Mês: Abril 2014 (Page 1 of 8)

Diz que é o governo mais liberal de sempre (2)

Quando escrevi o post anterior, ainda não tinha visto a notícia sobre a reposição parcial dos salários na função pública. Deixarmo-nos enredar na tentativa de dividir para reinar, ou seja, na oposição entre trabalhadores do sector público e os do sector privado, é um favor que fazemos ao governo, pelo que, sobre isto, só tenho a acrescentar que:

 

i) o governo liderado pelo senhor “que se lixem as eleições” e do qual fazem parte inúmeras pessoas que muito se insurgiram contra os aumentos salariais na função pública protagonizados pelo governo de José Sócrates em ano de eleições, é o mesmo que incorre na mais que velhinha e primária jogada eleitoralista de agradar aos funcionários públicos, parecendo acreditar mesmo que consegue fazer destes estúpidos;

 

ii) vindo i) de um governo que nutre um profundo desprezo pelo sector público e que se regozija quando se fala no privado, no empreendedorismo e afins, acrescenta ao eleitoralismo contornos de um cinismo particularmente abjecto, de que Maquiavel ficaria orgulhoso;

 

e iii) o spin pró-governamental que se queixa de que a Constituição e o Tribunal Constitucional e as pessoas não querem ou não deixam reduzir a despesa pública já era, per se, risível, mas em virtude de i) torna-se particularmente ridículo – e isto sem levar em consideração brincadeiras como o já esquecido guião da reforma do Estado. Contratam para o governo uns tipos que de política só percebem do carreirismo partidário ou das tretas que as agências de comunicação lhes impingem e depois admiram-se que o spin seja patético. Até nisto somos um atraso de vida.

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Diz que é o governo mais liberal de sempre

O aumento do IVA para 23,25% representa um acréscimo de 200 milhões de euros na receita, e o aumento de 0,2% na taxa de Segurança Social paga pelos trabalhadores significa mais 100 milhões de euros. Trocos, portanto, para o Estado glutão, mas que não deixam de reforçar o processo de empobrecimento da população portuguesa, retirando-lhe ainda mais poder de compra, o que se torna particularmente gravoso no caso dos que auferem salários baixos, ou seja, a maioria dos portugueses. Curiosa também a justificação de que assim se compensa a reposição dos cortes nas pensões mais elevadas, procurando mais uma divisão que tanto tende a distrair e ocupar os visados por estas engenharias orçamentais.

 

Mas, por serem trocos deglutidos em meia dúzia de dias pelo Estado (estarei a ser demasiado simpático?), isto mais parecem medidas alegadamente pedagógicas à Leal da Costa, preventivas, ou seja, aumentozinhos da treta para não nos desabituarmos muito de continuarmos a ser espoliados. No fundo, será mais ou menos assim: isto está tudo a correr muito bem, o país está melhor, as pessoas é que não – que se lixem as pessoas -, mas desenganem-se se julgam que podem gastar os frutos do vosso trabalho como bem entenderem, porque a crise e a austeridade são provisoriamente definitivas e vocês só têm é que continuar a alimentar o Estado e não se atreverem a gastar um pedacinho sequer acima das vossas necessidades. Poupem, para sustentar o Estado, e tentem sobreviver (viver é só para os ricos), que já vão com sorte. Para o ano há mais – logo depois das eleições e de uma eventual redução de impostos, claro.

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Programa Cautelar

Noticiam hoje os media que o Governo vai aumentar o IVA para financiar a Segurança Social.

 

Decorre daqui que já não é possível manter a ilusão de um Estado Social exequível, cujo funcionamento débil e malsão é tido no cânone oficial como sendo culpa de alguns, os “bota-abaixistas” para Sócrates e os “irresponsáveis” para Passos. Sucede, porém, que ao contrário o Estado –  nos seus aspectos Social e burocrático – funciona mal por culpa de uma imensa maioria:  um eleitorado néscio e concupiscente com os distribuidores de migalhas, e uma corja sem eira nem beira que se abona e acoita por via de RSI’s e estipêndios diversos, oriundos do pouco que ainda é possível esmifrar ao trabalho e empreendimento alheios. 

 

Não há outra verdade senão esta: Portugal está assim por culpa dos Portugueses. Evoquemos algumas palavras sábias e certeiras de quem, num outro Mundo que infelizmente vem sucumbindo à mesma maleita socialista que arruina a Europa, sempre entreviu demasiadamente bem este problema.

