José Adelino Maltez, “As estórias da carochinha“:

 

“Entre o bom e velho Estado do Congresso de Matosinhos, de José Sócrates, e o renascimento vocabular da social-democracia, do popularismo ou da via liberal para o mais do mesmo, sempre a mesma cultura pós-totalitária, a nova questão social acrescendo à velha, a permanente teoria da conspiração, o homem de sempre e o vazio de patriotismo regenerador. Sim, o que é isso de Estado? Os desgraçados que o têm como patrão ou cobrador de impostos? Os privilegiados que dele recebem subsídio ou isenção? Infelizmente, continuamos a dizer que o Estado são eles, os do aparelho de poder e das respetivas máquinas de assalto à decisão, isto é, o principado e a sociedade de corte. Quando, em democracia, o Estado devíamos ser nós, o Estado-comunidade, ou o Estado-república. Daí que o partido mais situacionista de Portugal, voltado sobre as próprias entranhas, tenha atingido o clímax quando confirma que Miguel, Relvas, é o ortónimo de Pedro, Passos, numa laranjada em estado puríssimo, onde ambos rimam com Paulo e com Aníbal, para que outros heterónimos, no espaço comunicativo do agenda setting, finjam, depois, que não é verdade o que, na verdade, é. Neste jardim das delícias dos recreios congressistas, confirma-se que corte, expressão derivada do latim cohorscohordis, é aquela parte da casa romana que estava ao lado e complementava o hortus, o jardim. Um nome que tanto deu a côrte dos reis, com um circunflexo no o, donde veio o cortês, a cortesia e o cortesão, como também se manteve numa designação de parte da casa rural portuguesa, a córte dos animais (com acento agudo no o). Soares não foi a esta aula magna e Seguro confirma: para quê a pressa? Na sociedade de corte, há estórias da carochinha, bobos do regime, conversas em família e sopeiras do sistema, mas, no país das realidades pode ser maior a memória do sofrimento.”