O Importante é ter Saúdinha

Aparentemente o Governo planeia introduzir uma taxa sobre alimentos com gorduras e açúcares excessivos. Eu nem sei o que dizer. Este tipo de engenharia social escandinava através de sin taxes apenas incha um Estado já paternalista que recentemente nos veio dizer quantos cães podíamos ter em casa e que queria aumentar a idade mínima de compra de álcool para os 18 anos. Queria só perguntar:

 

– O que se segue? Criar monopólio estatal de venda de álcool como na Suécia e na Finlândia (porque coitadas das pessoas, não sabem beber…)? Obrigar os supermercados a acabar de vender álcool às 10 horas? Taxas sobre gomas? 

 

– O que é um alimento não saudável? Suponho que McDonalds e KFC estejam incluídos? E os hamburguers do Honorato? E um prego à saída do Lux? Uma posta à mirandesa? Não sei, os critérios parecem-me difíceis de delinear.

 

– Como é que um país tão progressivo em matéria de consumo de drogas, cujo relaxamento das restrições levou ao decréscimo desse mesmo consumo, não percebe que restringir hábitos sociais que caem na esfera individual apenas piora a situação? Contrabando, crime, produtos não seguros vendidos debaixo da mesa. Destruição de postos de trabalho (como aconteceu na Dinamarca, daí eles terem recuado) é uma possível consequência, tão conveniente no presente momento.

 

– O argumento dos custos elevados do SNS é altamente falacioso, como já o é no tabaco. Façamos como os proponentes desse argumento e tratemos as pessoas como números: é verdade que um fumador ou um comedor de fast food irá mais vezes ao hospital. Contudo, também morre mais cedo, não sendo como as pessoas saudáveis que vivem até aos 90 anos e têm inexoravelmente de ir mais vezes ao hospital. Que discussão horrível, não é? Ver quanto cada um custa ao SNS cêntimo por cêntimo. 

 

É assim, diz que são liberais. Já vimos que na esfera económico-financeira não são. Mas no resto também não – continuam a levar a tocha da nossa boa tradiçãozinha paternalista em que qualquer medida restritiva da liberdade individual e promotora da engenharia social não tem qualquer problema se for para proteger a saúde. Já diz o povo, ‘o que é importante é ter saúdinha’. Aparentemente é. Que se foda o resto, incluindo sermos tratados como adultos. Desde que haja saúdinha.

3 Comments

  1. Apache

    Todos os pretextos são válidos para sacar dinheiro ao contribuinte.

    Ninguém pára o marxismo social.

  2. LL

    Penso que o argumento dos custos (e só o trago porque o governo abriu essa porta) é errado, mas por outra razão: a perpetiva do governo é de total estanquicidade entre os diversos custos do Estado (i.e., a utilização do nosso dinheiro) e, nessa medida, parece que conseguem suportar com ‘estudos’ que malta pouco saudável custa mais ao SNS, pois embora morra mais cedo tem mais doenças cujo tratamento é muito caro. Mas morrer mais cedo representa uma enorme poupança nas reformas. Se o governo e este SE em particular querem usar o argumento dos custos, devem usá-lo no contexto global da despesa do Estado (i.e., no modo como o Estado utiliza o dinheiro que nos esbulha, convém nunca esquecê-lo) e não como se os departamentos do governo (também conhecidos por ministérios) andassem a concorrer entre si (num argumento implícito adicional de ‘poupo no SNS, o da segurança social que se amanhe’). E aí há mesmo estudos de entidades britânicas muito credíveis sobre o tabaco (que não tenho aqui à mão, mas terei todo o gosto em disponibilizar) que apontam para una poupança significativa do Estado (i.e. dos contribuintes) com os fumadores relativamente aos não fumadores.
    Considero totalmente ilegítimo que o governo se meta desta forma na minha vida privada (e não estou a defender uma qualquer ‘coutada’: não bebo, não fumo, tenho cuidado com a alimentação, faço exercício, enfim, o dr. Leal da Costa teria orgulho em mim); mas ao menos, se o querem fazer, que usem argumentos realistas.

  3. Movimento Vaper

    Sem tirar nem pôr. A única coisa de jeito que vi escrita sobre este assunto.
    http://movimentovaper.blogs.sapo.pt/vale-que-nao-estamos-sozinhos-13784

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