Quando se morre, morre uma parte do Mundo. Deixemos a montante as questões da sinalética Divina, bem como o exercício da Razão ao serviço de fés que dentro deste quadro nada importam. Se nada se perde e tudo se transforma, se a alquimia abarcar a mente sequiosa das chaves da mesma forma que a luz, a electricidade ou a gravidade abraçam entre si o conteúdo do Universo conhecido, então quando se morre, apesar da persistência, morre uma parte do Mundo.
Qual é o propósito da vida senão adiar o momento da morte, e de que melhor forma pode ser esse propósito galgado, senão através da entrega completa e apaixonada à peça maior da Criação – ou do que bem entenderem – coisa una da carne e do espírito, a Razão? Como renunciar, aquém de um acto de insanidade ou prostituição da alma, ao cômputo das evidências que ao nosso redor gritam e bramem a existência da existência?
Porque é que existe algo em vez de nada?
Pela mesma razão que há quem morra e na senda de cuja morte venha a certeza de ter morrido uma parte do Mundo, ou mais ainda, daquilo que o Mundo *deve* ser, uma malha nas encarnações possíveis do fito de Deus.
De quem morre sob tais signos é impossível não sentir falta, por maior que seja uma crença, ou por todas e mais sólidas as conjecturas que possamos traçar no extremo dos dias.
Demonstração por absurdo: se um Homem mente, ele assassina parte do Mundo, ou pelo menos as partes do Mundo que importaria preservar. É impossível sentir a falta de quem neste calibre se insira, por exemplo, eu jamais sentiria a falta da quase totalidade das pessoas com quem me cruzo e cujas palavras leio transcritas ao longo das minhas calendas. Amo o meu semelhante e no entanto raramente o encontro, despiciendos que são os entes que calcorreiam o mesmo barro onde procuro sustento para o corpo.
Como são pusilânimes os ateus e demais produtos dos tempos modernos. Nem sabem o que fazer com a própria vida, quanto mais mergulhar nas implicações, para si e para o Mundo, da morte de alguém.
Belo postal, caro Fernando. Venham mais destes, que é disto que temos fome.
Uma nótula só:
« Amo o meu semelhante e no entanto raramente o encontro, despiciendos que são os entes que calcorreiam o mesmo barro onde procuro sustento para o corpo. »
Se calcorreiam o mesmo barro e feitos do mesmo barro, são seus e meus semelhantes… e é assim que temos de os amar e chorar.
Quanto ao “ateísmo”, apenas mais assanhado nesta parte rica e enfartada do mundo, não é, sob o certo ponto de vista nada moderno. Vem desde o momento em que demos acordo de nós num mundo em que estas letras que está a ler parecem mais “evidentes” do que a presença de Deus. Uma “evidência” tão precária que, não é nunca de mais lembrá-lo, pode deixar de se ver a qualquer momento…
Caro Duarte, muito obrigado.
À luz da ciência recente, é possível que a consciência, a mente, seja uma componente do universo tão real e matematizável como a luz ou a electricidade. A ser assim, pouco obstaria a que sobrevivesse de forma independente do suporte biológico que a alberga durante algum tempo.
Em sequência, não basta compartilhar do mapa genético, e muito menos da mais vasta acepção da espécie, para sentir, ou ter, semelhança.
Mas ainda que não, a dose de livre arbítrio que assiste a cada um bastaria para que eu reiterasse esta sensação de estar à parte.
Caro Fernando:
A “sensação” de estar à parte é respeitável. Mas intenção de ficar à parte pode ser perigosa. – Uns que se quiseram à parte foram os que nos arranjaram este mundo em que ficámos cegos para Deus… Mas, nesse momento, o arbítrio deles deixou de ser livre, e ficaram abaixo do humano cuja “imagem e semelhança” com Deus desprezaram.
Justamente, Duarte, não há qualquer acto voluntário, apenas a atenção aos que ditam os sentidos e a acção em concordância.