Comparou Manuela Moura Guedes a um travesti. Constava que fazia persuasivos telefonemas às redacções dos jornais. No seu primeiro tempo de antena televisivo, desta vez sob a capciosa fórmula de “entrevista”, disse que o Correio da Manhã é lixo. Ou muito nos enganamos, ou o sempre excitado político arranjou sarna para se coçar. Assim, não nos admiraremos muito se esta coceira se for propagando de forma doseada e progressiva. Com direito a primeira página e em destaque, claro.
Mês: Março 2013 (Page 1 of 32)
Em terra de pescadores, à conversa com dois veteranos:
«E como é que faziam para trazer a baleia para terra?» – pergunto eu.
Quando a morte acomete alguém próximo ou querido, a primeira tentação é desestimar Deus. O sofrimento não discrimina ninguém. É amplo, democrático, mortífero. No entanto, a morte não é o fim. Não é o terminus de nada. A morte é, sempre foi e sempre será o indomável passamento para a verdadeira vida: a vida eterna. No fundo, como dizia Victor Hugo, a vida é isto:
“Morrer não é acabar, é a suprema manhã.”
Victor Hugo
” … satisfação e orgulho de participar nesta manifestação de fé que, garantem, é “única no mundo” e realizada “como os portugueses faziam há 400 anos”. “
E orgulho nosso de vermos que os portugueses deixaram vestígios da sua cultura em lugares tão remotos, acarinhados ainda hoje
Passa-se isto. O mundo está a entrar numa espiral de loucura que não é nada auspiciosa.
Francis Bacon, After the life mask of William Blake III
Sócrates conseguiu o que queria: ser falado ad nauseam pela “Lesboa” das intrigas palacianas e pela chusma de opinaristas que vivem do comentário fácil e desinformado. De facto, o seu regresso meticulosamente preparado com a ajuda prestimosa de Relvas e Alberto da Ponte, revelou-se uma aposta ganha. Zurziu em todos, sobretudo em Cavaco, e mostrou, se dúvidas existissem, que não mudou nada. E o essencial da entrevista é justamente essa não mudança. Sócrates continua igual a si próprio, apostando, novamente, na mentira desbragada e na falsificação ardente dos números da sua péssima governação. Há coisas que não mudam, e Sócrates é um bom exemplo. Por mais que alguns queiram afivelar-lhe uma pretensa “star quality” (Sousa Tavares no seu avatar mais ridículo), Sócrates, não obstante os seus inegáveis dotes de comunicador, não tem nada de bom para oferecer ao país. A entrevista, uma espécie de monumento à frivolidade da política contemporânea -aquele número do spot inicial, com um Sócrates “poseur”, a desfilar como se fosse um Brad Pitt grisalho foi algo de surreal -, resumiu-se basicamente a isto: uma narrativa feita do mesmo material falacioso a que Sócrates desde sempre nos habituou. Com um upgrade fundamental: o líder sombra do inseguro Seguro não tem culpa de nada. A culpa é das conspirações à la “Brutus” de Cavaco, da crise, da imprensa, da oposição. A culpa é de todos, menos de Sócrates. Por último, last but not the least, a austeridade deve terminar o quanto antes. Com um material destes não é difícil imaginar o que sairá do espaço de comentário caninamente servido pela RTP ao ex-exilado: mentira, loucura e demagogia a rodos. A hollywoodização da política portuguesa começou ontem. E seguirá infrene nos próximos tempos. O certo é que a liderança da oposição passou definitivamente para Sócrates. Seguro, politicamente, deixou de existir, se é que alguma vez existiu. Por fim, eu, humilde escriba que tem dedicado o seu tempo livre a perorar sobre o nada, aconselharia aos não-socialistas pátrios algum cuidado. Por uma razão bem singela: Sócrates não voltou para ficar confortavelmente sentado numa cadeira televisiva a discretear sobre a habilidade política de Seguro ou a truculência de Relvas. Sócrates quer o poder, deseja-o desesperadamente, vive para ele, consome-se por ele. E tudo fará para ludibriar os portugueses, com o apoio de todos os que sempre viveram da mesmice que nos trouxe a esta desgraça. Há narrativas e narrativas, como diria o ex-exilado, porém, há narrativas fáceis que, em alturas de crise, tendem a ser escolhidas pelo populacho. As coisas são o que são. E, como recordou o Miguel Castelo Branco, as pessoas perante a demagogia “escolhem o pior, aplaudem e sentem-se livres“.
