Octávio Augusto

 

A política portuguesa  é muito injusta. Enquanto uns sobem ao olimpo do poder afectado, outros, após gozarem as suas delícias e assegurarem um poiso bem pago no futuro imediato, descem pela ladeira do esquecimento e da ingratidão. Cá as coisas funcionam assim. A partidocracia oligárquica estabeleceu as coisas deste modo, e assim continuarão até que haja um baque definitivo. Veja-se a admiração que Sócrates concitou no início do seu consulado e o estrépito com que caiu, veja-se, também, a forma como Passos subiu ao palanque governativo e a forma como vem descendo na opinião pseudo-pública das elites do regime. Nada que surpreenda, pois, no fundo, tudo funciona na mesma medida do mito do eterno retorno: tudo vai e vem, e no fim, tudo como dantes, quartel general em Abrantes. Estes vaivéns da opinião dos donos da partidocracia e do regime fazem-me lembrar um célebre episódio da vida de Octávio Augusto. Jazia o princeps romano na sua cama, moribundo e frágil, quando, num acesso de autoglorificação, lembrou-se de perguntar aos seus comparsas se tinha desempenhado bem o seu papel no teatro da vida. A resposta foi, como devem calcular, positiva, o que levou a que, no seguimento da mesma, Augusto, alegre e feliz, dissesse “plaudite“, o que em bom português significa “aplaudam-me então”. A política, hoje, é um aplauso generalizado à estupidez. Todos os políticos, mais ou menos inteligentes, vivem do elogio interminável, do consentimento acrítico, e da palavra reconfortante que omite e esconde a realidade, em suma, a classe política contemporânea vive numa “húbris” constante e permanente, em que a soberba impante arrolou tudo, até a humildade mais acrisolada que fazia as vezes da moderação e da parcimónia na administração da coisa pública. As semelhanças da classe política com o “plaudite” de Augusto terminam aqui, porque, queira-se ou não, o imperador romano deixou um lastro, fez algo de relevante pelos seus, construiu um império e morreu com obra feita, algo de que, nestes dias de troikas, pobreza e ignorância, muitos dos que por aí andam a pavonear-se não podem de todo gabar-se. Há aplausos que matam, sobretudo quando são dados a gente intelectualmente mísera.