‘Pan-Theos’

Tenho vindo a seguir a história da trasladação do Eusébio para o Panteão Nacional, confesso que com alguma perplexidade. Feito um pouco de pesquisa sobre as origens do nosso Panteão Nacional, cheguei à conclusão que foi algo feito na Primeira República (se bem que só completado em 1966), substituindo-se uma Igreja inacabada (Sta. Engrácia) por este novo monumento do culto cívico. Cópia, aliás, do que já tinha sido feito em França, ao substituir-se a Basílica de St. Genevieve pelo Panthéon National. O objectivo de ambos (tal como do Pantéon Nacional venezuelano ou o inacabado Panteão dos Heróis da União Soviética) é glorificar os mais brilhantes filhos da naçãoaux grandes hommes, la patrie reconnaissante (aos grandes homens, a pátria grata/reconhecedora), tal está escrito no Panthéon em Paris. Ambos os Panteões são filhos de um republicanismo recente sedento de instaurar um culto cívico para substituir o religioso. Não me levem da maneira errada, apesar de eu continuar a ser irredutivelmente republicano, sem prejuízo das muitas críticas possíveis de se fazer à 1ª República, ela partilha uma coisa com as Repúblicas Francesas (e não com a 3ª República Portuguesa, em minha opinião) que me irrita bastante – a substituição dum misticismo espiritual por um misticismo cívico. Política necessária em Repúblicas jovens em países profundamente católicos? Quiçá. Ou substituição dum autoritarismo do espírito por outro? É bem possível.

 

Os Panteões são a maior expressão disso, a exaltação dos ‘mais brilhantes filhos da Nação’, homens endeusados. Sim, porque, como qualquer pessoa com o mínimo conhecimento de grego sabe, pan-theos significa ‘todos os deus’, logo, pantheon é o ‘templo de todos os deuses’. Será que é esse o propósito? De endeusar pessoas notáveis? Amália, agora Sophia e Eusébio foram sem dúvida, pessoas notáveis no seu campo. Mas pessoas. Para quê endeusar pessoas? Não é tão perigoso endeusar mortos como vivos, mas será isso justo apra a sua memória? Todas as pessoas que estão em panteões espalhados por esse mundo fora, desde Voltaire a (futuramente) Eusébio, foram, no fundo, homens. Será justo transformá-los em deuses, perfeitos filhos da Nação? Também eles tinham as suas imperfeições – o Eusébio alcoólico, o Voltaire que dizia que não tinha a certeza se ‘judeus e negros eram pessoas’. Poderia arranjar countless examples.

 

 

Pôr um homem num Panteão é negar a sua própria natureza de homem, negar as suas imperfeições, e negar que afinal, o que faz dessas pessoas tão grandes é terem sido quem foram no meio de tanta imperfeição. 

 

Não é justo para a memória de um morto um país raptar o seu talento. Eusébio não era Portugal, Amália não era Portugal. Esses lugares-comuns são vazios e redutores dessas personalidades, dizendo que, afinal, são apenas o resultado natural de dado país/povo. Não, Eusébio não era Portugal nem Amália era Portugal. Eusébio era Eusébio e Amália era Amália, e a sua grandeza enquanto pessoas resulta deles mesmos e do seu talento e determinação. Eles não nos pertencem. 

 

Por isso, por favor, deixem o Eusébio no Cemitério do Lumiar, que até é perto de minha casa e posso ir lá prestar-lhe homenagem.

1 Comment

  1. Nuno Castelo-Branco

    Nada de ralanços com minudências destas. Já prevendo o que um dia poderia suceder à sua carcaça, Camilo decidiu doar o seu cadáver  ao seu amigo Freitas Fortuna. Se a escória que rege o ignóbil regime verde-tinto se atrever a querer arrastar o seu caixão para a companhia do Sidónio, do Arriaga, do intestino Delgado e quejandos, pode o António ter a certeza de que a família fará um escândalo. 

    A “gente que manda” ainda não observou um pequeno detalhe. No topo do tal panteão laico está uma cruz bem católica. Pelo vistos, a Sra. Dª Amália prepondera. Gostava de saber a opinião dos espíritos da  aventalagem lá encerrada… 😉

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