seria um possível título de um possível romance de Agatha Christie, no qual o imbatível faro de Miss Marple, inspirada num qualquer aparentemente corriqueiro caso passado, há muitos anos, na pacata vila de St. Mary Mead, descobriria o ladrão, perante a usual fúria do inspector chamado para resolver tão folhetinesco episódio.
* … e não gosto de quem rouba livros.
Começo seriamente a pensar que Portugal deseja sofrer. Quase não tenho dúvidas que Portugal tem o que merece. No rescaldo de um programa de televisão que ontem não vi, e das palavras discorridas por um senhor que não escutei, mas baseando-me na vox populi das redes sociais, posso concluir que este país está condenado. Está arrumado por não ter meios intelectuais para realizar a destrinça entre a arte de ludubriar e o valor substantivo das acções e palavras. O país parece cair que nem um patinho na sedução gasta de um vendedor de banha da cobra. Uma pessoa desprovido de nojo, das sensações que equipam os homens sensatos, uma condição simultaneamente profunda e cutânea a que chamamos consciência e que torna, os convictos caídos em si, caídos em desgraça – humildes e arrependidos. Chamemos-lhe “ser cristão”, se quiserem. Nem a matriz católica do país parece servir para actos de constrição. Em vez disso temos erva daninha que cresce em redor do templo, da reserva. Apenas os indivíduos dotados de um super-ego podem atropelar sem hesitações os direitos dos outros, e julgarem-se os primeiros mesmo que já estejam derrotados. Parece que Portugal sofre de uma doença regressiva, uma especie de Alzheimer político e selectivo que oblitera o percurso negativo de um homem e que elogia a capacidade para arranhar quem quer que se lhe atravesse pelo caminho. O regresso às cavernas parece um dado adquirido – quando a população aplaude o espernear de um bicho ferido. O desempenho instantâneo e brutal tomou conta do país político. Os ganchos e os socos dados por cima e por baixo. Assistimos à potência hiper-ventilada de faladores desprovidos de ética, que demonstram os seus talentos em duelos absurdos, em concursos para ver quem consegue botar-abaixo mais vómitos, e ainda maiores indisposições. Os assistentes são como claques de mentecaptos que anulam a grande obra humana. O país requer urgentemente um movimento sem face, sem aparência, sem hábitos ou vestimentas. Os intelectuais que invocam a liberdade de expressão e a Democracia, podem também invocar outras emendas que não a quinta, para salvar o país. A esquerda caviar ou a direita esclarecida, culpadas por esta transmissão televisiva e igual número de eleições, pode sair do seu falso exílio, o paradigma de cocktails e cultura onde discutem justiça social en passant, em redor de uma mesa de politicamente correctos. E essa corja que diz que nada tem a ver com o estado em que se encontra o país, também tem um pouco do DNA do mesmo embuste. O desejo de uma vida glamour, de privilégio, de sobranceria intelectual, de Paris. O que se nos apresenta é um caso de psicose colectiva, um comportamento desviante praticado por uma larga maioria televisiva pouco interessada em política, mas muito dada a novelas. Estou raivoso, sim senhor.
Se alguém, inspirando-se nos clássicos Portugal Contemporâneo de Oliveira Martins ou As Farpas de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, pretendesse discorrer em livro acerca da nossa ditosa pátria sob este regime, faria bem em dar-lhe um título que resumisse desde logo o conteúdo: No country for serious men, por exemplo.



