Faço uma breve pausa no interregno a que me tenho forçado quanto ao comentário da espuma das dias, em virtude da necessária disponibilidade horária e mental que os trabalhos de doutoramento exigem, apenas para perguntar se a seguinte citação de João Vilela, resultante da guerra civil que vai pelo 5 Dias, é mesmo a sério ou se estamos perante uma espécie de humor da mais refinada estirpe:
“Ser de direita é o refúgio natural das mentes preguiçosas. À direita não se discute, não se teoriza, não se reflecte, não se elabora pensamento. Isso das teorias, das doutrinas, das ideologias, é tudo uma grande treta com que só a esquerda perde tempo.”
Dando de barato o óbvio, que parece escapar ao autor, está à vista de todos que é a esquerda que tem prazer na discussão – particularmente a discussão racional e animada apenas pela libido sciendi -, de tal forma que uma discussão sobre Álvaro Cunhal leva a cisões num blog. Isto para não falar desses paraísos para a discussão pública, teórica e ideológica que foram e são os regimes comunistas.
De resto, talvez se compreeenda que, em não se tratando de humor, a afirmação enferme de uma certa ignorância, porquanto estamos em presença de um “Professor de História da Arte algures na cidade do Porto, licenciado em História e mestre em História e Educação.” Tendo apenas em consideração a realidade portuguesa contemporânea, desafiava esta mente nada preguiçosa a revelar-nos alguns trabalhos sérios à esquerda sobre história das ideias políticas, doutrinas e ideologias – está, naturalmente, excluída a propaganda comunista. Assim de repente, em termos de obras de referência, lembro-me apenas dos trabalhos dos Professores Adriano Moreira, António Marques Bessa, Jaime Nogueira Pinto, José Adelino Maltez e António de Sousa Lara. Seguindo a lógica nada falaciosa de João Vilela, partindo da premissa que não são mentes preguiçosas, conclui-se que são todos de esquerda, como é público e notório.
E ainda te ofereces ao frete de dar um mínimo de atenção aos batráquios de Estaline…? Perdermos um minuto que seja com a questão Cunhal já é um ordálio tão penoso como o mergulhar das mãos em azeite a escaldar, mas conferirmos um segundo às reflexões de um setôr de História de Arte, tornar-se-á então num fugaz momento de bem gozado prazer.
Imaginemos então que sendo o dito cujo comunista e saltando em reversão todas as etapas que ele apontará como marcos evolutivos, o que teria a contar sobre a história da arte? Passando sobre os anacronismos, essa direita negregada pelo soluçar compulsivo dos sonhadores de lutas, para o melhor e para o pior fez o mundo que conhecemos. Sem mecenas, sem esses imperadores reis e príncipes, cardeais e papas, sem comerciantes e industriais burgueses desejosos de dourar os seus salões com encomendas a uns centos de pobres diabos muitas das vezes retirados de uma choça qualquer, o que ensinaria hoje o homem? A maticagem de palhotas populares num neolitico que se teria prolongado até aos nossos dias?
Samuel, essa auto-convencida esquerda de cordel, vive enclausurada num mundo que já não existia quando Marx morreu. Não vai a sítio nenhum, jamais ultrapasará a melindrosa questão da foice e do martelo com a estrelinha cheia ou vazada. Para mais, Cunhal não passará de uma breve nota de rodapé, talvez até com menos bater de caracteres que aquela reservada a um Miguel de Vasconcelos. Mortas as gerações que infelizmente tiveram de suportar os resultados das suas actividades extra e intra-fronteiras, esfumar-se-á irremediavelmente.