O Bairro

Sexta-feira, 30 de Maio de 2014.

 

Combino com os meus melhores amigos, família mais próxima do que a de sangue, jantar em Cacilhas.

 

Perdoem-me por narrar o resto telegraficamente, é tarde, sinto-me como se tivesse chegado a casa vindo de uma travessia a pé através de bairros sociais em Manchester. 

 

Os meus amigos atrasaram-se 40 minutos porque há festas em Lisboa, e além das ruas que estão fechadas para dar trabalho aos funcionários da CML, fecharam outras para garantir que se percebe o momento festivo.

 

Escolhemos, porque gostamos uns dos outros qb para podermos fazê-lo assim, um restaurante por sms. Acordámos que seria O Túnel, justamente a poucos metros da réplica do Chafariz de Cacilhas, que a Câmara de Almada, entidade conhecida por decorar todo o município com cartazes alusivos à insurreição e ao artigo 21º, ali pôs em evocação de privados e alimárias (pode lá ler-se). 

 

Entrámos. Na carta havia pratos de hoje, e pratos a eleger. Escolhemos caldeirada para todos. Entraram, entretanto, trinta ou quarenta pessoas depois de nós; que todas foram servidas, mormente de carne e batatas, enquanto aguardávamos. 

 

Por ser uma pessoa pouco curial, padecer de fome e ter à mesa uma criança de dez anos, inquiri ao 54º minuto do nosso pedido; que não, que ser prato de hoje não é o mesmo que ser prato do dia. Peço o livro de reclamações. Intimam-me a explanar do que pretendo queixar-me, ou que pague trinta euros. 

 

Bom.

 

Exijo o livro. Estou confrontado comigo mesmo, por saber que os meus amigos são pessoas muito mais plácidas, justas e cordiais que eu, e como tal tudo merecem menos uma exibição de protagonismo em Cacilhas à sexta. Eis senão quando a cozinheira, dominatrix da casa, vem dizer que só posso reclamar se lhe der, e cito, der, o meu cartão de cidadão. 

 

Percebo então que estou trasladado, por artes ou vícios, para fora do meu habitat onde a Razão e o diálogo conduzem a vida; Marte, ou São Bento, que é como quem diz onde a vontade incrustada dos que um dia lá meteram uma lança vinga atavicamente sobre tudo quanto é civilidade e evolução.

 

Levanto-me. Rasgo a conta. O vinho não prestava, mea culpa. O gerente implora-me que não brinque com o seu trabalho. Returco, mas vocês falam assim com suecos e holandeses? É por eu ter a pele escura? Há aqui racismo? Que não, que “ela é assim em certos dias”.

 

Levanta-se de uma mesa ao canto um tipo até aqui inassociado ao assunto. Move-se como um réptil, imagino-o a encarnar o Rapaz Caleidoscópio dos UHF. Vem direito a mim e berra coisas sem nexo. Que quero eu? Quem sou? Porque estou em Cacilhas? Porque olho para ele? Três das quatro questões são redundantes. O empregado de mesa, que nos ignorou toda a noite, interpõe-se. 

 

Saio. A minha amiga paga a conta, à revelia do que seria justo. A reclamação é preenchida. Recebo o triplicado. Acerto contas com a minha amiga, moído de remorsos por não saber estar quieto quando me sodomizam e dizem que é mel.

 

Este país, este imenso bairro social, dá-me nojo. É revoltante e nauseabundo o espírito reles, como escreveu MEC numa crónica n’O Expresso em 1986, que não sai com sabão nem se esconde com uma gravata. 

 

Vive em São Bento dentro e por trás da Assembleia, vive em Cacilhas, vive na Ramada, ou em Cascais, vive na Avenida de Roma e no Barreiro, vive nas urnas, vive em quem vive disto.

 

Ali nunca mais volto, mas sabe a pouco. O ideal era que viesse um meteorito e os pulverizasse a todos, réplica incluída, até ao fim dos tempos.

2 Comments

  1. kruzes

    Vá lá saber-se porquê pedir o livro de reclamações é pior do que uma ofensa…

    Não leve a mal mas não consigo resistir. Pediu factura?! É que esse pessoal é capaz de, ainda por cima, ficar com o iva que suportou a titulo de gorjeta. 

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