Sobre estas declarações de Paulo Rangel, deixo-vos um excerto do que já escrevi aqui:
«A Europa, tal como foi imaginada e construída na segunda metade do século XX, não é mais que um artifício de intelectuais progressistas que abandonaram a ideia conservadora e realista de que a Europa vive dos seus contrastes, das suas diferenças e dos seus conflitos e não da sua coerência ou da sua fraternidade. Só por este facto, a ideia da Europa una, indivisa e coesa, os Estados Unidos da Europa, enfim, todo o projecto europeu seria um projecto falhado, à partida, em tudo o que extravasasse a união aduaneira e a zona de comércio livre. Mesmo a ideia de que a Europa se tinha tornado num modelo de governação para os povos, sem a interferência directa destes, só nos podia ter conduzido a uma situação como a actual. Construir uma democracia federalista baseada numa união de Estados soberanos e democráticos terminaria, inevitavelmente, em desgraça. Desenhar um Estado democrático sem povo acabou na construção de uma frágil união de Estados sem povo e sem democracia. Com efeito, a menos que se construa uma verdadeira e genuína identidade europeia, não há razões que levem a crer o europeu mais crédulo de que a União Europeia venha a ser um Estado efectivamente democrático. Os burocratas de Bruxelas e os líderes europeus bem o têm forçado, sem qualquer resultado. Basta vermos diariamente as demonstrações de desprezo pelo mais comum dos procedimentos democráticos que os líderes europeus têm adoptado – ao ponto de se julgarem na disponibilidade de nomearem governos ilegítimos ou de tomarem medidas desprovidas de senso, como aconteceu na Itália ou no Chipre. A identidade e o espírito dos povos nascem, crescem e morrem naturalmente. E se a natureza vencerá sempre a guerra, a democracia também tem dado as suas cartas. Se não convence a opinião, fiquemo-nos pelos factos.
Mais do que os sonhos de César, Napoleão ou de Hitler, a União Europeia é o projecto político mais ambicioso de todos os tempos. Tentar unir numa só força um conjunto de Estados independentes e históricos através de meios como a criação de uma força de defesa europeia (que destronasse a NATO), a instituição de um ordenamento jurídico e de uma área judicial comuns (que interferissem e esmagassem as ordens jurídicas soberanas), a criação de uma Constituição europeia (sem que um verdadeiro poder constituinte lhe esteja por base) ou a criação de uma moeda única (que rivalizasse com o dólar) só pode ser, no mínimo, ambicioso. Mas não é natural. Nem democrático.
A eterna comparação com os Estados Unidos da América cairá sempre por terra. E, por isso, caiu também por terra a utopia de criar os Estados Unidos da Europa. A verdade é que onde os EUA nasceram como uma comunidade que partilhava cultura, valores e língua, a Europa é um albergue de países com línguas, culturas e fronteiras centenárias. E se a América se transformou num Estado federal porque uma série de acontecimentos históricos a conduziram a isso, a Europa sonha tornar-se num Estado federal porque se construiu um projecto para isso. Onde a história e a natureza dos homens fizeram um Estado, a utopia criou um fracasso: a União Europeia. E a Europa falhará – e já está a falhar – pelo optimismo desmedido dos seus líderes que redundou na “falácia da melhor das hipóteses”. Como Roger Scrutonexplicou, a falácia da melhor das hipóteses“é a mentalidade do jogador. Diz-se por vezes que os jogadores são pessoas que arriscam e isso, pelo menos, pode-se admirar neles: terem a coragem de arriscar o que têm no jogo que os atrai. Isto é, de facto, o oposto da verdade. Os jogadores não são de todo pessoas que arriscam; entram no jogo com a plena expectativa de ganhar, levados pelas suas ilusões a expor-se numa situação irreal de segurança1”. A prova maior da mentalidade do jogador na construção europeia foi a criação da moeda única. E Portugal, em concreto, sofre hoje, duramente, as consequências da falta de algum pessimismo na sua integração europeia. (…) Apesar da excitação global com a crescente integração europeia, algumas vozes souberam levantar-se a tempo de alertar para os perigos a que estávamos sujeitos. Mais uma vez, a falácia da melhor das hipóteses e o optimismo utópico levaram a melhor sobre prudentes como Margaret Thatcher, por exemplo, que, em 2002, dizia estas quatro coisas tão simples2:
1. “A moeda única europeia está condenada ao fracasso, tanto económico como político e social, embora o momento e as consequências disso ainda não se possam ver com clareza.
2. Consequentemente, os países que não aderiram devem manter-se à distância.
3. Este fracasso não pode ser corrigido pelos americanos nem por quaisquer medidas internacionais destinadas a salvar o euro, na medida em que os fundamentos da zona euro carecem de solidez.
4. A grande prioridade dos não europeus é de tentar limitar os danos que as políticas europeias mais tarde ou mais cedo provocarão na economia mundial.” (…)Portugal esperará, como todos os outros, pelo colapso da moeda única – já que nenhum Estado terá, em princípio, a coragem de o abandonar por livre iniciativa. Talvez esse cenário, que não é risonho, pudesse ser antecipado com a livre saída do euro. Parece-me, contudo, que tal não irá acontecer. Somos, e continuaremos a ser, vítimas e cúmplices das políticas anti-democráticas e planificadoras da União Europeia e do nosso próprio sistema interno. E, como o resto da Europa, cairemos graças à aplicação, durante mais de quarenta anos, de um sistema que subverteu todas as virtudes do capitalismo, adulterando-o com as mais vis opções do socialismo (democrático ou não). O caminho seria, então, o oposto a este. Mais liberdade e menos imposição, mais mercado e menos interferência do Estado no seu normal funcionamento (de que as estapafúrdias nacionalizações da banca são um péssimo exemplo), mais individualismo e menos colectivismo, mais caridade individual e menos solidariedade estatal, mais escolha e menos uniformização, mais oportunidades e menos igualdade de resultados. Não há milagres económicos sem rupturas definitivas. Não há crescimento, nesta fase, sem passarmos por dias negros. Não há salvação possível sem que se destrua, por fim, um sistema que faliu, mas que todos tentam, diariamente e sem resultados, salvar.»
ou é confusão minha ou culpar a Ue como estado de pre falencia que os miseraveis governantes e entidades reguladoras conduziram o país é uma ficção de mau gosto?
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ou é confusão minha ou culpar a Ue como estado de pre falencia que os miseraveis governantes e entidades reguladoras conduziram o país é uma ficção de mau gosto?
Esta é, resumidamente, a visão europeia do problema. Teria que ler o artigo completo para perceber o resto.