Mês: Setembro 2013 (Page 1 of 19)

Autárquicas: a minha breve análise

Num país endividado e sem soberania, cristalizado na mesma forma de fazer politiquice, chupado até ao tutano pelas mesmas sanguessugas de sempre, anémico, cadavérico, com uma administração central gordíssima e habitada por gente que só quer direitos, com um sistema eleitoral ineficiente, com uma constuição caduca e na qual as gerações mais novas não se revêm… 

 

 

     …ACHAM MESMO QUE HOUVE ALGUM VENCEDOR?!

 

 

Nesta imensa farsa que é Portugal é impossível haver vencedores. Há apenas e só vencidos e cada vez em maior número.

A todos os políticos e aspirantes, wannabes da parangona, rapadores de tacho, eu digo: tenham decoro. É o mínimo.

Publicado em Sem categoria | Tags

Arrancou mais um exercício de tudologia

Há lamechices que me irritam profundamente. Por exemplo, ontem, na ressaca da noite eleitoral, ouviram, com certeza, figuras tão “proeminentes” como Manuel Alegre bradarem que, vejam só, o Partido Socialista foi o grande vencedor da noite eleitoral. Outros, provavelmente com algumas alucinações pelo meio, falaram mesmo numa vitória retumbante. Retenham o seguinte: em termos nominais, fazendo o cômputo global dos números finais, o Partido Socialista venceu, de facto, as eleições. Mas, comparando os números socialistas com os números da coligação, é fácil verificar que a diferença é muito pequena. 36,1% para 35% não é, propriamente, um pormaior. Perante isto, é, no mínimo, bastante arriscado extrair destes números um apoio massivo por banda dos portugueses ao Partido Socialista. Dito isto, convém, simultaneamente, recordar o seguinte: em primeiro lugar, o score eleitoral do PSD no todo nacional foi péssimo. Não há eufemismos que escondam a crueza da realidade. Os social-democratas perderam em Lisboa, Porto, Sintra, Gaia, Vila Real e Coimbra, sendo que em alguns dos casos mencionados, a derrota chegou a ser humilhante. Em segundo lugar, os movimentos independentes ganharam alguma tracção política. O caso de Rui Moreira é particularmente emblemático: venceu com larga distância os seus opositores mais aguerridos, e cimentou uma força política própria, que poderá muito bem vir a ter expressão nacional. Não há que escamotear o aviso dado pelo eleitorado: os portugueses estão cansados da mesmice partidocrática, e desejam uma mudança. O Governo e as forças políticas que o sustentam terão necessariamente de estar preparados para a deslegitimação política que a tudologia opinadeira já cozinha em público. É preciso não esquecer que a apresentação do Orçamento e a avaliação da troika estão aí à espreita, além de que o país não aguentaria um novo momento “Tivoli”. Há que trabalhar, hoje, agora, sem rodeios nem atrasos, interpretando devidamente o cansaço da cidadania. Foi esta a mensagem dada pelo eleitorado. Compreendam-na.

Publicado em Sem categoria | Tags , , , ,

Maior despesa igual a menor mortalidade

Cumprindo a promessa de escrever sobre a saúde, abro as notícias hoje e vejo uma notícia que me agrada sobremaneira não tanto pelo assunto per se, que é sempre trágico, mas por que constato que foi publicado um estudo que comprova aquilo que era até hoje uma observação empírica. Agrada-me o conceito de Medicina Baseada na Evidência. Aliás, por vezes considero que seria benéfico a própria política começar a basear-se na evidência – será um tópico a desenvolver futuramente.

 

Decorre neste momento em Amsterdão um dos Congressos mais importantes de Oncologia (para os curiosos, vejam aqui) e é sempre um momento alto dos investigadores e médicos pois as novidades e notícias são mais que muitas e hão-de alimentar as conversas entre os cientistas durante os próximos meses. São encontros pautados pela excelência.

 

Num dos painéis do Congresso foi apresentado o resultado de um estudo que relaciona a quantidade de recursos investidos na saúde com aquele que é o derradeiro índice de qualidade do sistema de saúde: a mortalidade. Quem trabalha em saúde habitua-se a pegar nos artigos, passar pela introdução e pelos métodos na diagonal e ir directo ao assunto: a discussão e conclusão. A pergunta que habita os espíritos é quase sempre a mesma: “Mas depois disto tudo, morre-se menos?”

