« Uma noite do Estio »

Salve, ó noite socegada,

fagueira noite de estio;

quanto és bella entre estes cedros,

sobre a margem d’este rio!

N’estas aguas, que murmuram,

se reflectem tremulantes

de teus céos os numerosos,

os estrellados diamantes.

D’entre as sombras do oriente

vem crescendo incerta aurora,

lá rompem raios de prata…

a lua lá nasce agora.

Cor de pérola derrama

sobre os campos seu clarão;

melancolica ternura

me embriaga o coração.

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Se esta doce escuridade,

se este estado encantador

de não sei que interno gosto

e melancolico amor,

ah! se estas horas durassem,

sem nunca, nunca findar,

n’este mundo de chimeras,

quão bello fora habitar!

Mas logo a brilhante lua,

correndo o ceo brandamente,

irá do extremo horizonte

arrojar-se no occidente.

                     Antonio Feliciano de Castilho, « Amor e Melancolia »