Como agora, face a essa imposição acordista que tem em mira a criminosa desfiguração da nossa Língua, também aos portugueses d’antanho se pôs como única alternativa a resistência, em maré de ” uniformização foneticista “.

O caso paradigmático, porque de quase todos conhecido, é o de Fernando Pessoa, que se recusou a deixar o ph de ” pharmacia “; mas muitos foram os intelectuais que se juntaram aos muitísimos anónimos nesse propósito de não cessão. É esse o caminho seguido pelo poeta bracarense João Penha.

”   A TRISTE COUSA “

Elle era trovador, e não obstante

Julgava o amor ethéreo uma mentira

Assumpto apenas necessario á lyra;

E só ao natural amou constante.

Cançado, como um velho caminhante,

Mortiço o fogo da amorosa pyra,

Eis o que respondeu á doce Elvira,

Que insistente o queria por amante:

« Debalde o amor n’esse teu peito arde: 

  Vales mais do que as minas do Perú,

  Mas eu não posso amar-te: agora é tarde.

« Eu vou no occáso; estás na aurora tu; 

Illudir-te seria de covarde;

Eu proprio não me atreveria a olhar-me nu! »