Recordar o regicídio

Há datas que, pelo simbolismo sombrio que carregam, deveriam ser recordadas a miúdo. O Regicídio, exemplo maior da sanha virulenta dos meios políticos republicanos, é uma data que, pelo seu significado político, pertence logicamente a essa triste categoria de datas. Hoje, passados 105 anos de violências, saques, amiguismos, ignorâncias várias e deseducações múltiplas, o resultado desse crime sanguinolento está à vista: somos pastoreados por uma República que não dá esperança a ninguém. Uma República que foi vilmente assaltada pela iniquidade de meia dúzia de bonzos que dedicaram e dedicam as suas tristes existências a roubar o futuro das gentes portuguesas. A arraia-miúda não entra nas contabilidades do saque desta gente. As gentes foram relegadas para o canto da história das melopeias dos donos do regime. Recordar este episódio, seminal e espoletador do ocaso terminal de um regime que, com mais ou menos esforço, produziu, no seu estertor, alguma civilidade de trato, é uma obrigação que cabe a todos aqueles que não se revêem na patranha em curso. Mais que uma celebração exclusivamente solenizada pelos monárquicos, a rememoração do Regicídio é uma oportunidade única, para toda a cidadania, de trazer à liça os crimes dos fundadores da pastorícia republicana. Porque mais do que D. Carlos – um Rei inteligente, culto e austero, sim, porque naquele tempo, o Rei, o princeps, era o primeiro a dar o exemplo – ou D. Filipe, o que ocorreu, para gáudio dos medíocres de então, foi o rasurar de uma memória secular, responsável pela “lusitana antiga liberdade” tão celebrada por Camões. Importa lembrar e acordar as consciências do seu torpor, porque a comunidade, a comunidade de partida e destino dos livres iguais, só sobrevive com memória. Com a memória dos passados que construíram e deram vida ao nosso ser colectivo.

1 Comment

  1. Duarte Meira

    Caro João Pinto Bastos:

    « … uma República que não dá esperança a ninguém.»

    Efectivamente, desgraçadamente, é assim mesmo como diz. Em 1974 cortou com o que lhe restava da Memória e, em 1 de Janeiro de 1986, terminou a República propriamente portuguesa e ficámos como cadáveres amarrados ao Império do Leviatão em gestação, sem futuro nenhum. Com os mais jovens obrigados ao ostracismo ou exílio forçado, para terem algumas perspectivas de vida decente e digna.

    Um sistema sem memória do passado e sem esperança de futuro já não é regime nenhum reconhecível: é o sistema – do Nada, do niilismo insinuante e pervasivo, que nos vai decompondo.

    Veremos se restarão só os vermes.

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