 

Leiamos o Senador Ron Paul, e reflictamos pois sobre a moralidade da nossa complacência, cobarde e invertebrada, para com os sumidouros a cẽu aberto onde se consome o dinheiro que nos é subtraído por quem detém, indevidamente, o monopólio da força. 

 

 

One day I walked into an operating room, to just be an observant, which we would do generally, as a medical resident. They were performing this hysterectomy, which was a caesarean section. And they lifted out a fetus that weighted approximately 2 pounds, and it was breathing and crying. And it was put in a bucket and set in the corner of the room, and everybody in the room just pretended that they didn’t hear it. And the baby died. And I walked out of that room a different person… Roe v. Wade is a reflection of the moral climate of the country, because the law was being defied, and then the law was changed, the law sort of caught up with the culture. So even though we work in the legal area, and work politically, ultimately I believe it’s an issue of personal morality, and is a reflection of the country, more so than just the lack of laws. Just changing the laws won’t be enough, we will ultimately have to have a society that’s moral enough, where the fetus deserves legal protection.

 

Although it is obvious that the Keynesians were all wrong and interventionism and central economic planning don’t work, whom are we listening to for advice on getting us out of this mess? Unfortunately, it’s the Keynesians, the socialists, and big-government proponents. Who’s being ignored? The Austrian free-market economists — the very ones who predicted not only the Great Depression, but the calamity we’re dealing with today. If the crisis was predictable and is explainable, why did no one listen? It’s because too many politicians believed that a free lunch was possible and a new economic paradigm had arrived. But we’ve heard that one before — like the philosopher’s stone that could turn lead into gold. Prosperity without work is a dream of the ages.

  • The Austrians Were Right, November 20, 2008

 

It’s a mistake to think that poor people get the benefit from the welfare system. It’s a total fraud. Most welfare go to the rich of this country: the military-industrial complex, the bankers, the foreign dictators, it’s totally out of control. […] This idea that the government has services or goods that they can pass on is a complete farce. Governments have nothing. They can’t create anything, they never have. All they can do is steal from one group and give it to another at the destruction of the principles of freedom, and we ought to challenge that concept.

  • 1987 

 

 

Question: As a doctor, is it meaningful to you when somebody say that healthcare is a right, or that people have a right to good medical care?

 

Ron Paul: That’s incorrect, because you don’t have a right to the fruits of somebody else’s labor. You don’t have a right to a house, you don’t have a right to a job, you don’t have a right to medical care. You have a right to your life, you have your right to your liberty, you have a right to keep what you earn. And that’s what produces prosperity. So you want equal justice. And this is not hard for me to argue, because if you really are compassionate and you care about people, the freer the society the more prosperous it is, and more likely that you are going to have medical care… When you turn it over to central economic planning, they’re bound to make mistakes. The bureaucrats and the special interests and the Halliburtons are gonna make the money. Whether it’s war, or Katrina, these noncompetitive contracts, the bureaucrats make a lot of money and you end up with inefficiency.

  • All Things Considered, NPR, July 25, 2007

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Putin na China

Consta que V. Putin visitará a China, com este país assinado um contrato de fornecimento de gás natural. É esta a resposta conseguida pelo ocidente e aqui está uma excelente oportunidade oferecida a alguns polos industriais portugueses. Poderemos acelerar a produção de edredões, lanifícios e pijamas-Kispo  destinados à Europa central, oriental e do norte. Será que ainda temos alguém capaz de fabricar escalfetas e braseiras? Prevê-se alguma procura internacional.

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Os donos do 25 de Abril

Após um mês de intensas comemorações dos 40 anos do 25 de Abril fiquei com a sensação de que caso Francisco Louçã algum dia esgote o filão dos vários donos de Portugal, pode debruçar-se sobre os do 25 de Abril. Se achar que é pouco, poderá sempre, numa fase posterior, lançar-se sobre o filão dos herdeiros.