 

Como a peça jornalística está sucinta e bem escrita limito-me a retirar aquela que me parece mais pertinente, que é a conclusão:

 

“quanto mais dinheiro se destina à saúde, menor é o número de mortes após o diagnóstico de um cancro e que esta relação é “mais evidente” no caso do cancro da mama. Os investigadores também observaram que, apesar de todas as iniciativas para harmonizar as políticas sanitárias públicas, existe uma “diferença significativa” entre o gasto sanitário e a incidência de cancro nos 27 estados da União Europeia, que é ainda mais clara entre os países europeus orientais e ocidentais.”


Este é só mais um argumento para se defenderem políticas públicas de saúde pois, sabemos bem, quando a saúde se transforma num negócio puro e simples, há os que podem e os que não podem pagar os cuidados de saúde e sobretudo verifica-se da parte dos diferentes prestadores de serviços ( e aqui refiro-me aos privados) um fenómeno que é perverso quando o lucro é um objectivo: as poupanças a todo e qualquer custo. 

Porto Moreira

Se eu tivesse de eleger o vencedor absoluto das autárquicas, esse homem seria, sem margem para dúvida, Rui Moreira. As suas primeiras frases de declaração de vitória não servem apenas a cidade do Porto, devem servir o país: “pela primeira vez, o partido que venceu na cidade foi o Porto”. Esta simples linha política é mais do que um mero chavão de ocasião e não será esquecida tão facilmente. A afirmação – uma espécie de primeiro tijolo do processo político -, tem implicações para a totalidade do território. É um aviso sério à navegação partidária dos compinchas e um estímulo para todos os movimentos alternativos ou independentes. Portugal viu nascer um político com um sistema operativo totalmente novo – não é um upgrade de um modelo já existente no mercado. É um design original com a folha limpa, com futuro pela frente e sem passado duvidoso. Os detractores e delatores da bola, invocaram desde o primeiro minuto dos festejos do independente Moreira, que este representava uma mera extensão figurada do CDS, como se este fosse uma marioneta ao serviço dos centristas. Mas não se trata disso. Rui Moreira tem o seu quadro-base de valores, mas soube afastar-se da catequese doutrinária para granjear a confiança da sociedade civil. Em duas penadas de inteligência demonstrou que é o extremo oposto de Seguro – é competente e sabe transmití-lo -, e ao fazê-lo inspira confiança muito para além da cidade do Porto. Penso que estamos diante de alguém com carisma suficiente para servir Portugal de um modo muito mais substantivo. Ainda bem que não tem percurso político. Ainda bem que não é um notável recauchutado de um município para o seguinte, de um partido para outro. Nos próximos dias seremos surpreendidos com a inclusão na sua equipa de indivíduos sem cadastro político mas com perfil adequado para servir um Porto em crise, um Portugal em descalabro. Se Costa foi o vencedor incontestado de Lisboa, Moreira será mais do que um “simples” vencedor do Porto. Será, se assim o desejar, o embaixador de um Portugal que quer acreditar no futuro. Os socialistas que cantam vitória em todas as categorias, assentam a sua existência numa matriz de apoio tradicional que conhece os seus limites e define a sua doutrina com muita convicção e auto-suficiência. Rui Moreira, que não é partido e não é nada, apenas depende de si, mas já declarou que irá incluir uma panóplia de protagonistas para atingir os objectivos da sua missão. E é aqui que reside a sua vantagem. Os outros, os partidos, têm valores de referência e notáveis, mas que deixaram de o ser de um modo inequívoco. O movimento dos indignados e os protestos de rua não estão necessariamente por detrás de Rui Moreira, mas têm uma quota importante de responsabilidade na sua eleição. Agitaram as águas políticas e alertaram para a corrosão dos partidos políticos. Mas Moreira fez o que fez, sem se aproveitar de marchas por avenidas com aliados ou por alamedas da liberdade. Foi suave e inteligente, sabendo interpretar o mood social e político dos portuenses. Neste caso em particular, foi o Porto a centralidade da sua acção, mas o que invocou serve um manifesto geral. Lentamente começamos a vislumbrar uma nova disposição política em Portugal. Não sei se Costa aguenta os quatro anos de mandato que a população de Lisboa lhe conferiu, mas terá seriamente de pensar nas agruras que um dirigente como Seguro pode trazer. Moreira, sem o desejar, é uma pedra no sapato de Seguro, por demonstrar de um modo abismal que há certas pessoas que parecem ter nascido para a política e outras não. Contudo, como já havia referido antes, os resultados das autárquicas não desequilibram as contas da troika nem servem para afastar a expressão dos juros da dívida. A vida negra decorrerá debaixo das mesmas nuvens de contrariedades. Mas o que aconteceu no Porto é de aproveitar. É uma tocha à entrada do túnel. A contagem dos votos ainda decorre, mas podemos afirmar de um modo paradoxal, que nada e tudo mudou em Portugal. No Porto e quem sabe nos arredores.

