Mês: Maio 2013 (Page 1 of 33)

« Ah!, mundo esmagador das recordações, Emendadas umas nas outras, aboiando como de mar sem fundo ! » Tomaz de Figueiredo

” Rubiães para além das belezas ribeirinhas do rio Coura, possui encantadoras vistas panorâmicas, observadas dos montes da Mourela e tem um património edificado de grande valor cultural. São notáveis  as marcas deixadas pela cultura romana.”


Este um excerto do texto acabado de, por mero acaso, encontrar no sítio informativo da freguesia do concelho de Paredes de Coura.

                            Ora eu passei, durante anos, desde a adolescência até há pouco tempo, semanalmente, a Rubiães; a caminho de Valença do Minho, aonde ia passar todos os fins-de-semana, e, depois, todo o mês de Agosto. Sempre me chamou a atenção a igreja românica, ali mesmo junto à estrada. Mas ficava por aí. Nunca tive curiosidade de conhecer o interior de Rubiães.

Há dias, quando fui à serra d’Arga, foi por lá que fiz o caminho de regresso, e, já debaixo de algumas gotículas de chuva, fui fotografá-la.

Quando quis saber o nome da igreja – S.Pedro -, li que naquelas paragens encontraria um mundo de beleza.

                         Como é que soe dizer-se? ao virar da esquina… 
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Moçambique: ma’bandidos

 

Um postal escrito em 6 de Abril de 1975 e enviado dentro de um envelope para Lisboa. Em Lourenço Marques a situação era péssima, ainda estando em exercício a administração conjunta do Governo de Transição Crespo/Chissano. Todo o tipo de tropelias e abusos foram permitidos, ao mesmo tempo que o sr. Machel vociferava enormidades discurso após discurso, incendiando os ânimos e provocando a debandada dos brancos, desta vez acompanhados por indianos, indo-portugueses, mestiços e até de negros que se sentiam ameaçados pelas arengas do arrivista. Naqueles escassos meses anteriores à data aprazada para o arriar da bandeira portuguesa, tornou-se inevitável a guerra civil que durante duas décadas esmagaria o país.

A minha avó passou por todos os processos vexatórios e de roubo legalizado, perdendo a sua casa na Namaacha. “Tens duas? Perdes uma!” O pior é que apesar das promessas e garantias, o seu pequeno apartamento em Lourenço Marques, situado na COOP, acabaria por permanecer longos anos perdido numa teia de (i)legalidades. Nunca mais se ouviu falar no caso. As autoridades transformadas em autênticos ma’bandidos, acharam por bem confiscar a sua mobília de quarto, assim como os electrodomésticos e a maior parte das roupas de cama, louças, etc. Ofendida mas orgulhosa, limitou-se a proferir um “bom proveito!”, virando as costas aos facas de mato que o MFA de Lisboa ali colocara para o arrolamento de bens. Grandes negócios devem eles ter feito com os  seus ex-colegas de tiroteios no Rovuma, agora amigos dilectos.

 

Aqui está um postal em estilo telegráfico, como era seu hábito:

 

“Meus queridos filhos e nétinhos.

Recebi carta, breve escreverei com mais vagar. Bagagem, assunto arrumado. Muito cansada, muitos aborrecimentos (1). Família (2) toda engripada. Pouco descanso. Bichas para tudo (3). Passo o dia na rua, quantas mais voltas dou, mais voltas aparecem para dar (4), são como cogumelos. Já marquei passagem para 9 de Maio. Ainda não tem O.K. Saudades para todos Beijos da mãe e avó muito amiga, Irlanda.”

 

Devido às vicissitudes do processo de “exílio”, teria de adiar a sua vinda para Portugal até 1976. Um dos problemas era a falta de habitação, pois em 1974-75 vivíamos os cinco numa pequena roulotte no parque de campismo de Monsanto, um incómodo que se tornou numa vantagem, afastando-nos da balbúrdia de Lisboa. Em 1976 já estávamos instalados num apartamento – logo aprendemos a esquecer o termo flat – no Campo Grande e então a avó pôde finalmente embarcar num avião da TAP. One way ticket. 

 

O postal escolhido foi o da Igreja de Santo António da Polana, onde todos os seus netos – exceptuando o mais velho, eu próprio, cristianizado na Catedral – tinham sido baptizados. Dois deles, eu e o meu irmão, tínhamos durante anos pertencido ao Grupo Coral. Era para nós uma mensagem bastante simbólica, relembrando um passado não muito distante.

