
Fanfani fez um esforço tão grande, em 1935 [Catholicism, Protestantism and Capitalism], para esquematizar o antagonismo entre o espírito capitalista e a ética católica que não conseguiu mostrar como é que cada um deles precisa do outro. Mais do que a ética protestante, com a sua ênfase teórica no indivíduo (apesar de, na prática, ser profundamente associativa), a ética católica traz para a ribalta a dimensão social da economia livre. Através do seu amor sacramental pelos sentidos – pelo incenso, pela água benta, pelas vestes resplandecentes, pelo sabor do pão e do vinho, e pela música gloriosa – o espírito católico está muito mais de acordo com a criação e com a bondade que o próprio Criador viu no mundo. A este respeito, é também ele o que melhor expressa, em comparação com o ascético espírito protestante, os aspectos criativos, curativos e benéficos para a humanidade das sociedades liberais. Há uma tendência no pensamento protestante (e nalgumas formas de jansenismo católico) para sublinhar as crises, os pecados, as cisões; para preferir a aridez e a falta de estímulo sensorial. Um deserto, uma terra perdida, o vale de lágrimas dos peregrinos – todos estão mais de acordo com um sentido protestante da perdição deste mundo, a não ser por Cristo. Tanto o judaísmo como o catolicismo têm um discurso mais fluído, uma maior reserva de metáforas, para exprimirem a alegria, o prazer dos sentidos e o verdadeiro sentimento de realização que a criatividade implica. Raramente a ética protestante teve consciência das facetas importantes do capitalismo, como a sua sociabilidade e a sua criatividade.
Michael Novak, A Ética Católica e o Espírito do Capitalismo, página 56.
Original: Catholic Ethic And The Spirit Of Capitalism (1993)
O “capitalismo” de Novak implica um “capital” muito especial e condições muito exigentes. Veja-se este trecho:
« The moral-cultural system is crucial to the health of capitalist democracies… By “system” I mean more than “ethos,” the complex of social values that guides human activities. I mean institutions and habits …. churches, schools, families ….These institutions tell citizens which of their behaviors will receive social approval or disapproval …. [and] help to form the inner life of individual citizens – their imaginations, aims, desires, and fears . Such institutions are crucial because the primary form of capital is the human spirit, which is subject to decline as well as progress».
Indo ao fundo das questões, Novak deveria ter começado por reconsiderar muito bem os princípios metafísicos e teológicos destas questões. (Como fez um Gomes Dávila, que a Daniela citou há dias, ou o mestre espanhol do colombiano, Donoso Cortés.)
Exemplo: o mundo que Deus achou “bom” e “muito bom” é este mundo darwiniano, da entropia e do tempo contado para a morte?…
Para não dizer nada da alimentada e lamentável confusão entre capitalismo e liberalismo. Nos tempos de hoje, com a vida das pessoas, das nações e dos estados cada vez mais amarrada ao capitalismo bancário transnacional em disputa pelo pelo império mundial, estas loas ao “capitalismo” são, no mínimo, inoportunas.
Caro Duarte,
Desde já, aproveito para dizer que é sempre um gosto ler os seus esmerados comentários. E queira desculpar-me se nem sempre tenho tempo/oportunidade para responder a todos.
E continuando. Neste caso, reconhecendo as limitações e confusões do próprio conceito de “capitalismo” (que temos vindo a abordar ultimamente) e, na medida em que o próprio Duarte salienta que é um conceito muito exigente, não entendo: como é que se salta deste conceito de “capitalismo” que estou a citar – e que pretende revelar uma maneira de estar diferente daquele punho de ferro que persegue os bens materiais como fins em si mesmos, numa diligência quase desumana – para a actualidade do sistema bancário internacional e seus derivados confinados num quadro monolítico de favoritismos, como conhecemos?
Acredito que a confusão entre capitalismo e liberalismo – e aproveito para acrescentar ainda a “democracia”, na obra de Novak – podem deixar a desejar mas as minhas palavras nos posts também geram confusões que, penso eu, não se justificam. Quem já percebeu as minhas intenções percebe de que capitalismo estou a falar/citar e de que capitalismo Michael Novak falou. De certeza que não estou a cantar louvores à ganância, já que até o autor insiste em apartar-se e condenar esses exemplares mais vis.
De resto, posso apenas acrescentar que Novak é o primeiro a chamar a atenção de que vai abordar apenas uma pequena “fatia” daquilo que podemos associar à ética católica, nos seus incontáveis aspectos mais, ou menos, palpáveis.
« … como é que se salta deste conceito de “capitalismo” que estou a citar … – para a actualidade» ?
Não se salta. Esse é o problema de Novak: o ideal dele – e a “maneira diferente de estar”, que a Daniela evoca -, está cada vez mais longe do capitalismo real, cada vez mais longe de qualquer objectivo “libertário”.
Eis os objectivos, que visam mais do que a abolição da liberdade:
– O primeiro, já sugeri qual é: a competição transnacional pelo poder mundial. Aqui estamos ainda ao nível do velho mundo da política e dos poderes simiescos.
– Mas o segundo, aliás não independente do anterior, é o de investir no controlo da evolução biológica e na selecção do “transhumano”, que deixe para trás, em extinção planeada e progressiva, o “homo sapiens”. O objectivo (sob pretexto de “human enhancement”) é precisamente acabar com aquele “espírito”, que Novak considera o capital primário. Temos, pois, o capitalismo contra… o capital.
É este o problema que o americano não equacionou até agora, que eu saiba. Faça-o a Daniela, porque é do seu interesse e dos seus descendentes.
Um bom ponto de partida aqui (com tradução portuguesa):
http://en.wikipedia.org/wiki/Our_Posthum an_Future
Era desnecessário acrescentar que aqui é que está o verdadeiro, radical e total antagonismo entre o capitalismo e o catolicismo…