Apertado com todo o tipo de problemas, o governo espanhol espera distrair as atenções, recorrendo a uma espécie de “caso Malvinas” local: Gibraltar. Pior ainda, o sr. Margallo tem a desfaçatez de se aliar à Argentina para o tratamente de um assunto em tudo alheio aos sul-americanos, mas suspeita-se de o pobre ministro apenas estar a servir de caixeiro viajante da Repsol. Margallo cultiva a excelsa ideia de levar o assunto à ONU, como se o princípio da vontade expressa dos habitantes da localidade não tivesse qualquer relevância. Pois é isso mesmo o que a organização mundial indicará como via: a consulta da população, coisa que para os iluminados da movida de Madrid, não passa de uma absurdidade. A Espanha cedeu o território por Tratado e nele até tem um forte apoio à sua segurança no flanco sul. A disparatada ideia de remover a obrigatória incumbência britânica da defesa da entrada do Mediterrâneo, só poderá provir da mais chã chicana populista. O interesse de Espanha está precisamente na manutenção da presença da soberania britânica no Rochedo.
Portugal deve lapidarmente apoiar o Reino Unido, protestem a Pescanova, a Mango, Zara ou a Pull & Bear à vontade. Se eles persistirem neste tipo de alarvidades, Lisboa deverá voltar à carga com o Caso Olivença, um território formalmente reconhecido como português desde o Congresso de Viena. Isto, para nem sequer aventarmos os apetites marroquinos por Ceuta e Melilha. Além do mais, temos pendentes certas gulas pela área terrestre e marítima das Selvagens.

Melhor é não nos metermos oficialmente. Tudo salpica nestas coisas. Defender o referendo trás problemas embora sirva de argumento, os tratados também, existem muitos.
Pois existem e Espanha devolveu Olivença em Viena.
Bem, o meu argumento é que apoiar terceiros por uma dada lógica (acordo anterior, situação de facto, etc) numa particular situação, mais tarde ou mais cedo levanta uma contradição numa outra questão num outro terceiro ou em mós próprios.
Mas aqui está um exemplo como estas questões vão parar a sítio inesperados:
http://www.chronicle.gi/headlines_detail s.php?id=30441
CATALAN SEPARATISTS SIDE WITH GIBRALTAR AGAINST SPAIN
Isto, para nem sequer aventarmos os apetites marroquinos por Ceuta e Melilha.
Nuno, por muito pouco que eventualmente se goste de Espanha, parece-me absolutamente desaconselhável, e quiçá irresponsável, trazer à colação neste assunto os casos de Ceuta e Melilla e, concomitantemente, estimular o irredentismo marroquino e islâmico sobre o que resta das posições europeias no Norte de África.
Penso exactamente da mesma forma. Há interesses que são muito mais importantes do que a gestão da conjuntura partidária espanhola. Ceuta, Melilha e Gibraltar deverão permanecer com o estatuto que actualmente têm. Pelo que parece, os espanhóis não estão a ver o problema que despoletarão se insistirem no caso do Rochedo.
De resto, por que temos de apoiar lapidarmente, num caso que não nos respeita, um país que historicamente, sempre que pôde, nos humilhou e apoucou? Tratado de Methuen? Tratado de Évora Monte? Ultimatum de 1890? Inércia perante a agressão indiana ao Estado Português da Índia? Já agora, reocupada militarmente Olivença pelas forças militares anglo-portuguesas, quem consentiu na sua reentrega às forças espanholas?..
As alianças são para serem cumridas e no caso da luso-britânica, tornámo-nos no elo mais fraco. Nas relações internacionais, não existem ligações por paixão, mas sim de necessidade. A Grã-Bretanha foi a necessária parceira que garantiu – também por conveniência própria – a nossa independência. O facto de termos chegado ao fim do século XX com um importante património territorial que hoje grosso modo se chama CPLP, também se deve à aliança inglesa e apesar de todas as vicissitudes que muito bem aponta. No caso de Olivença, creio que a entrega da praça se deveu ao estatuto que aquela tinha no momento da ocupação pelas forças luso-britânicas. O território tinha sido cedido após a Guerra das Laranjas e ainda nem sequer se sonhava com um Congresso internacional – alguns anos mais tarde ocorreria em Viena – que devolvesse a conquista espanhola. Legalmente e “até mais ver”, Olivença pertencia-lhes, gostemos ou não do facto tal como se apresentava quando da expulsão dos franceses do território português. Em política teremos sempre de valorizar o realismo perante as situações que nos são apresentadas e por muito que isso nos custe, o Caso Índia Portuguesa foi lamentável para todos os actores nele presente, Portugal incluído. Um imobilismo* que nos custiu muito caro, quando os próprios goeses tinham apresentado uma solução que em muito prejudicaria os apetites expansionistas de Nehru.
* Note que no caso ultramarino, sou parte interessada.
“s alianças são para serem cumpridas”
Se há coisa que a história indica é que as alianças mudam com a necessidade
O mesmo tratado também entregou a ilha de Menorca aos britânicos, mas eles retomaram-na – duas vezes, por sinal.
Um tratado que se destinou a terminar uma guerra vergonhosa (milhares de vidas perdidas) cujo único fundamento foi a luta pelo domínio da Europa entre os Habsburgos e os Bourbons.
Não podemos reduzir o conflito a um mero interesse dinástico, pois havia a luta colnial,, a supremacia comercial, a hegemonia militar no continente, etc. Aliás, os Boubon e os Habsburgos já eram a mesma família. Luís XIV era meio Habsburgo, casado com uma Habsburgo, sua prima direita. A história é muito mais complexa.
Boas. Não me parece, embora possa estar errado, que isto se desenvolva muito mais, até porque Espanha está fragilizada economicamente e, de certo modo, dependente da União Europeia. A UE não irá tolerar este tipo de crispação e vai persuadir (num tom quase obrigatório) a Espanha a ceder. Mas tudo é possível. Quanto a Portugal, se houver uma tomada de posição oficial, isto poderá aumentar significativamente a dimensão do problema, por razões históricas e não só e seria o factor iniciador de outras tomadas de posição na Europa. Acho que Portugal, sem querer, desempenha um factor chave nesta situação. A ver vamos.