Ainda não tenho a certeza se a expressão – se não o conseguires vencer, junta-te a ele – serve de legenda para a fotografia tirada à dupla Costa-Seguro. Não sei bem em que direcção é que vai pesar o prato da balança. Será que os estrategas socialistas pensaram bem no que estão a fazer? Por uns instantes, li algo diverso na notícia: “O secretário-geral do PS, António José Seguro, estará no primeiro dia oficial de campanha para as eleições autárquicas, ao lado do presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, na tradicional descida da rua Mário Soares”. (eu que ando cansado li Rua Mário Soares em vez de Morais Soares). Realmente, tantos tesourinhos das autárquicas têm-me provocado visões, confusão – estou a perder a clarividência. Se o partido socialista faz tanta gala em fazer passar uma ideia de unidade interna, é porque precisamente o oposto estará a acontecer. Sabemos todos que se António Costa quiser arrumar Seguro, fá-lo-á em duas penadas, sem grande misericórdia – à político de barba rija. Neste swing político, de falsa troca de parceiros, não poderemos prever qual será o resultado final. Se Seguro levar uma grande castanhada nas autárquicas, Costa não poderá ser constituído arguido no processo de abandono de familiares à beira da estrada. Poderá afirmar categoricamente que esteve presente na hora difícil de Seguro. Por outro lado, o secretário-geral sabe que “nada feito” sem o encosto fraternal do presidente da câmara de Lisboa. Neste enredo não se trata de saber quem sai a ganhar e quem entra a perder. Seguro encontra-se em território apátrida – não pode ser considerado a alma carismática que os socialistas tanto precisam, mas também não se afasta para longe e para bem do partido. Seguro olha para Costa de um modo utilitário e apenas para alguns casos; somente para situações particulares que possam conceder uma espécie de vantagem relativa, e não para cima, como alguém que é garantidamente melhor que ele próprio e que merece admiração. Se Seguro tivesse dois dedos de testa e realizasse um exame de consciência já se teria sacrificado em nome de uma estratégia vencedora. Sejam quais forem os intentos de parte a parte, não há nada que possa ser determinado em sede de comissão nacional do partido socialista ou pelos rosas-sombra do aparelho. Veremos se a Declaração de Coimbra é de facto o manual de instruções para os dois anos que se seguem, ou se o guião será rasgado sem piedade. Para já sabemos que Seguro e Costa vão descer a rua lado a lado, em compasso acertado, sem que haja indícios de dianteiras ou atrasos na corrida de parte a parte. O que sobressai nesta caminhada é a forma despudorada como dentro do partido socialista o conceito de utilidade e oportunismo é recíproco. De qualquer modo, não podem sair todos a ganhar. Os resultados serão assimétricos. Neste primeiro round – Costa já marcou alguns pontos.