Mês: Janeiro 2014 (Page 1 of 11)

Já sabem contar até 31!

Há 123 anos, por força do ultimato imposto pela coroa britânica, a nação estava de joelhos perante potências estrangeiras, o país estava numa situação de pré-bancarrota por incapacidade dos governos que se iam alternando entre os partidos regenerador e progressista. Para além disso, a situação do povo era de miséria, a insatisfação era total, impunha-se uma mudança profunda”.

 

E mudou mesmo. Para pior, muito, muitíssimo pior.

Já tivemos revoltas de marechais, revoltas e regimes de generais, balelas de “capitões” ajaezados de “cornéis” e agora ameaçam-nos os sargentos. Como se vê, trata-se de uma vertiginosa ribanceira abaixo.

 

Desgraçadamente, estes ainda não chegaram ao curto capítulo que se seguiu a esse “nefasto e em boa hora deposto período” da Monarquia Constitucional. Vão a um alfarrabista e comprem um livrinho da antiga 4ª classe. Lá está tudo convenientemente explicado e a verde-tinto, como eles dizem amar.

Estes livrinhos apresentam-se em português directo, sem torcidinhos neo-realistas. Até um sargento o entenderá. 

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PSD e PS: olha que dois

A máxima: “o que hoje é verdade amanhã não é”, deve ser tatuada no corpo da política. Todos sabemos de antemão que a mudança de posições é uma constante da vida política. A morte ideológica, no seu sentido clássico, já ocorreu há muito tempo. Os discursos da Esquerda e da Direita confundem-se como premonições de irmãos gémeos. A disciplina de pensamento já não é o que era, e como dizia o outro: “prognósticos só no fim do jogo”. Vem a propósito este post porque o impensável deve começar a ser considerado no que diz respeito a emparelhamentos que decorrem de legislativas, que servem para constituir governos de coligação. Embora Seguro repita jamais a cada interpelação, o contrário talvez não seja o caso. Passos Coelho sabe, no contexto de desalinhamentos na Esquerda (com a excepção do PCP), que deve amaciar o pêlo daqueles que precisa para prolongar o  governo de Portugal. As Europeias podem ser um bom ensaio dessa lógica de encosto, a demonstração para inglês ver que a distância que separa o PSD do PS não é assim tão grande. Aliás, os socialistas foram tão ou mais neo-liberais que o actual governo, embora no defeso afirmem o oposto – neguem tudo. Uma metade do actual governo de coligação sabe que deve lançar as suas redes de pesca em mares orientais, mas essa é apenas a face visível do jogo. Nunca saberemos o que se passa nos bastidores e que realmente conta. Nunca saberemos que negociações decorrem entre os barões de São Caetano e do Rato. Ora veja-se; o PS não rejeita liminarmente os elogios do Governo no que diz respeito à elaboração do programa de fundos comunitários. E faz sentido que assim seja. Os fundos comunitários são como uma bandeira de tudo de bom e mau que a governação acarreta. Foram os fundos comunitários que alimentaram a ideia de grandeza. Foram os dinheiros comunitários que deram azo a desvios e desfalques. Portanto, em abono da verdade histórica, faz muito sentido que o PSD e o PS repartam o ónus desse pacto, desse património que geriram com tanta arte. Não me admiraria portanto, que nas legislativas que se seguem, uma nova coligação nasça com toda a naturalidade. Assim sendo, vislumbro a possibilidade de mais um governo de coligação repartido entre o PSD e os PS. Não encaro uma viragem radical do eleitorado, a penalização excessiva do presente governo nas Europeias que se seguem. Vejo algo distinto, mas frequente na grande mesa do convívio político em Portugal. Numa situação em que não há claros vencedores, em que há um empate técnico, as comadres lá terão de se entender para repartir o poder. De qualquer modo, não fará diferença alguma. Se são os mercados que mandam, se é a Troika que manda, então não interessa muito quem recebe as ordens. E é fundamentalmente isto que está em causa. A existência de uma força política capaz de demolir o edifício desse jugo, da submissão da austeridade imposta por decreto e chantagem financeira. Não me parece que o PS seja capaz de o fazer, de levar por diante a revolução, e, lá no fundo, Seguro sabe, mas não quer admitir, que terá de ser um menino bem comportado e acarretar as ordens dadas. Já lhe disseram  várias vezes nas diversas visitas de avaliação do programa de ajustamento, mas ele ainda não confessou esse pecado mortal. Finge-se morto e nada diz.

Só ares de Fritas do Bombarral

 

Como ele está diferente, tão, tão diferente que bem poderia mudar de nome, passando a chamar-se Diego Fritas do Bombarral. Como já se ouvem nomes de substituição de Cavaco por um outro mais ou menos circunspecto comensal, o homem faz tremelicar a indignada papada e já faz o tirocínio, não vá um Guterres ou um qualquer  demolidor Costa antecipar-se. 

