Comentava há dias com uma das minhas cunhadas como era estranho este fenómeno da bola.
Ambos conhecíamos gente que considerávamos intelectualmente sãs, até mesmo gente de grandes intelectos, e que apesar de tudo tinham um clubismo irracional, a roçar o pouco saudável.
O meu compadre diz-me que nunca compreenderei.
Mas depois de meditar um bocado no assunto, penso que compreendo.
Quem já esteve num evento desportivo de grande magnitude sabe o quanto aquilo pode ser emocionante. Mesmo quem não aprecie bola (ou outro desporto de massas como o rally ou a volta), e que se veja no meio da multidão, não consegue evitar sentir uma emoção empática, vibrar até.
Damos por nós a gritar de alegria por um golo. Nós, que noutras circunstâncias não acharíamos piada nenhuma à coisa.
Agora imaginem isto em tenra idade.
Uma emoção daquelas, milhares de pessoas a gritar, o mundo inteiro com a atenção virada para o mesmo assunto.
É um bocado como aquelas pequenas que nunca exploraram o seu corpo, e de repente há um malandro que lhes salta em cima e pumba, gravidez adolescente, eu faço tudo por ele, ele bate-me mas eu amo-o. E nem fazem ideia de que aquela coisa fantástica que sentem não é ele que lhes proporciona, e que conseguem sentir aquilo sozinhas.
Claro que para alguém cuja única emoção digna do nome, além do casamento e do nascimento da prole, é a vitória do clube, isto tem um efeito tão marcante que dificilmente conseguirá sentir o mesmo por qualquer outra coisa.
Mesmo que vá fazer queda-livre, bungee jumping ou o que valha. Não são anos de associação daquele sentimento a uma actividade em concreto, é uma experiência que acontece daquela vez. Nem sequer se aproxima.
Há uma vida inteira em que as grandes emoções são bolas na rede.
A bola é tudo, o clube é tudo.
Deve ser realmente triste, quando a única grande emoção que sentimos na vida é quando o nosso clube ganha.
A única coisa que há a fazer para se conseguir reduzir a doença social da bola, é dar experiências maiores que a vida às crianças.
Experiências que lhes dêem aquela sensação de que o peito vai explodir de felicidade, aquela sensação de que há algo maior que nós, aquela vontade de gritar de alegria e de que a aventura só vale a pena quando partilhada.
E de preferência experiências diferentes, para que não se tornem viciados na emoção de uma ou outra actividade.
Ensinar-lhes que está dentro deles viver a vida em pleno, e sentir tudo aquilo sempre que queiram.
Porque para os outros creio que já não há salvação.
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