Ontem Miguel Relvas decidiu gozar com os “cantores” de intervenção de ocasião, juntando-se à cantoria de “Grândola, Vila Morena”. Hoje foi apupado e vaiado por estudantes do ISCTE, não chegando a discursar e saindo sob escolta das instalações daquela faculdade.
Permitam-me, em primeiro lugar, começar por questionar a audiência: quantos, daqueles que criticam os alunos do ISCTE pelo seu comportamento anti-democrático (sic), criticaram o selvagem do agente da segurança pessoal do Primeiro-ministro que há uns meses decidiu calar um aluno do ISCSP e nada disseram sobre este ter sido identificado pela polícia e quase lhe ter sido movido um processo disciplinar? Pois, não precisam de responder. Ao contrário de muita gente, a minha memória não é curta e não dou para o peditório das indignações selectivas de quem tem de defender a voz do dono.
Em segundo lugar, relembrar um ensinamento clássico de São Tomás de Aquino, aquele que nos diz que o povo tem o direito de remover do poder quem o usurpa e pela paixão pelo comando o faz degenerar, ou seja, o rei ou líder que se torna tirano. O mesmo ensinamento que vai servir de fundamento à teorização de John Locke justificadora da Revolução Gloriosa. Isto para dizer que Miguel Relvas há muito se deveria ter demitido do Governo ou ter sido demitido. O preço que Passos Coelho paga pela sua manutenção é a cada vez menor legitimidade deste Governo para governar. Sabendo-se que Miguel Relvas não se importa minimamente com o que pensem dele e com o descontentamento generalizado da nação em relação à sua pessoa, e que provavelmente nunca se demitirá – gostava tanto de poder engolir estas palavras -, cada dia que permanece no governo, é mais um dia em que aumenta a irritação e a raiva de quem tem de suportar os seus números. Quando pelos instrumentos pacíficos e normais de uma democracia saudável não se consegue repor a legitimidade do exercício, que cada vez menos corresponde à legitimidade do título, abre-se caminho à justificação da utilização da violência. Vem nos livros, não tem nada que saber. Só Passos Coelho parece não o entender – o que não surpreende.
Ontem Relvas armou-se em engraçado, hoje teve a resposta. Causa e consequência. Continuem a assobiar para o lado e enfrentem as consequências.
Samuel,
postíssimo. Por alguns minutos receei que a lucidez e a objectividade tivessem perecido de todo, de tal forma se ergueram os uivos em defesa do indefensável Relvas.
Os paladinos dos poderes-en-attente preocupam-se apenas com os fantasmas das tribos antagonistas, em zurzir inimigos figadais, estando-se nas tintas para a facilidade com que os verdadeiros maus da fita ficam impunes.
Abraço.