O governo é mesmo um desastre, há que dizê-lo. Falhou em tudo e mais alguma coisa e concertou-se numa conspiração internacional de assopro de uma cortina de fumo de aldrabões que vão desde as mafiosas agências de rating – sim, parecem e são mesmo mafiosos de avental fora da cozinha, até ao BCE e Comissão Europeia, aos estudos de opinião à população portuguesa, não esquecendo os “achares” dos empresários, do secretário de Estado USA,  as manigâncias do INE, etc. Na verdade, o Sol é que gira à volta da Terra e a Terra é oca – existe uma base nacional-socialista no seu interior -, Hitler vive na Argentina, os gatos dão azar, Elvis foi criogenizado, o ADN de Lenine já levou à sua clonagem, a face oculta da Lua é povoada por aliens e os faraós egípcios vieram de Orion.

 

Estamos fatalmente atolados num chorrilho de aldrabices e os apregoados dados positivos, são e devem mesmo ser  muitíssimo negativos. Se por desgraça a maioria vai ao encontro dos caprichos da oposição – na coisa dos feriados, por exemplo -, logo salta a terreiro um jeronimita, para numa rápida jeremíada garantir que tudo não passa de falsidade manipuladora. Em suma, devem ser repostos, mas não devem ser repostos.

O pior é o resto, a tal coisa séria que afecta todos os nossos leitores. Como no governo e na maioria parece prevalecer a hipótese do programa cautelar pós-troika, o professor Diego sugere ser esse o caminho mais desejável e por isso mesmo, o governo deve “levar com” um cartão amarelo. À falta de outro, já estamos no âmbito dos futebóis orais. 

 

O caso Fritas do Bombarral sem Fundação que lhe valha, é mais um entre muitos outros ersatz de Soares. O que terá acontecido à sua reforma, à pensão da luxuosa morte lenta? Também foi tornada mais solidária?  Deve ser isso. 

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Do endoidecimento colectivo

Começamos a perceber que o ridículo das praxes não tem fim quando aparece no telejornal um tipo com cerca de 40 anos que, sem vergonha, enverga o título de “Dux jubilado”. Também começamos a perceber o absurdo que atinge o país quando tanta gente quer proibir as praxes e um deputado de uma alegada democracia liberal afirma que “todos os direitos podem ser referendados”. Por mim, já que estamos nestes domínios, façam-me lá o jeitinho e proíbam os trajes académicos, essa ode ao mau gosto.

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A toxicodependência das taxas de juro

Eu sei que a Turquia e a África do Sul estão a grande distância física de Portugal. Mas esse facto não deve ser subestimado. A mera sugestão de abrandamento do programa de estímulo financeiro levado a cabo pela Reserva Federal dos EUA ( na ordem dos 10 mil milhões de dólares), foi mais que suficiente para fazer subir as taxas de juro e gerar ondas de choque naqueles dois países. Este sintoma de pânico moderado não deve ser ignorado. Serve de indicador para efeitos que se farão sentir noutras paragens à medida que o preço do dinheiro retomar a sua via ascendente. São externalidades desta natureza que me preocupam especialmente. Os políticos europeus, nos quais incluo os portugueses, parecem fazer contas de somar sem levar em conta eventos excêntricos. A subida de taxas de juro “per se” causa desgaste em economias emergentes, ou nas desenvolvidas, já de si debilitadas pelas agruras da crise que começou a ganhar expressão em 2008. A subida das taxas de juro afectará as empresas que desejam reunir as condições de financiamento para dar continuidade às suas operações ou aquelas que pretendem realizar start-ups. São desalinhamentos desta natureza, assimetrias deste género, que poderão fustigar as boas intenções daqueles que sonham com a saída do programa de assistência a 17 de Maio deste ano. Por outras palavras, tenho dúvidas que o presente ambiente de dinheiro fácil tenha sido aproveitado para relançar a economia. Quando a hora das necessidades chegar, o comboio do dinheiro fácil já terá partido. Temo que Portugal venha a ser apanhado em contra-pé quando os EUA decidirem travar as medidas de estímulo de um modo mais brusco. Por essa razão a Reserva Federal tem sido cautelosa no “abandono da dependência”. Os mercados e as economias de todo o mundo vivem sob a sombrinha dessas medidas extraordinárias, inventadas para relançar a economia americana, mas que se fazem sentir a grande distância dos domínios do Uncle Sam. Os decisores monetários norte-americanos sabem que a coisa tem de ser feita devagarinho para não causar muita mossa, mas em última instância, o sistema financeiro global é um animal que não pode ser domesticado para mitigar os mais que prováveis efeitos colaterais. Por essa razão o que se passa na Turquia e na África do Sul interessa (e muito) aos decisores políticos locais. Podem bradar aos céus que isso é lá com eles, mas não é bem assim. O BCE que se cuide e tome as medidas cautelares adequadas, nomeadamente a implementação das suas próprias medidas de estímulo das economias da periferia, mas sem esquecer as do centro que se degradam a cada dia que passa.