 

A avó jamais regressou à terra onde nascera em 15 de Setembro de 1916 e onde viveu até 1976. Faleceu em Cascais, a 30 de Dezembro de 2010.

 

(1) Avalanche burocrática, taxas, emolumentos, papelada selada, impostos, confisco de bens, etc.

(2) A minha bisavó, as suas irmãs e irmãos doentes, devido a um surto gripal. A minha avó enviuvou em Junho de 1974 e meses depois os previdentes filhos partiram para Lisboa. Bem cientes daquilo que se preparava, foram atempadamente avisados pelos dirigentes do Centro Ismaelita Aga Khan. Ela preferiu aguardar uns meses mais, tratando dos papéis e instando para que a mãe e irmãos também partissem. Conseguiu-o.

(3) Penúria generalizada de bens de primeira necessidade, medicamentos, etc. A até então eficiente e metódica administração portuguesa, foi forçada a ruir como um castelo de cartas.

(4) As famosas listas, os requerimentos, certificados, assinaturas reconhecidas, as taxas, impostos, fiscalizações e confiscos. Portugal ainda era a potência soberana.

A minha avó e o meu pai, em Agosto de 1939 (Lourenço Marques, Moçambique). Dias depois, o sr. Hitler dava início à sua guerra contra a Polónia.

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Memória electiva de Soares

Se  Mário Soares alerta Cavaco Silva para a perda de pacifismo dos Portugueses, também estaremos no direito de alertar Mário Soares para a falta de memória, a falta de memória política de um dos mestres da democratização portuguesa. Pelo tom do discurso inflamatório de Soares, que pisa o risco de incitação à violência, julgar-se-ia que estamos na presença de um indivíduo que não assinou capítulos inteiros da história contemporânea de Portugal. O estado a que chegou o País é o resultado de uma sociedade repartida por quotas desiguais de responsabilidade. Cotas ou mais recentes, têm todos culpas no cartório, que pesam na carteira dos Portugueses, nas suas vidas e nos seus sonhos. O idealismo socialista assumiu-se como o libertador das amarras do antigo regime, mas a ideologia, elevada ao seu mais alto grau de incompetência, atraiçoa a sua missão original. Os socialistas, quer queiram quer não, encontram-se no início e no fim do comboio que descarrilou; mesmo que queiram atribuir o fim da linha a outras carruagens partidárias, fazem parte da máquina desgovernada que ainda mexe. Quantos anos esteve Mário Soares no poder? E será que nada tem a ver com a desgraça? O que é necessário para fazer reemergir a platina da lembrança? Palha de aço? ­­(não chamei palhaço, não senhor!). Tudo isto me faz lembrar aqueles cães que nunca deixam de urinar sobre o tapete. Por mais que se lhes esfregue os “detrimentos” na cara, nunca assumem, de um modo humilde, que foram eles. Que foram também governos socialistas, recentes ou esquecidos, que lá estiveram. Nunca colocam a cauda entre as pernas para ganir baixinho e de um modo sincero. A haver um genuíno sentido de Estado, o fundador Mário Soares deveria procurar uma ilha de sobriedade para se remeter a reflexões mais profundas condizentes com a condição de ancião da pátria. Ao tentar vender as últimas amostras de Esquerda unida que traz na mala de viajante, o ex-proeminente revela que pouco aprendeu em tantos anos de mester político. A Esquerda e a Direita já não existem nos termos em que o doutrinário está a pensar. De certo modo, há uma triste ironia no seu discurso. Ao dirigir tais palavras aos concidadãos, está a alcançar o país real – pobre e envelhecido. Que ainda se lembra do tempo da outra senhora, mas que se lembra também do tempo desta senhora. E Cavaco, que é a menina que se sabe, deveria tomar uma posição em relação à ameaça velada que Soares faz em nome dos Portugueses – a incitação à violência. Outro aspecto ainda: Soares quer lá saber do que Seguro anda a fazer nos últimos tempos! Anda o Seguro a esforçar-se a abraçar as frentes sindicais e a festejar as virtudes do consenso, e o Soares, em perfeita rebeldia com a ideia de encontro de vontades, promove a fractura de um modo muito básico. E estamos nós comprimidos nesta reserva política que tão rapidamente gostaríamos de esquecer.

