Hoje dei comigo a indagar-me sobre proporções.
A proporção de eleitores-fantasma ainda presentes nos cadernos eleitorais, e que aqueles Ninguéns de quem ninguém fala, porque são sinistros e é melhor estarmos todos quietinhos senão pode sobrevir-nos um final à Mystic River, fazem de conta que não é preciso actualizar.
A proporção da dívida pública e da dívida privada, que ninguém contraíu, mas que por existir, gera um enigma, daqueles que Ninguém se deita a resolver, porque por menos do que isso, mataram o Rei D.Carlos.
A proporção de cidadãos à beira de um ataque de nervos, da emigração ou do suicídio literal, porque nada funciona como deveria neste país, a não ser para Quem o tem construído tal como ele é, e quem sabe se o melhor ainda não está por vir. Neste particular capítulo fascina-me a ligeireza com que uma desproporcional maioria parece crer que, nos pratos da balança existencial onde se pesam os prós e os contras que norteiam a paz espiritual de um homem, a disfuncionalidade democrática (a inexistência de um Estado de Direito) possa ser equilibrada por uma meteorologia amena, praias acessíveis e ausência de violência em grande escala, como terrorismo ou máfias a digladiar-se em estradas principais. São normalmente os que falam da Somália e da América, mas que nunca lá puseram os pés, a refugiar-se nesta negação de eficácia clinicamente comprovada.
Há ainda a proporção de burlões, vigaristas, chico-espertos e tiranetes, a qual, sem grande esforço mental, é fácil de ver que à semelhança das anteriores foge à média europeia, senão mesmo mundial. Veja-se o calibre das situações duvidosas em que grande parte dos “nossos” políticos, muitos ainda imersos nessa malavita, têm reportada e alegadamente estado envolvidos, e faça-se uma regra de três simples para encontrar a proporção de gente, no seio do eleitorado, a quem a verdade por detrás de tais alegadas movimentações realmente importou. Ou quanto tempo esse interesse durou.
Finalmente, há a proporção de empresas que se dedicam a calcar bem calcado o contribuinte, quando este jaz já de borco no barro comunitário. A MEO, por exemplo, com quem subscrevi um serviço de banda larga, mas que no envio do equipamento tratou de enviar elementos díspares dos solicitados, assim inviabilizando a sua activação; não obstante, e pese embora terem sido contactados, a expensas minhas, por email e por telefone, insistem em denominar-me “um cliente fidelizado”, e urgem-me a que aceite, embora o serviço que pedi já esteja cancelado e nunca tenha sido utilizado, doze meses de facturação que, acrescem, estão a contar desde que o equipamento foi enviado. Ou a Cabovisão, que na sua condição de monopólio paroquial, assume um comportamento para com os poucos clientes com que ainda deve contar, semelhante ao de um grémio de sobas para com a casta dos apanhadores de bananas, e cujos níveis de serviço são tão bons ou tão maus que motivam bramidos de indignação nas redes sociais e na rua. Também esses invocaram, durante anos, o elo sacrossanto da fidelização.
E depois há os monopólios de facto, a quem somos fidelizados unilateralmente e sem hipótese de revogação: a EDP, a companhia das águas sob qualquer guisa que assuma regionalmente, a Constituição, a Assembleia da República, enfim, as mil faces da distopia semi-rural onde vivemos ainda e sempre, nem sequer reconhecendo a existência de um invasor.
Fiéis são os cães. E a julgar pelos resultados eleitorais, embora a coisa esteja no bom caminho, a proporção de cães cá no burgo ainda é demasiado elevada para o meu gosto.
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