Descubram petróleo, agora!

 

Neste descampado de possibilidades em que o regime se tornou já muito tempo, a decisão tomada por Belém era a única possível, conformando-se com o espaço político e económico a que Portugal pertence.

 

Cavaco entendeu a urgência de um voltar atrás na tentação de atribuir aos partidos o odioso da total responsabilidade pela crise nas suas múltiplas vertentes. Do apontar das faltas ao sistema partidário, até à rápida conclusão quanto à manutenção de um governo que apesar de todas as contrariedades e guerrilhas intestinas é formado por partidos do sistema rotativo, optou-se pela situação mais razoável segundo os interesses da manutenção do regime. O residente de Belém entendeu aquilo que outros alegadamente mais cultos e avisados não querem interiorizar. Soares, Alegre, Sampaio e restante carvão que mantém acesa a fornalha da locomotiva do sistema, continuam imersos numa dimensão há muito desaparecida, aquela vivida por quem era jovem há quarenta anos. Não entendem nada daquilo que se passa e para eles, valetudinários a rondarem oito décadas de passagem pelo planeta, não é estranha esta ausência de miudagem nas ruas, quando outrora era precisamente o oposto que viam em comícios e manifestações. Os nossos telejornais apenas mostram utentes de centros de saúde e reclamantes de direitos adquiridos, ou seja, aqueles que ultrapassados os quarenta anos de idade, são considerados inúteis pela  mentalidade descuidadamente engendrada pela gente do regime. A questão preocupante a colocar aos Soares da nossa terra, será aquela demanda dos recursos a descobrir para manter outros Soares que inevitavelmente teremos dentro de vinte, trinta, quarenta e cinquenta anos. O aprés moi le déluge implícito nas constantes tiradas públicas, entrevistas e cartinhas enviadas a quem de direito, são a confirmação do mais despudorado egoísmo patente nos sofríveis políticos que temos. Se não existe este tipo de reserva mental aqui apontada, então estamos perante gente ainda mais nefasta aos interesses desta comunidade que ainda se chama Portugal, significando o império da inépcia e desinteresse pelo mundo em que vivemos. 

 

Cavaco Silva voltou atrás e apenas há a lamentar os prejuízos decorrentes de duas semanas de desnorte que atingiram a política, as finanças e a economia. Tudo isto denota demasiada ânsia por ajustes de contas, salvaguarda de interesses pessoais ou alheamento perante a perigosa realidade que enfrentamos. Num regime onde já nada de novo se espera, optou-se pela continuidade noutros moldes. Bem ao contrário do vozear irritado dos seus antecessores, Belém serviu os interesse de todos os partidos do regime, num momento em que ninguém se atreveu a explicar através de perceptível discurso, o facto de não haver dinheiro. Passada a época do Real, do Escudo, do império e das alfândegas, resta-nos o sacrifício à permanente adaptação a regras estabelecidas pela tutoria internacional a que nos submetemos naquele dia em que no grandioso cenário dos Jerónimos, jubilosamente entrámos para a Comunidade Europeia.

 

Existiam outras possibilidades, outros caminhos então desprezados como inferiores e desprestigiantes, agora ambicionados como promessas de manás difíceis mas possíveis. O senão prende-se com o facto de os nossos antigos parceiros estarem bem cientes das nossas dificuldades. O quebra-cabeças enfrentado pelos donos do regime será o exercício da síntese entre a pequena península Europa e o vasto mundo ao qual um dia os nossos antepassados votaram toda a sua atenção. A menos que descubramos petróleo, um certo passado é o nosso desejável futuro. 

6 Comments

  1. Duarte Meira

    « Existiam outras possibilidades, outros caminhos…»

    Existiam – e existem -, caro Nuno. Tudo teve que ficar adiado. Ou antes: tudo continua, mas seguindo um caminho mais longo, sinuoso, difícil, quase desapercebido. Aqui, como noutros aspectos vitais, é uma felicidade que el-rei D. Duarte – cidadão timorense -, não só nos dê  o certeiro sinal, mas se adiante como protagonista.

  2. Equipa SAPO

    Bom dia,
    este post está em destaque na área de Opinião do SAPO.
    Cumprimentos,
    Ana Barrela – Portal SAPO

  3. guardemassementes

    Sim, sim… e onde encaixa aquela treta do:

    Um Governo,
    Um Presidente,
    Uma Maioria,

    Que há mais de 30 anos me é repetida como a Felicidade na Terra !!!

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