No debate que tem sido feito a respeito da espionagem obamiana há um ponto que, em bom rigor, tem quedado completamente a leste das preocupações dos comentaristas encartados: refiro-me, claro está, ao claríssimo facto de todas as grandes potências, incluindo aquelas que neste momento consideram-se as maiores lesadas pelas actividades proto-sensualísticas da NSA, recorrerem as mais das vezes à escuta dos devaneios privados dos principais dirigentes políticos dos países aliados. O que acabei de afirmar não é, de feito, uma presunção que careça de provas concludentes a seu favor. A realidade, essa burra porca que insiste em tramar as cabecinhas pouco pensadoras, demonstra que a escuta dos alvitres das Merkels e das Rousseffs é uma matéria de facto bem assente nos anais da história da diplomacia. Toda a gente sabe, e toda a gente cala. É por isso que, olhando ao debate que se tem travado em torno desta temática, sinto alguns arrepios ao auscultar as vozinhas de alguns responsáveis políticos que, bem vistas as coisas, tratam-nos como verdadeiros papalvos de circo. Obama é, efectivamente, uma nulidade andante que se passeia alegremente pelos salões da alta política alardeando qualidades que não tem nem nunca teve, mas os que criticam e têm criticado o policialismo americano deveriam pensar duas vezes antes de clamar supostas virtudes que jamais possuiram. Mas a vida contemporânea ensina-nos que a mentira impudente é a melhor arma para alcançar o poder de decidir. Aqui e alhures. Habituemo-nos, portanto.