Escrevo um breve post, pois o meu tempo não me permite para mais. Adorava pronunciar-me sobre as cerimónias para-religiosas que ocorrem no centenário do nascimento de Álvaro Cunhal, adorava pronunciar-me sobre a homenagem que um país democrático presta a alguém que não gostava muito dessa coisa da democracia. Mas não o vou fazer. Os meus colegas de blog já o fizeram de modo virtuoso, e, enfim, falta-me o tempo para tal e para responder aos contra-argumentos que naturalmente surgiriam.

 

Cunhal com Husák, Castro e Honecker – tudo bons rapazes

 

 

Queria só dizer isto – muitos dizem que é falacioso acusar Cunhal de ser um ‘hipotético ditador’, porque ele nunca chegou ao poder e que estava cheio de boas intenções em manter uma democracia multipartidária (como se algum marxista ortodoxo como ele, com a sua ‘crença inabalável’ no seu próprio triunfo, inevitável, inexorável e invencível, alguma vez tolerasse isso. é incoerente com a própria teoria marxista) e, especialmente, que ele ‘resistiu ao Estado Novo’ e que isso o redime todos os seus pecados, sejam verdadeiros ou hipotéticos. Ninguém poderá assim objectar a uma homenagem quando o Jean-Marie Le Pen morrer – pode ter liderado um partido com tendências fascizantes, mas como nunca chegou ao poder, nunca ninguém saberá se ele seria um ditador ou se montaria um aparelho de opressão.

 

Erich Honecker, Secretário Geral do SED da RDA (Partido de Unidade Socialista – o partido único da RDA) de 1971 até 1989 e durante os anos 60, como Secretário do Conselho Nacional de Defesa, aprovando a construção do Muro de Berlim e autorizando o abatimento de qualquer pessoa que o tentasse passar, não é propriamente um role-model e pouca gente há de o homenagear na Alemanha actual – o seu papel como Secretário do Conselho Nacional de Defesa terá levado à morte de um grande número de pessoas. E o seu papel como Secretário Geral do SED, porquanto não será certo a alocação de responsabilidades por mortes, pelo menos directamente (o que eu acho difícil, mas também, quem fez o Holocausto não foi o Hitler, foram os subordinados, então não é?), é certa a perpetuação do gigante aparelho opressivo representado pela Statsi. Mesmo assim ele lutou contra o III Reich, participando activamente na Resistência Alemã e tendo sido preso. Tal como Cunhal. Isso desculpa o que fez ou o que pensa? Não.

 

Bottomline: pensemos em Le Pen e Honecker e no que têm em comum com Cunhal. O primeiro, tal como Cunhal, é/foi líder dum partido extremista e radical que, felizmente, nunca chegou ao poder. Assim, ninguém pode imputar, teoricamente, nada aambos. Contudo, qualquer pessoa com dois dedos de testa saberá que, tivesse um ou outro chegado ao poder, quais seriam provavelmente as consequências. Não é preciso pensar muito. Cunhal era um marxista-leninista hardline, ninguém o negará. Le Pen é um autoritário conservador com sérias tendências para um tipo de cripto-fascismo francês, ninguém o nega também. Não é o facto de eles não terem chegado ao poder que faz normal que sejam homenageados – as suas ideologias, sob o risco de incoerência, não convivem bem com o multipartidarismo e a liberdade de pensamento político.

 

O segundo, tal como Cunhal, lutou contra um regime (bastante mais bárbaro e opressivo que o Estado Novo, digamos) odioso. Mas isso não o exime do que fez. A luta contra um regime com uma ideologia despresível para qualquer democrata e amante da liberdade por uma pessoa que perfilha outra ideologia que vê a democracia e o pluralismo como inimigos não a desculpa.

 

Não é vergonhoso que uma democracia deixe tais homenages, como a de Cunhal acontecerem. Uma democracia segura de si mesma não proíbe movimentos extremistas e anti-democráticos de se expressarem publicamentee participarem na vida política (a nossa só deixa uns). Mas grande parte da sociedade de tal democracia deve desprezar tais ideologias, e a sociedade portuguesa ainda não percebeu as semelhanças entre o marxismo e qualquer outra ditadura mais à direita, seja ela salazarista, fascista, nazi, o que for. Os últimos, com razão, são demonizados. Os primeiros, são desculpados e compreendidos, porque, de facto, parecem mais humanos. Mas, mais uma vez, qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que não o são. Os milhões de defuntos de ambas sabem-no bem.