Um bom conselho

Já que alguns dos periódicos da nossa praça decidiram fazer uma revisitação jornaleira da I Guerra Mundial, não seria de todo desavisada a aplicação, em simultâneo, desse capital de pesquisa na oferta, sem quaisquer contrapartidas, de “As Consequências Económicas da Paz” de John Maynard Keynes. Seria, até, vistas bem as coisas, uma boa forma de compreender, num exercício de prognose, o que poderá estar reservado ao continente europeu, caso algumas das engenharias políticas e económicas propugnadas pela finança insindincada sejam levadas avante. Os leitores, entre os quais me incluo, agradeceriam, decerto, esse esforço.

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O weekly leak do BE

Era previsível desde o momento em que pela primeira vez se apresentou em público. O estilhaçar dos grupúsculos de esquerda é coisa tão natural como a chuva no inverno. Quem tenha vivido os anos do PREC – o mental, aquele que se estendeu muito para além da mítica data do 25 de Novembro -, decerto terá assistido ao nascimento e morte natural, porque prematura, de uma infinidade de agremiações de amigos e camaradas, fossem estes burgueses dados a auto-convenciomento de requintes de estilo que ninguém mais via, ou de umas tantas línguas de trapos unidas pela rebeldia à sujeição ao centralismo da seita preponderante na área.

O weekly leak do BE. Começou por ser um verter a conta-gotas, saindo Louçã à socapa, embora deixando como prenda, gente da sua confiança. Já vimos disto, desde o sr. Manuel Serra e a sua FSP, até à UEDS de Lopes Cardoso ou o MES de Sampaio. Acabaram todos por ter algo a ver com o PS, acontecendo isto antes de uma ruptura ou após uma adesão ou re-adesão em proveito próprio. Quanto ao BE – exquisit coligação burguesa estalino-trotsquista -, talvez venha a trocar o seu mini bus eleitoral, por uma mais  prática e económica moto side car.  Para as lides governamentais, não fará qualquer diferença parlamentar, há que dizê-lo. 

 

No Rato bem podem ir convencendo as secções locais para a necessidade da elaboração de futuras listas de candidatura ao Parlamento, pois lá não poderão faltar as sumidades do momento, já aggiornadas às necessidades do new deal da social-democracia do século XXI, atenta ao empreendedorismo, inovação e mercados.

 

Olveira, Amaral Dias e Drago. Como poderá o agora moderado Louçã ficar de fora?

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O caviar intragável

Pois é, parece que à esquerda não há, efectivamente, nada de novo debaixo do sol.O Bloco, fazendo jus à sua tradição de parlapatice enfatuada, vai-se esfumando progressivamente, levando, nessa espiral destrutiva, os pouquíssimos rostos mediaticamente apelativos que ainda restavam nas caves bolorentas da Almirante Reis. A coisa tem uma história e genealogia próprias, que, para abreviar o possível cansaço dos leitores com as tranquibérnias do esquerdismo caviar, se resume no facto de a tradição política da extrema-esquerda ter no seu âmago constitutivo o dissídio e o confronto intestinos. Nada que, em boa verdade, surpreenda os espectadores mais cautos das guerras civis da esquerda portuguesa. Aliás, se há ilação que se pode retirar da imensa confusão em que caiu o Bloco de Esquerda é que o aggiornamento das esquerdas portuguesas, sob este regime, e com estes protagonistas políticos, é, ao cabo, uma autêntica miragem. Passada uma década e meia, o Bloco implode sem que, ao menos, tenha logrado europeizar, política e intelectualmente, um sistema político configurado às arrecuas. Mas, no fundo, o que tem de ser tem sempre muita força, e, neste caso, a força reside inapelavelmente do lado dos que desejam, sem desprimor para Schumpeter, a destruição pouco criativa da civilidade inerente ao bom trato da coisa pública. O problema é que, com esta implosão, a governabilidade futura do país ficará, em grande medida, superiormente limitada. Mais: pensar numa esquerda que governe unida, carregando solidariamente as dores da governação, é, para todos os efeitos, uma ilusão que doravante, atenta a crise presente, importa não alimentar. Tudo leva a crer, portanto, que serão os portugueses a pagar, mais uma vez, a factura desta romaria festiva, pela singela razão de que não será de todo possível regenerar a República sem uma extrema-esquerda que entre no arco da governabilidade, desobstruindo, com essa abertura, o imobilismo político crismado pelo PREC. Foi isto que, com muita bufonaria política à mistura, o séquito de Louçã diligentemente legou aos seus compatriotas.

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