Messianismos propagados com fel

Parece que, em alguns meios da opinião publicada, Rui Rio foi erigido, repentinamente, como o novo messias da política portuguesa. Lamento desapontar-vos, mas Rui Rio, por enquanto, terá, forçosamente, de ficar recluído à espera de que piores dias venham. Sim, é certo que o PSD perdeu espaço político, ao deixar escapar de forma clamorosa algumas das principais edilidades do país, sem esquecer a verdadeira débâcle eleitoral sofrida na região do soba Jardim. Sim, é certo, também, que a partidocracia nacional sofreu um forte abalo, que não se limitou, note-se, ao PSD de Passos. Contudo, fazer destes resultados uma espécie de clamor subterrâneo pela ascensão política de Rui Rio ao leme da nação, cheira demasiado a bafio, a um bafio que eu julgava já extinto. A culpa não é, certamente, de Rui Rio, aliás, o ainda presidente da Câmara Municipal do Porto tem estado, diga-se a abono da verdade, bastante silente, porém, há certos papagaios regimentais que não aguentam, por mais que a realidade lhes dite o contrário, a legitimidade das urnas. Que Deus lhes perdoe as manigâncias. Entretanto, eppur si muove,  o CDS, brilhantemente guiado por Paulo Portas, obteve um excelente score eleitoral, tendo em conta que, antes destas eleições, o partido era o parente pobre do poder local. Os centristas conquistaram 5 câmaras, ganhando, com isso, um alargamento da sua influência política nos municípios portugueses. O PS de Seguro, que Manuel Alegre, num acesso de “a mim ninguém me cala”, qualificou como o grande vencedor da noite, foi, na verdade, um vencedor muito frouxo, aliás, frouxíssimo, o que, em bom rigor, é plenamente explicado pela perda de fôlego verificada nos últimos tramos da corrida às principais praças eleitorais. Quanto ao Bloco, comprovou-se, se dúvidas existissem, que, hoje em dia, o partido do caviar e do ipad para menininhos rebeldes, é uma inexistência política, que só sobrevive graças aos merdiocratas frequentadores das noitadas do Bairro Alto. Já o Partido Comunista, cujos resultados foram, infelizmente, demasiado risonhos, pode agradecer ao seu tão odiado Deus tamanha dádiva, pois, aqueles 7 a 8% de portugueses desguarnecidos de inteligência voltaram a dar, sabe-se lá como, ao partido da foice, do martelo, e do genocídio apoiado fora de portas, o comando de alguns centros urbanos de relativa importância. Os resultados eleitorais, analisados à primeira vista, oferecem, vistas bem as coisas, uma catadupa de leituras, mas o que importa relevar é que os portugueses, com algumas reticências pelo meio, manifestaram um profundo desagrado face à partidocracia reinante. Para bom entendedor meia palavra basta. O que sairá daqui só o futuro o dirá. 

Publicado em Sem categoria | Tags , , , , , , , , , , ,

Vamos lá ver se nos entendemos (3)

Sempre que há autárquicas assistimos ao mesmo espectáculo: uns dizem que não se podem fazer leituras nacionais dos resultados destas eleições, outros dizem que se podem fazer. Já eu estou em crer que a verdade andará algures no meio, mas que a realidade nacional e as realidades locais são demasiado complexas para se conseguir intuir com um mínimo grau de certeza as relações entre estas, o que não coíbe muita gente de perorar com certezas absolutas a partir da leitura que lhe seja politicamente mais conveniente. A única maneira de acabar com isto seria ter eleições legislativas no mesmo dia das autárquicas. E, mesmo assim, nada garante que num ano umas influenciem as outras de forma determinante, e noutro ano não haja uma relação significativa. Enfim, as coisas são o que são: a praxis política pouco ou nada tem a ver com verdade e humildade na análise da realidade social.
Enviada do dispositivo sem fios BlackBerry®

Publicado em Uncategorized
« Older posts

© 2026 Estado Sentido

Theme by Anders Noren — Up ↑