[…] a tal luz ao fundo do túnel, por isso obrigo-me a inúmeras leituras, incluindo aquelas que me passam – parágrafo sim, parágrafo não – rasteiras. É sempre bom fazer o exercício de apropriação de matérias que, à partida, não nos seduzem, como a economia, salvo erro. Ele há coisa pior que ser acusado de não compreender as vicissitudes da pós-crise por falta de conhecimentos básicos em economia? Não. Isto é, de facto, pior do que falecer. Até hoje, julgava que o ocultismo era o meu forte. Pronto, confessei. Mas, estou sempre a tempo de me impedirem de cair, uma e outra vez, no engano, e ainda bem. Já deu para perceber que, na sociedade em que morremos, continuam a persistir actividades (in)conscientes – como, por exemplo, não perceber nada de economia avançada – que não casam com os critérios de asseio que alguns economistas, em especial os do economês, vendem, como se de sopa para pobres de espírito se tratasse, na praça pública. Não precisei, até agora, de espreitar por de  trás da fachada, supostamente impoluta, para concluir que há ingredientes excessivamente utilizados no caldo comentarista diário. A economia é um deles, chega a ser enjoativo reduzir a realidade a este denominador incomum (para mim, evidentemente). Não se cansam de dizer que a economia é tudo, e por ser tudo, só lhe resta o calvário de percorrer, com os mordomos do economês à ilharga, a trajectória ascendente do nada (do meu, obviamente).

 

Há algum tempo atrás, estive tentado a dar meia volta e circular em sentido contrário, convidando-me a abandonar o país. De facto, depressa percebi que, se continuasse por cá, teria de acomodar o meu olhar à escassa iluminação e à falta de horizonte(s). Não me fiz, à falta de melhor opinião, favor nenhum. Tanto mais que o regime vai arrumando as suas pedras no xadrez, não demonstrando, até ver, uma patética e irremediável falta de talento. Ainda assim, tento afastar tudo o que corrói os sentidos e agiganto-me da forma mais paralítica que consigo. Não recuso, momento antes de chegar além do infinito, a vontade infatigável que me tornará cego e surdo perante as métricas algorítmicas do teatro político e do crescimento desalmado do PIB. É claro que amiúde sinto o ar de estatueta descer-me à face, e, nesses empedernidos momentos, não faço a mínima ideia que ombro escolher para encostar o meu quebradiço rosto. Quase que me transformo, para mim próprio, na pior pessoa que posso imaginar. Com algum esforço lá consigo, finalmente, alienar-me de mim e projectar o meu olhar para nenhures. Até já pensei em selecionar as lágrimas mais vistosas e as palavras que melhor casam com a técnica do desentendimento, procurando a condescendência maternal que os olhos dos meus colegas de ofício deixam, através do canto olho, fugir.

 

Dou muita importância à economia, em especial à do sonho. De facto, não sou de revelar os meus sonhos, mas hoje, só por ser hoje, abro uma excepção. Na noite que passou, consegui juntar, coisa fácil nestes dias, os moralistas protestantes Mandeville, Smith e Quesnay e os comunitaristas Hobbes, Locke e Rousseau. Mandeville abriu as hostilidades com a fábula das abelhas, gerando um zumzum tal, que obrigou o homem da mão invisível a defender a tese de que o homem não é um insecto, mas sim egoísta por natureza, que a sociedade é um grande mercado e que o papel do Estado deve limitar-se à protecção do espaço público onde decorre o jogo do mercado. Quesnay parecia encontrar-se numa outra dimensão, pois só conseguia dizer duas palavras ligadas por um tracinho: Laissez-faire. Hobbes foi o primeiro a abandonar o meu sonho, o seu discurso autoritário sobre o contrato social recebeu inúmeros apupos. Por sua vez, o contratualista Locke foi corrido ao pontapé logo que tentou misturar democracia com oligarquia-liberal. Rousseau, depois de encostado à parede pelos gorilas de serviço, lá confessou o que o anjo lhe disse num dos seus sonhos de menino: vai e faz um contrato social, mas não te esqueças, em momento algum, que o contrato deve assentar na participação igualitária. Abriram a porta e expulsaram também Rousseau do meu sonho. Dizem, as boas línguas, que foi do confronto entre os moralistas e os comunitaristas que nasceu o primado da economia sobre a política. A economia passou a controlar a ordem social e a ordem política, de forma a não constituírem obstáculos à liberdade da economia. Ao longe, não muito longe, já se ouviam os passos pesados de Bastiat, Spencer, Hayek, Friedman e Nozick, defensores do estado microscópico e amigos de Mandeville. Smith sabia que brevemente chegariam os seus moderados amigos Turgot, Condorcet, Constant, Jeferson e De Tocqueville, úteis para o ajudarem a defender a ideia de que o estado deve prover as necessidades da sociedade, caso o jogo do mercado não satisfaça em algum domínio social. Não posso confirmar, mas julgo ter visto o fantasma de Gaspar – ou tudo o que ele representa – a pairar, tentando explicar a quebra das receitas através da técnica do híper-empirismo reactivo: à soma de factos, subtraía qualquer insuspeita interpretação, resultando, em vez da soma positiva, a nula que, pé ante pé, ia desconstruindo a verdade dos outros através da sua. Os desconstruídos, finalmente, perceberam o quanto serviram de parcelas na sua equação elevada à enésima impotência. Aconselhei-o, salvo erro, a estudar afincadamente as técnicas da camuflagem, úteis para a idealização, mas completamente inúteis para uma cicatrização bem-sucedida. Se não me engano, também lhe disse para deixar, após arrombar o cofre das suas superstições, de vigiar, da sua torre, através de binóculos, aqueles que são obrigados a esconder voluntariamente os seus pensamentos mais radiculares. Como diria o outro, não um outro qualquer, “saber dormir [sonhar] não é pequena arte; é necessário estar desperto todo um dia para o conseguir” (FN).

 

Fico-me por aqui. Em nota de rodapé, gostava ainda de acrescentar que quem comunica, no limite, terá sempre uma espécie de direito tácito de negar que quisesse transmitir alguma coisa para além do que escreveu; da mesma forma, o leitor pode atirar à cara do comunicador a fatídica acusação de ter transmitido, através das suas entrelinhas, algo completamente inaceitável. O contrário também é verdade, o leitor tem o direito tácito de não reagir aos sinais do comunicador, como resultado da aplicação da estratégia do assobiar-para-o-lado, neutralizando, através do silêncio, tudo o que acabou de ler.

 

Bem, eu sou o Nuno e este é o meu primeiro “post” aqui no Estado Sentido. Obrigado, Samuel, pelo convite.