Sempre tive em boa conta Manuela Ferreira Leite. Não é que nutra, note-se, uma especial admiração pela agora furibunda ex-líder do PSD, contudo, num passado não muito remoto, a minha pobre cabecinha cria, pelos vistos, erradamente, que Manuela Ferreira Leite era capaz, ao contrário do seu mui adorado conselheiro, José Pacheco Pereira, de raciocinar com alguma seriedade, deixando de lado os miserandos ódios pessoais que costumam, como é sabido, alentar os politiqueiros séniores do regime. Enganei-me redondamente. Ontem, para espanto de alguns e gáudio de outros, a nossa querida Manuela resolveu achincalhar os pacientes telespectadores comparando a situação actual do país com a situação do pós-guerra. Sim, leram bem, Portugal, segundo a douta criatura, é, neste preciso momento, similar à Inglaterra de 1945 ou à Espanha de 1939. Vejamos esta pérola: “Quando há uma guerra morrem milhões de pessoas e destroem-se imensas coisas e depois não há outra consequência a não ser crescer”. Sim, Manuela, o fim da guerra, por uma questão de lógica matemática, pressupõe, como é óbvio, o crescimento económico, o problema é que, em Portugal, que eu saiba, repito, que eu saiba, não houve, a avaliar por aquilo que vejo quando saio à rua, um conflito bélico. A não ser que os dichotes gonorreicos de Soares e respectiva comandita possam ser considerados um prenúncio de guerra, ou até a própria guerra. Bem se vê que, com um debate político assente em disparates deste calibre, será difícil, no futuro, discorrer, seriamente, sobre os múltiplos desafios que impendem sobre o Governo e o país. É que, pelo menos, para mim, a memória ainda é um património a ser preservado. E, analisando a fundo esse património, é fácil concluir que Manuela Ferreira Leite mudou radicalmente de opinião. Não é que haja algo de negativo relativamente a isso, mas é muito curioso comparar o que dizia Ferreira Leite em 2009 com o que diz agora. O mundo muda, de facto, muito rapidamente, e Manuela, à semelhança de muitos outros, também mudou. Só que neste caso, mudou, sobretudo, por revanche pessoal. É este o busílis da questão, e quanto a isto não há nada a fazer.
Caríssimos portugueses, estivemos em guerra, não repararam?
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Muito recentemente, numa conversa com um funcionário estrangeiro do centro Jean Monet, este dizia-me de forma bastante preocupada:
– “Em 1892, Portugal podia contar com D. Carlos, com José Dias Ferreira, com o Ultramar e a aliança inglesa. Hoje vocês têm Cavaco Silva – e os outros ainda eram muito piores! -, têm a bisneta de Dias Ferreira, a Dra. Manuela Ferreira Leite e uma Europa que apenas vos tolera e despreza. Como amigo de Portugal, sinto-me extremamente desencorajado. O Nuno consegue ver a diferença?”
Consigo.