” Era noite quando deixei Lisboa; e mal o dia rompeu o comboio corria ao longo de campos bem cultivados e divididos por sebes, semeados de centeio e cobertos de oliveiras e laranjeiras. Aqui e além viam-se casinhas brancas com as suas parreiras; e ao longe, entre pinhais, podia-se entrever o campanário da igreja. ( … ) Cedo, no dia seguinte, tomámos o comboio para Cai’de onde um carro nos devia aguardar para nos levar até ao coração da região produtora do Vinho do Porto ( … ) ‘A medida que vamos subindo, erguem-se perante os nossos olhos entre a urze e o mato, enormes fragas arredondadas e rochedos agudos. ( … ) Atravessando o Douro pela ponte da Régua avanca’mos ao longo duma estrada, bem construída na margem esquerda do rio e, a caminho da Quinta da Boa Vista, tendo ‘a nossa esquerda o vale do Corgo e ‘a direita o rio Varosa; seguidamente passa’mos os regatos de Mil Lobos e Ceira e finalmente os rios Tedo e Távora com a antiga aldeia de Tabuaço coroando o cimo do monte no qual nasce o u’timo destes rios. “
Tradução do livro de Henry Vizetelly, < In The Port Wine Country >
Lendo este relato de viagem a região que sobre mim exerce grande deslumbramento, que explica as já inúmeras incursões por terras de ajardinados socalcos, lembro conversa tida há dias com amiga que acaba de fazer tese de doutoramento sobre o insigne poeta bracarense João Penha. Fiquei a saber que muitas vezes questionou o escritor Antero de Figueiredo: porque razão se dava ele ao inco’modo de viajar, se o poderia fazer, com muito mais conforto, sentado na poltrona, lendo um livro que o transportaria a qualquer lugar do mundo?
Claro que a leitura não substitui a viagem, a deslocação a esses sítios onde os nossos olhos se espraiam por maravilhas paradisíacas, mas quantas vezes sentimos que por ela somos levados a lonjuras que nos encantam, como se lá estivéramos …



Cristina:
« … como se lá estivéramos» – e nunca jamais estaremos se, como tantas vezes sucede, a “realidade” fica muito aquém do que previsionámos na imaginação. Bem dizia Pessoa que “a melhor maneira de viajar é sentir”.
Não assim essas terras da Ribadouro, norte e sul, mas especialmente as do sul, do aro de Lamego… – que nunca soube que frustrassem a mais pessoana imaginação. Pena que mister Henry Vizettely as sobrevoasse tão rapidamente, se não saberia que o rio Távora nasce próximo a Trancoso, e não onde ele diz. (E o Tedo na serra da Nave, no concelho de Moimenta.)
Queria o inglês dizer “desagua”.
Verdade, Duarte. Se lermos, por ex. um livro como Jornadas em Portugal do mesmo Antero de Figueiredo, e’ certa a disparidade entre o que descreve e a tal ” realidade “; mas como diz não sucede tal com essas durienses terras.
– dando o beneficio da du’vida ao viajante, vou supor que e’ um problema na tradução 🙂 –