 

 

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Socialismo e Cold-Troika

O sociólogo Carvalho de Silva, na sequência de um exaustivo estudo, finalmente apresenta o relatório ao público – “Portugal vai continuar entroikado“. Não tenhamos dívidas, perdão, dúvidas: os efeitos do programa de ajustamento far-se-ão sentir muito para além das datas estipuladas pelo entusiasmo da propaganda política. A própria expressão “programa” talvez merecesse ser reformada e substituída por “residência”. Dizem que o tempo cura, mas falamos de quanto tempo de tratamento? O tempo suficiente para o PS tomar o poder, o PSD destronar o PS, o CDS coligar-se com o BE, pelo menos dois governos se demitirem, três presidentes da república e quatro dezenas de eurodeputados serem eleitos, três presidentes da comissão europeia serem indigitados, e por aí fora (a imaginação não conhece limites). De que forma pode Portugal circum-navegar a inevitável presença da Troika? Sair da União Europeia e do Euro e mandar à fava a vocação europeia? Avançar com um projecto de salvamento europan-periférico, criando mecanismos monetários com países que se encontram em condições económicas e sociais semelhantes? A questão a que o país está obrigado a responder, transcende mandatos de governação, ciclos de alternância em tons de rosa-laranja-azul, conquistas partidárias, desaires ideológicos, promessas e veleidades. A situação exige (parafraseando Eça de Queiroz) “macróbios da terra” – gente grande capaz de perspectivar um futuro maior que o ego, maior que a vontade de derrotar os adversários. De um modo indistinto, sem enviesamento ideológico, não fará diferença alguma qual a mascote de eleição. É óbvio que a desmama da Troika trará consequências que serão mitigadas nas décadas que se seguem (décadas, ouviram bem). O cold-Troika (cold Turkey) não será fácil, porque, sem o desejar, Portugal caiu na dependência do traficante. As doses financeiras permitiram manter o país vivo, em estado de transe, abananado pelas exigências do dealer, incrédulo em relação ao estado a que chegou – derreado. Ora um farmacéutico catita como António José Seguro até pode esfregar as mãos de contente (antecipando belos resultados eleitorais europeus), mas seria muito melhor que entendesse o que significa ser um junkie (não falo de junk bonds, lixo). Nem de longe nem de perto, o senhor que se segue, percebe as regras do jogo, do jugo. Prestem muita atenção às promessas de mundos e fundos – poços sem fundo.

Cпасибо, товарищ !!!!

 

Camaradas, a classe jornalística já pode assomar para fora do seu ordálio austero, e o cidadão comum cumprir o seu papel na sociedade, assegurado de que nenhuma mentira, falsidade, omissão, inverdade e quimera mediática voltará a ser propalada como até agora.

 

O que seria de nós sem o Novo Ministério?

 

 

Vasco Graça Moura e a Europa pós-moderna

 

 

(fotografia roubada ao Miguel Castelo-Branco)

 

A Identidade Cultural Europeia:

 

“Pelo menos para aquilo a que podemos chamar a herança do Cristianismo, não falando aqui das teocracias e dos fundamentalismos não europeus, a religião já não impregna o quotidiano e provavelmente, enquanto tal, já não tem um papel estruturante da nossa visão do mundo e ainda menos o tem na configuração política das nossas sociedades. Mas os valores de humanidade que a mensagem cristã propugnou continuam a caracterizar predominantemente o quadro europeu e as sociedades que dele derivaram, cuja matriz cristã, entre a laicidade e a democracia, é inegável e não deixa de fecundar uma e outra. E depois sempre se poderá perguntar: terá desaparecido a ânsia de transcendência e de absoluto? Ou não se terá ela deslocado, por via da laicização, para uma espécie de “divinização” do humano no plano do individualismo e da subjectividade?”

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In memoriam – Vasco Graça Moura

Uma das personalidades públicas que mais se distinguiram contra o Acordo Ortográfico. Poeta, ensaísta, romancista, dramaturgo, cronista e tradutor de clássicos, Vasco Graça Moura nasceu no Porto, na Foz do Douro, em 1942, licenciou-se em Direito, pela Universidade de Lisboa, e exerceu durante alguns anos advocacia antes de se dedicar por completo à literatura. A sua morte, hoje anunciada, era, infelizmente, esperada.

Em 1999 viria a repetir uma anterior experiência na vida política com a efémera passagem que fez por um governo provisório. Desta feita protagonizou uma candidatura com sucesso ao Parlamento Europeu, tendo sido deputado até 2009, como independente pelo PSD.

A obra de Vasco Graça Moura é, porém, vasta e inclui poesia, ensaio, romance e tradução de clássicos como Racine, Molière, de Corneille, mas, também, Seamus Heaney, Hans Magnus Enzensberger e Gottfried Benn. Dele retenho a frase: “A poesia é a minha forma verbal de estar no mundo”. Portugal fica mais pobre.

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