Estado Sentido ultrapassa os 50.000 leitores mensais

Confirmando a tendência crescente do último ano, o nosso blog, com a ajuda dos seus fiéis leitores diários, ultrapassou neste mês de Maio e pela primeira vez esta “barreira psicológica” de visitantes únicos mensais, a par de ter batido, também, o record de páginas visitadas: mais de 84.000. Obrigado a todos!

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O meu pior prato de sempre

 

Há uns vinte anos, em Bangkok, fui convidado para um almoço de trabalho. A empresária chinesa não gostava “desses restaurantes” locais, onde o menu apenas continha pratos tailandeses e assim fui conduzido a uma sofisticada casa de pasto, plena de sedas e madeirames dourados e vermelhos. Como facilmente me adapto a novidades, foi sem qualquer preocupação que soube ter um cardápio já escolhido pela anfitriã.  Tudo bem. O pior veio depois.

 

Como entrada, uma bela tigela de porcelana azul e branca, na qual fumegava uma translúcida e brilhante gosma. Usando os palitos, atrevi-me a degustar o delicado e seguramente tradicional acepipe e francamente, não gostei. Não gostei, é dizer pouco. A coisa colava-se aos dentes, ao céu da boca e à língua. Dava-me engulhos. Diplomaticamente nada disse e optei pelo apressado engolir do conteúdo da tigela, uma forma eficaz de me preparar para os pratos que se seguiriam. Agradavelmente surpreendida, a senhora bichanou qualquer coisa ao sempre sorridente empregado e em milésimos de segundo tinha outra tigela igualzinha à primeira, teimosamente fumegando diante de mim. Já meio achinesado pela certeza de não poder perder a face, masquei a tal gosma com mais cautela e por incrível que a todos possa parecer, jamais esqueci o indesejável repasto.

 

Vem agora a gente da ONU, habituada a faisonadas, entrecôtes, tornedós e outras porcarias do género, recomendar a inclusão das medusas – nome mais chique do que alforreca, coisa de sonoridade demasiadamente islâmica – na lista de compras no supermercado. Pois sim, aqui está uma excelente oportunidade para negócios da nossa extinta frota pesqueira. Caçadas e jeitosamente processadas, teremos mais um “produto de valor acrescentado” a enviar às carradas para a China. O sr. Cavaco Silva bem pode iniciar as suas démarches, instando ao uso da imaginação: ao estilo batatas fritas, nachos, takos, tikos, tekos, palitos salgados e outras guloseimas mais, quem sabe se um dia destes não acompanharão as Sagres nas sempres excitantes horas da bola?  

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« És Português, filho meu. E basta! ninguém é tanto »

” António Corrêa de Oliveira, é, porém, específicamente português. As figuras que apresenta e levanta, os horizontes que desvenda, a própria atmosfera ao mesmo tempo fervorosa, heróica e melancólica evocada nos poemas, pertencem, de raiz, a Portugal. ( … ) … entusiasta pela nossa gente, os nossos costumes, as nossas paisagens “

                                        João Ameal

Caminhos do vale em monte,

Caminhos do monte em serra:

Como eu vos sei, passo a passo,

Caminhos da minha terra!

Como eu vos amo e conheço,

Caminhos dos pinheirais, 

Onde hão-de vir os meus filhos,

Por onde andaram meus pais.

Altos caminhos da serra,

Quem vos abriu e riscou?

– Ou foi sombra de águia, aos voos

Ou foi Jesus que passou… –

Caminhei… De pequenino,

Fui de ladeira em subida; 

Agora, vou a descer-vos, 

Caminhos da minha vida!

Que triste e bom, ao voltar,

Ao descer lá dos altos cimos,

Ir encontrando as pegadas

Dos passos com que subimos…

Não há caminho em nossa alma,

Não há caminho no chão,

Sem eco, sem sombra, ou saudade

Dos tempos que já lá vão.

Todas as veias do corpo

Ao coração vão parar:

– Caminhos, veias da terra

Ao derredor do meu lar! – 
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Estado de espírito

 

“I want a hero: an uncommon want, When every year and month sends forth a new one, Till, after cloying the gazettes with cant, The age discovers he is not the true one; Of such as these I should not care to vaunt, I’ll therefore take our ancient friend.”   Lord Byron, Don Juan, Canto I – 1

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