[…] sociais caracterizadas pela necessidade forte de libertação do cansaço dos contactos episódicos e superficiais, é com algum distanciado interesse que assisto aos episódios de faca e alguidar da mais recente novela do Largo do Rato. O argumentista ainda não revelou o final, e ainda bem. Contudo, já deu para perceber que a vindima ainda mal começou, mas alguns já começaram, aqui e ali, a lavar os cestos. No fundo, não o do cesto, os mensageiros, de ambos os lados da contenda, tratam agora do arejamento do terreno que receberá, a breve trecho, a semente de uma velha esperança. Não estranho, pois, que comecem a limpar os canais comunicantes, desviando o curso dos acontecimentos em benefício próprio e, como não poderia deixar de ser, impróprio para consumo. Nunca ofereci grande resistência à tese que diz: a fertilidade do campo da ilusão, em termos absolutos, é directamente desproporcional à distância em relação aos actos eleitorais.

 

Depois das eleições, como temos assistido, a versão de Seguro e de Costa, e do seu exacto contrário, é outra. Já todos tomámos consciência, espero eu, de que a inteligência, em recessão política, é impagável. Ainda não sabemos se Seguro vai estender a mão a quem lhe pôs orelhas de burro e o mandou, para um cantinho da sala, resolver problemas de soma zero. Já todos sabemos quanto vale, em votos, Seguro. E uma garantia do governo, também! O grau de ruído da maioria silenciosa também já foi medido no Domingo. Agora, não me digam que não há razões suficientes para que um dos Antónios se deixe assaltar tranquilamente pelo sentimento detestável de desobediência à consciência, aquela que, segundo Fernando Pessoa, se transforma, sem alaridos, em prodígio da inconsciência. O que lhes vale é serem optimistas.

 

Em todas as novelas há casamentos, com passarinhos a cantar melodias, úteis para arrefecer o ímpeto de acordar. Mesmo assim, acredito que, mais cedo ou mais tarde, o argumentista revelará, sem grande esforço, os erros possíveis de confessar. Acho mesmo que, desta vez, invocará desculpas, por esfarrapar, de forma a não satisfazer aqueles que fazem veniazonas e juras de amor cego, deixando escapar, uma e outra vez, a hora do seu encontro com as meias verdades da política. Começa a ser evidente que Portugal são eles. Sim, eles, os que julgam não existir espaço social nem fosso entre a imagem cândida (quase celeste) das métricas políticas e o comportamento real dos que ainda têm carne e osso. Não é de agora, mas inclinam-se sempre, para apanhar balanço, de encontro ao pendor mais favorável em relação à atitude de não forjar mentalidades, acotovelando os seus pares com o objectivo de se fazer notar no ritual do beija-mão.

 

O que eu gostava mesmo era de saber como se chama aquela coisa que faz correrias, sem se abafar, entre os pólos da identidade real – aquela que é reconhecida depois de subtraído o desinteresse e adicionado o reconhecimento – e a identidade virtual, aquela que reivindicamos, embora possa, aos olhos dos outros, não passar mais do que uma reles cópia de antigas novelas.

 

Bem, por hoje basta. Vou ali, antes que a noite pinte totalmente o dia, provar, por videoconferência, que o António, enquanto António, segundo a lógica da batata, mantém acesa a esperança que, embora morto, vive. E o outro António, o António que não aqueceu o lugar e não levou com o olho do furacão em cima, acordou, sem beijo, a Bela Adormecida que temos, uns mais que outros, dentro de nós.