“Sobre a bola”, uma nota de Pedro Alves no Facebook, reproduzida com permissão do autor e inteiramente subscrita por mim.

 

 

Comentava há dias com uma das minhas cunhadas como era estranho este fenómeno da bola.

Ambos conhecíamos gente que considerávamos intelectualmente sãs, até mesmo gente de grandes intelectos, e que apesar de tudo tinham um clubismo irracional, a roçar o pouco saudável.

O meu compadre diz-me que nunca compreenderei.

Mas depois de meditar um bocado no assunto, penso que compreendo.

Quem já esteve num evento desportivo de grande magnitude sabe o quanto aquilo pode ser emocionante. Mesmo quem não aprecie bola (ou outro desporto de massas como o rally ou a volta), e que se veja no meio da multidão, não consegue evitar sentir uma emoção empática, vibrar até.
Damos por nós a gritar de alegria por um golo. Nós, que noutras circunstâncias não acharíamos piada nenhuma à coisa.

Agora imaginem isto em tenra idade. 

Uma emoção daquelas, milhares de pessoas a gritar, o mundo inteiro com a atenção virada para o mesmo assunto.

É um bocado como aquelas pequenas que nunca exploraram o seu corpo, e de repente há um malandro que lhes salta em cima e pumba, gravidez adolescente, eu faço tudo por ele, ele bate-me mas eu amo-o. E nem fazem ideia de que aquela coisa fantástica que sentem não é ele que lhes proporciona, e que conseguem sentir aquilo sozinhas.

Claro que para alguém cuja única emoção digna do nome, além do casamento e do nascimento da prole, é a vitória do clube, isto tem um efeito tão marcante que dificilmente conseguirá sentir o mesmo por qualquer outra coisa.

Mesmo que vá fazer queda-livre, bungee jumping ou o que valha. Não são anos de associação daquele sentimento a uma actividade em concreto, é uma experiência que acontece daquela vez. Nem sequer se aproxima.

Há uma vida inteira em que as grandes emoções são bolas na rede.

A bola é tudo, o clube é tudo.

Deve ser realmente triste, quando a única grande emoção que sentimos na vida é quando o nosso clube ganha.

 

A única coisa que há a fazer para se conseguir reduzir a doença social da bola, é dar experiências maiores que a vida às crianças.

Experiências que lhes dêem aquela sensação de que o peito vai explodir de felicidade, aquela sensação de que há algo maior que nós, aquela vontade de gritar de alegria e de que a aventura só vale a pena quando partilhada. 
E de preferência experiências diferentes, para que não se tornem viciados na emoção de uma ou outra actividade. 
Ensinar-lhes que está dentro deles viver a vida em pleno, e sentir tudo aquilo sempre que queiram.

Porque para os outros creio que já não há salvação.