Sem nos apercebermos, é bem possível que estejamos a viver momentos históricos. Em Kiev e em Caracas, o povo sai à rua, é recebido com violência e, naturalmente, responde com violência. Observar, da segurança ocidental, estes incidentes, dá-me um misto de esperança e de inquietação. Ao mesmo tempo fico feliz por ver resistência popular contra estes Estados nominalmente democráticos, com até algum (muito pouco) espaço para pluralismo e direitos políticos, que na realidade são ditaduras em incubação. E isso vê-se na resposta aos protestos. Aqui pela Europa tambem houve uma série de protestos de proporções gigantescas, a maioria anti-austeridade. Houve montras partidas, carros queimados, mas não se viu a polícia com AK-47’s para dispersar os manifestantes. Aí reside a diferença. Por muito mal que a nossa democracia portuguesa possa funcionar, ou por muito mal que as instituições italianas ou gregas funcionem, a polícia não dispara balas de chumbo contra manifestantes. Ponto. Enfim, mas não me vou demorar em comparações. Vamos ao que interessa.

 

Todos sabemos como é que estes protestos ucranianos, os chamados Euromaidan, surgiram, ainda em Novembro. O que inicialmente era apenas uma contestação a uma decisão de política externa do Governo ucraniano tornou-se em algo maior do que isso – um protesto contra a corrupção, o corporativismo, a limitação de liberdades civis, o nepotismo e tantos outros males que assolavam a Ucrânia. Não que a Ucrânia fosse um Estado ditatorial, nada disso. Uma ‘democracia’ com mão forte, talvez. Uma cleptocracia quiçá. O que tornou isto tão sério foi a tentativa de criminalizar ou marginalizar estas manifestações, através de agents provocateurs que nelas se infiltravam e criavam focos de violência, através da criminalização das próprias manifestações e, mais recentemente, de disparos de munição real. Quando um Estado dispara contra cidadãos desarmados, merece resposta na mesma moeda. É uma questão de auto-defesa e de auto-determinação. Toda a minha solidariedade vai para os cidadãos ucranianos que lutam por algo que para nós é tão garantido. Muitos de nós nem sequer imaginam a possibilidade da polícia disparar munições reais para manifestantes. O que para nós é garantido há 40 anos, para os ucranianos não é.

 

E isto não é só uma questão meramente de política interna ucraniana – é uma questão de geopolítica. Um país dividido entre uma metade ucraniana claramente mais pró-UE e uma metade russa claramente mais pró-russa. Se não houver uma solução pacífica em breve, isto poderá descambar para uma guerra civil, e Vladimir Putin não hesitará em intervir para ‘defender os russos étnicos que vivem na Ucrânia’, justificação que esconde as históricas ambições imperialistas russas relativamente à Ucrânia (curiosamente, até foi em Kiev que apareceu o primeiro principado russo). E este país pode-se tornar na próxima Polónia. Entre a UE e a Rússia, dividido linguistica e culturalmente, com séculos de uma história de ocupações e genocídio. O pior cenário seria uma invasão russa caso isto descambasse para guerra civil. Mas aí, o quê que a UE e os EUA fariam? Interviriam? Arriscariam um confronto com a Rússia? Talvez não seja a opção mais sensata, mas lembremo-nos da última vez que a Europa embarcou numa atitude de appeasement com um país grande que começou a anexar os vizinhos e a intervir na sua política interna. Pois. É uma questão complicada, e interessante, certamente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Do outro lado do Atlântico, parece que o chavismo enfrentam mais uma onda de contestação. Parece que a Revolução Bolivariana não deu muito bom resultado, com falta de produtos básicos e essenciais, com inflação galopante, criminalidade gritante e controlo estatal dos media e das redes sociais. Já para não falar da justiça parcial, da repressão à oposição e à liberdade de expressão. Claro que, para Maduro, estas manifestações não são justificadas, porque todos os problemas são culpas do sabotador yankee e dos colombianos. Já dizia Popper:

“Não quero dizer que as conspirações nunca acontecem. Pelo contrário, elas são um fenómeno social típico. Elas tornam-se importantes, por exemplo, quando as pessoas que acreditam na teoria da conspiração chegam ao poder. E as pessoas que sinceramente acreditam que sabem como fazer o céu na terra, mais provavelmente adoptarão a teoria da conspiração, envolvendo-se numa contra-conspiração contra conspiradores que não existem. Pois a única explicação do seu falhanço em produzir esse céu é a intenção malvada do Diabo, que tem interesses em criar o Inferno na Terra.” 

 

Enfim, tal como na Ucrânia, na Venezuela, estudantes são recebidos a tiro, líderes da oposição são detidos. O que mostra uma coisa – não há nenhuma singularidade no Chavismo. É só mais um regime tipicamente latino-americano de caudillo, só que com um discurso de esquerda, tipo Peronismo. Os sinais típicos – prendem-se líderes da oposição, alegando-se que estão a planear golpes, disparam-se contra manifestantes, descreve-se manifestações como tentativas de golpe ou levantamento, nunca uma expressão legítima de descontentamento popular – estão à vista. A Venezuela não é diferente da Argentina Peronista, nem de Cuba. É só mais um, numa sucessão de regimes autoritários latino-americanos. E outra lição que tiramos da Venezuela passa pelas fragilidades do socialismo radical e revolucionário – uma ideologia que, para funcionar, precisa de um consentimento geral que nunca terá. Quando não o tem resolve-se à paulada. Se é tudo inevitável e inexorável, porquê remar contra a maré?

 

Sinceramente, espero que os levantamentos populares na Ucrânia e na Venezuela tenham sucesso. Sei que a democracia não virá do dia para a noite, mas pode ser que seja mais um passo na sua direcção. A não ser que isto seja tudo uma conspiração dos americanos e da UE para assegurar a escravatura desses povos através do livre comércio. Também pode ser isso, mas perguntem ao Bernardino.