« Não conhecemos em nosso paiz floresta mais povoada, mais rica de belleza e variedade de arvores do que a majestosa e pittoresca mata do Bussaco »

                   « Ahi está a soberba matta do Bussaco, esse aprazivel tapete de verdura coroando as penedias agrestes

                     e escarpadas da montanha ( … ); a mão do homem soube crar tão grande e primorosa riqueza vegetal no 

                     meio da nudez d’aquelles cerros escalvados »

                                                                              J. A. Simões de Carvalho

” Deliberada a provincia dos carmelitas descalços de Portugal a fundar um deserto, onde os seus religiosos pudessem observar alternadamente a vida cenobitica e a eremitica, começou no ano de 1626 a intender na escolha de um lugar para este fim adequado.  “

                     Vários foram os locais oferecidos para esse fim, nomeadamente uma ” grande matta, no logar de Pereiro, pouco distante de Coimbra; mas nenhum d’estes sitios correspondia ao intento “, mormente por lhes não assistir a indispensável solidão.

Foi assim que o padre ” incumbido da escolha do logar ( … ) partiu para Lisboa com os olhos postos na formosa serra de Cintra. Foi examina-la; e conquanto lhe agradasse pelo deleitoso e aprazivel de seus horizontes ( … ), notou-lhe todavia outras circunstancias desfavoraveis, sendo uma das mais ponderosas a proximidade de Lisboa, que fazia de Cintra ‘ côrte na aldêa, povoado de quintas, conventos e paços reais, o que tudo servia mais para casa de recreação e regalo, qual em seu retiro buscavam os reis e grandes de Portugal, que para casa de compunção, penitencia e soledade ‘.

Contudo, à falta de outro logar, tinham assentado os religiosos em fundar alli o seu deserto.”

Foi então que, sabendo o bispo de Coimbra, D. João Manuel, desse propósito, referiu ao Reitor do Colégio dos Carmelitas ter ” na serra de Luso umas mattas e terras, a que chamam Bussaco: se ao padre provincial lhe parecera manda-las ver e foram do seu agrado, dera-as [ ele ] de boa vontade à Religião, pelo interesse de ter no [ seu ] bispado um convento tão unico e observante ‘ ( … )

Indo o padre geral com outros companheiros visitar o Bussaco ‘ entraram pelas densas matas povoadas de bastas arvores, discorreram as devezas vestidas de verdes plantas, passearam as campinas ornadas de cheirosas flores, desceram aos valles retalhados de claras aguas, subiram aos montes coroados de apraziveis e dilatadas vistas, e tal graça achou o padre geral em quanto havia registado, que disse para os companheiros com devota alegria: Aqui é vontade de Deus que se funde: murem este sitio, que tem nelle o melhor deserto da Ordem. Porque, se agora, inculto, rude e tosco, é o que admiramos, cultivado será um paraiso terreal! ‘ “

Augusto Mendes Simões de Castro, « Guia Historico do Viajante do Bussaco »

2 Comments

  1. Duarte Meira

    A Cristina veio até ao sul, mas para… encontrar o seu Minho!

    Espero que os cedros-do-Buçaco tivessem aguentado bem o recente temporal. Cá mais para o sul, noutro recanto do Buçaco, do Minho, na serra de Sintra, foram duas mil árvores, muitas centenárias, que caíram por causa dele. Enfim, antes às mãos dum temporal que do incendiário homem. Mas os piores incendiários são aqueles cujas políticas (ou ausência delas) levaram a que o mais recente cadastro florestal já conte mais eucaliptos que pinheiros na nossa desamada terra.

    Estes seus postais, Cristina, são mais que uma recolha de imagens bonitas: – são um protesto cívico.

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