, essa média – quer ouvir, ouça bem que isto é que essa gente sem vergonha devia dizer – essa média passou para 82%. Oitenta e dois. Um aumento colossal de 15%, que coloca Portugal no 43º lugar da lista de países abrangidos por este estudo. Isto é que é importante.

 

Podia continuar a destilar para aqui o eco de todo o fel que me causou, e causa, a ascensão, principado, e continuada presença de José Sócrates no seio das nossas vidas. Contudo, a pergunta que me assomou à ideia, esta madrugada no duche, foi outra.

 

Quando se pergunta “como foi possível terem feito isto ao país?” é preciso encarar a interrogação com seriedade, aliás com solenidade fúnebre. Chamem-me o que quiserem, como diria o Henrique Monteiro, mas a mim causa-me uma certa estranheza que todo um eleitorado, votante ou demissionário, testemunhe reiteradamente as exibições públicas de tal criatura e não detecte, imediatamente – seja por exercício do instinto ou do intelecto – a completa desconexão com a realidade, a patranha, os indícios de um mapa clínico malsão. E não posso crer, ou não tenho querido crer, que de entre os que votam, todos estão vendidos à máquina partidária. 

 

Ora se nem todos os votantes são “migalheiros”, e a coisa na rua não sobrepuja os demais assuntos do quotidiano como o futebol etc., é porque alguma inflexão, fundamentalmente profunda e potencialmente destruidora do equilíbrio em Portugal, se deu algures antes de Sócrates ascender ao andaime de onde perorou como um sátrapa durante anos. 

 

A pergunta que devemos fazer é: porque é que o sistema de ensino transformou três gerações de alunos em homúnculos apáticos incapazes de procurar, ler, interpretar e debater uma notícia? A resposta mais óbvia, Ockham-laminada, é que era preciso agradar a Bruxelas e enviar folhas de Excel com os dados certos (o número máximo de aprovações e transições de ciclo)  que renderiam muitos, muitos dobrões à paróquia. Não é difícil aceitar isto. 

 

Indaguemo-nos, porém, sobre o descabimento de outra hipótese: e se a cavalo no requisito contabilístico acima aludido, o então governante – Guterres, com a sua “paixão pela educação” – tivesse arado a seara para que pudesse emergir, incólume de escrutínio e lido com juízo acrítico, aquele que viria a ser o mais perigoso déspota em potencial, o tiranete de pacotilha com ligações mais sombrias, de que há memória na história recente?

 

Não esqueçamos que a Parque Escolar foi uma festa; mas não esqueçamos, de igual modo, como os nossos filhos deixaram de ser avaliados pelo seu mérito no domínio da Língua, da Matemática, do Desporto ou da Arte, para serem tidos, dali em diante, como pequenos cidadãos com valências diferenciadas, fossem elas a dança, o manobrar de plasticina, a expressão hiperactiva de condicionantes emocionais, ou a sensibilidade extrema para o silêncio e a quietude. Quase consigo ouvir um jovem casal de Oeiras, “caramba, o nosso Gonkas foi campeão ibérico de copy-paste” enquanto ela lê a Caras e ele deita abaixo a sexta cerveja a ver o jogo entre o Raio Pevidense e a União de Varge Mondar.

 

Epah, não sei. Pensem nisto agora que os vermes começam a sair da madeira por acção do calor.

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Antónios, primárias e dinheirosas…

António Costa bateu por meia-hora o rival António José Seguro – chegou trinta minutos mais cedo para formalizar a sua candidatura às eleições primárias no Partido Socialista (PS). Mas Seguro, certamente melindrado pelo facto, não foi de meias-medidas e apresentou uma resposta à altura da situação: o orçamento para sua campanha é maior que o de António Costa – 165 mil euros contra 163 mil. Parece-me que somos confrontados com um empate técnico. Contudo, existe uma questão de fundo, menos jocosa e mais pertinente, que deve ser endereçada sem demoras, neste caso ou noutros de índole semelhante: a proveniência dos dinheiros de campanha. Este é o momento mais que indicado para avançar com medidas tendentes à normalização e transparência dos processos eleitorais. O cidadão português, recenseado ou não, tem o direito de saber de onde vêm os valores que ajudam a sentar políticos nas cadeiras do poder. As questões financeiras relacionadas com campanhas são sempre apresentadas de um modo convenientemente vago. São frases como; “estimam gastar 328 mil euros” ou “está tudo em aberto”, que minam a confiança dos eleitores e dão margem para trafulhices. À americana, sem rodeos ou rodeios, que seja publicada a lista oficial de fundos e donativos concedidos à campanha deste ou daquele (podem inserir o apelido Wolf no motor de busca). O Dr. Solgado passou um cheque de 10 mil euros? Não, não consta na lista. Muito bem. Adiante. O Eng. Santos dos Soares teve uma atenção para com o outro? Sim, senhor – está aqui na terceira página do balancete. Estão a perceber? É simples. Pagou – passa-se recibo (dedutível no IRS logo se vê) e publica-se a folha de pagamentos no diário da república. Bananas. Obrigado. Passe bem. Passa para cá o meu.

Mais um mamarracho à vista, na Fontes Pereira de Melo

 

Há uns tempos questionávamos acerca do futuro destes três edifícios sitos na Av. Fontes Pereira de Melo.

 

Parece que há quem anda com as ideias do costume, as que as fotos mais abaixo mostram. Vamos lá a ver quem serão os patrocinadores dos projectados mamarrachos. E pensarmos que durante anos andaram a azucrinar-nos com a “monstruosa volumetria” do demolido Monumental…

 

Em escassos 500 metros, temos: o mamarracho Monumental, o mamarracho “Duque” (aquela rasquíssima coisa branca, no Saldanha), o mamarracho Atrium Saldanha, o mamarracho hotel em construção na mesma praça, o mamarracho Saldanha Residence, os dois mamarrachos Sheraton/Imaviz, o mamarracho PT, e pela avenida F. P. de Melo abaixo, horrores mamarrachados dos anos setenta e oitenta – sim, os da 2ª República/ Marcelo Caetano também contam – , culminando com o recente mamarracho Sana. Tudo isto sob o patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa.  

 

Coitados dos senhores Saldanha, Fontes Pereira de Melo e Sebastião José.  

 

  

E agora, quem defende os Clássicos?

A leitura do comentário ao < Diálogo em louvor da nossa linguagem >, de João de Barros, no boletim de Abril de 1951 da Sociedade de Língua Portuguesa, assinado por M. M. T., lembrou-me que, até que Vasco Graça Moura deixou de nele escrever, apenas abria o Diário de Notícias, na versão digital, para o ler. A incondicional defesa da Língua Portuguesa, não poupando os acordistas de serviço, nas suas muitas incongruências, a revolta contra o escandaloso desaparecimento, nos programas de ensino, dos grandes vultos da nossa literatura. Que falta faz nos tempos que vivemos o azorrague empunhado pelo escritor nortenho.

Post Scriptum : Tenho de ressalvar o esforço que no mesmo sentido tem sido feito por um outro jornal, um dos poucos que teima em não baixar os braços nesta patriótica cruzada: refiro-me ao jornal ” O Diabo “

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