Os azeiteiros do pensamento

Vamos lá devagarinho e por partes:

 

1 – Um dos principais argumentos dos opositores do salário mínimo per se ou de aumentos no seu valor acima do valor de equilíbrio é o de que este provoca um aumento do desemprego por impedir que indivíduos trabalhem abaixo de um determinado valor (ver por exemplo este post ou aquele).

 

2 – Estamos aqui perante duas questões: a) a existência de um salário mínimo e b) aumento do valor deste provoca desemprego.

 

3 – Normalmente quem defende a inexistência de um salário mínimo defende também que se verifica o efeito patente em b).

 

4 – Pode a defesa da eliminação do salário mínimo ser mais explícita ou implícita, mas a verdade é que se encontra subjacente ao pensamento de muitos.

 

5 – A hipótese contrária é a de que a diminuição do valor do salário mínimo ou a sua eliminação reduz o desemprego.

 

6 – Eu apenas tornei manifesta uma hipótese latente, implícita, e limitei-me a verificar, atendendo exclusivamente a estas variáveis e à alegada relação entre elas, não aventadas por mim mas por outros, se a hipótese se confirmaria na realidade nos diversos países onde não existe salário mínimo.

 

7 – Claro que a realidade é muito mais complexa, que cada caso é um caso e que há milhares de outras variáveis que influenciam os resultados em causa, muito provavelmente existindo países onde as variáveis estão correlacionadas e outros onde não estão. Mas é precisamente por isto que o post infeliz e deselegante do Carlos Guimarães Pinto falha o alvo e atinge precisamente os que ele não gostaria de atingir. É que se quer criticar alguém, deveria começar por aqueles que têm o pensamento simplista que eu evidenciei e utilizei para mostrar como, pegando nas palavras da conclusão do post do Carlos, incorrem numa burrice de todo o tamanho. Mas como fazem parte da tribo e partilham das mesmas crenças dogmáticas, o Carlos não o faz. 

8 Comments

  1. Mário Amorim Lopes

    Excepto que a única pessoa que eu vi e li a levantar a hipótese subjacente a essa tese:

    “5 – A hipótese contrária é a de que a diminuição do valor do salário mínimo ou a sua eliminação reduz o desemprego.”



    Foste tu, Samuel.

    • Samuel de Paiva Pires

      Tenho para mim que não me exprimo mal, mas posso estar enganado. Entre o Facebook, onde até o Vítor Cunha nos elucidou, e o ponto seguinte, o 6, creio que já deveria ter dado para perceber. Talvez isto não se dê em Microeconomia I, mas em Introdução à Ciência Política aprende-se que qualquer discurso, ideologia ou ideia pode ser latente ou manifesta, pode materializar-se por acção ou omissão, e frequentemente opções alegadamente apenas técnicas consagram implicitamente opções ideológicas. O próprio viés de que partes, que salientei no meu último comentário no Facebook, é um exemplo disto mesmo.

      • Mário Amorim Lopes

        Aprende-se em Sociologia: todo o ser está sujeito à influência do contexto, do ambiente, da sociedade, das suas opiniões e do seu viés. Logo, todos manifestamos essa influência (ideológica). Logo, dado que tanto tu como eu manifestamos essa influência (ideológica), torna-se irrelevante trazer isso para a discussão. É como o campo de futebol ser redondo — afecta ambas as equipas.

        Excepto se tu achares que és menos influenciado do que eu ou do que qualquer outra pessoa…

        • Samuel de Paiva Pires

          Como já escrevi no Facebook, não é uma questão de quem é mais ou menos influenciado, mas sim de quem tem mais ou menos percepção disso, consegue reconhecê-lo e colocá-lo em perspectiva para chegar às questões que, para mim, são fundamentais. Para ti podem não o ser, mas isso é apenas normal, porque temos formações, influências e preocupações diferentes. 

          Só um economista poderia achar que é irrelevante trazer isso para a discussão, especialmente quando procura impor uma qualquer verdade como objectiva e universal. Não digo que seja o caso, mas normalmente isso costuma acontecer nos aparelhos de poder ou em quem está alinhado com estes. 
          • Mário Amorim Lopes

            Então recupera por favor os artigos do NBER, entre outros, que coloquei no outro artigo. Nesses artigos tens análises técnicas e económicas que balizam o problema, dentro dos possíveis. Não preciso de falar por mim para defender o fim do SMN. Demasiados economistas já se ocuparam de fazer isso.

  2. FD

    Como já muitos referiram, o ordenado mínimo é tão essencial em Portugal como todas as leis que nos sufocam. São negativas? São! Esta também o é! Mas são a única forma de colmatar o deficit nacional nas vertentes da educação, de sociedade, modernidade, visão de futuro, abnegação,  chico-espertismo, tudo aquilo que nos difere de um país avançado. Obviamente que num país menos periférico a ausência deste punha-o em directa competição com os demais vizinhos obrigando a que os valores fossem altos. Porem, aqui longe e após tantos anos de uma ditadura castradora seguida de uma sufocante esquerda omnipresente, ou há o salário mínimo ou começam a pagar em bagos de arroz. Isto porque o português quer lá saber de quem trabalha para si, ou de quem dá o exemplo, o que interessa é sacar o máximo hoje e amanhã, depois logo se vê. Numa sociedade ideal onde a maioria é consciente das responsabilidades inerentes, da competição e do mercado livre, subiria facilmente para valores comuns aos restantes países, aqui não. Deixem-se de teorias, elas aqui não funcionam. Não é aplicável. Ingovernaveis e irresponsáveis.

    • Anónimo

      Ena pá… ainda não tinha percebido que um simples instrumento como o SMN conseguisse resolver tanta coisa de uma só vez… “Mas são a única forma de colmatar o deficit nacional nas vertentes da educação, de sociedade, modernidade, visão de futuro, abnegação,  chico-espertismo, tudo aquilo que nos difere de um país avançado. “Xiiiii… patrão… se assim é meus caros amigos e partindo do principio de que o SMN já é aplicado faz algum tempo… como é que ainda não conseguimos ser um pais avançado? Quer-se dizer, basta aumentar o SMN e todos estes problemas desaparecem?! Ena pá… EUREKA!
      Maria Rebelo

      • FD

        Quando em cada português existe um projecto de cómico dá nisto, lê-se mal, percebe-se ainda pior. Colmatar não é fazer desaparecer, muito menos é essa a ideia no meu post. A minha ideia é simples e de fácil entendimento, nem é preciso fazer grande ginástica. O que se passa é que graças ao facto de existirem todos aqueles factores por mim referidos, o SMN TEM de existir. Isto para suprimir Basicamente se não fossem as rodinhas, neste país já ninguém tinha dentes. O que o que eu quero dizer, é que carecemos daquelas especificidades que fazem com que outros países (com sociedades BEM mais avançadas) não necessitem de uma norma para pagar alguém o que lhe é devido. Precisamos de muitas leis, muitas regras, muita burocracia, muitos SMNs e coisinhas dessas, pois não nos sabemos governar por nós próprios – infelizmente. Nem governar nem fazer humor.

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