Recordar Palavras Bem Ditas

Carta Encíclica Deus Caritas Est, do Sumo Pontífice Bento XVI.

 

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b) O amor — caritas — será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa. Não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem. Sempre haverá sofrimento que necessita de consolação e ajuda. Haverá sempre solidão. Existirão sempre também situações de necessidade material, para as quais é indispensável uma ajuda na linha de um amor concreto ao próximo. Um Estado, que queira prover a tudo e tudo açambarque, torna-se no fim de contas uma instância burocrática, que não pode assegurar o essencial de que o homem sofredor — todo o homem — tem necessidade: a amorosa dedicação pessoal. Não precisamos de um Estado que regule e domine tudo, mas de um Estado que generosamente reconheça e apoie, segundo o princípio de subsidiariedade, as iniciativas que nascem das diversas forças sociais e conjugam espontaneidade e proximidade aos homens carecidos de ajuda. A Igreja é uma destas forças vivas: nela pulsa a dinâmica do amor suscitado pelo Espírito de Cristo. Este amor não oferece aos homens apenas uma ajuda material, mas também refrigério e cuidado para a alma — ajuda esta muitas vezes mais necessária que o apoio material. A afirmação de que as estruturas justas tornariam supérfluas as obras de caridade esconde, de facto, uma concepção materialista do homem: o preconceito segundo o qual o homem viveria « só de pão » (Mt 4, 4; cf. Dt 8, 3) — convicção que humilha o homem e ignora precisamente aquilo que é mais especificamente humano.

 

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b) A actividade caritativa cristã deve ser independente de partidos e ideologias. Não é um meio para mudar o mundo de maneira ideológica, nem está ao serviço de estratégias mundanas, mas é actualização aqui e agora daquele amor de que o homem sempre tem necessidade. O tempo moderno, sobretudo a partir do Oitocentos, aparece dominado por diversas variantes duma filosofia do progresso, cuja forma mais radical é o marxismo. Uma parte da estratégia marxista é a teoria do empobrecimento: esta defende que, numa situação de poder injusto, quem ajuda o homem com iniciativas de caridade, coloca-se de facto ao serviço daquele sistema de injustiça, fazendo-o resultar, pelo menos até certo ponto, suportável. Deste modo fica refreado o potencial revolucionário e, consequentemente, bloqueada a reviravolta para um mundo melhor. Por isso, se contesta e ataca a caridade como sistema de conservação do status quo. Na realidade, esta é uma filosofia desumana. O homem que vive no presente é sacrificado ao moloch do futuro — um futuro cuja efectiva realização permanece pelo menos duvidosa. Na verdade, a humanização do mundo não pode ser promovida renunciando, de momento, a comportar-se de modo humano. Só se contribui para um mundo melhor, fazendo o bem agora e pessoalmente, com paixão e em todo o lado onde for possível, independentemente de estratégias e programas de partido. O programa do cristão — o programa do bom Samaritano, o programa de Jesus — é « um coração que vê ». Este coração vê onde há necessidade de amor, e actua em consequência. Obviamente, quando a actividade caritativa è assumida pela Igreja como iniciativa comunitária, à espontaneidade do indivíduo há que acrescentar também a programação, a previdência, a colaboração com outras instituições idênticas.

 

1 Comment

  1. Duarte Meira

    Daniela:

    Parabéns pelos trechos tão bem escolhidos e tão a propósito. Esta admirável primeira encíclica de Bento XVI tem a particularidade notável de, antes de outras escrituras, citar escritos de filósofos, o primeiro dos quais Nietzsche (nº 3; no nº 5 Descartes).

    Permita-me aproveite a oportunidade para, como liberal velho que me prezo de ser, lembrar e sublinhar o que a Daniela bem sabe, mas que é muitas vezes esquecido, até parece que pelos Srs. Papas, que têm desde Pio IX um problema com o “liberalismo”. – O capitalismo é muito mais velho que o liberalismo; e, em rigor, conjunturalmente sobreponíveis, não são idênticos conceptualmente ou historicamente. O capitalismo convive prefeitamente com os mais díspares regimes políticos, inclusive o Estatismo totalitário, como vemos hoje no mandarinato gerontocrático chinês. O liberalismo económico convive com o capitalismo tanto como – porque liberal – tolera o cooperativismo, o comunalismo ou o socialismo democrático, respeitador das liberdades civis e duma margem maior ou menor de iniciativa privada, concorrência e mercado livres. (O exemplo mais próspero deste modelo é o daquele Estado europeu que, nos anos 20, quase se tornou a 1ª república soviética ocidental – a Baviera. O partido social-cristão bávaro foi, no pós-45, o melhor exemplo do que pode dar a aplicação da doutrina social da Igreja, em circunstâncias favoráveis.) Mas é do interesse do próprio liberalismo opor-se à cartelização, oligopólios e monopólios a que o capitalismo de si parece tender inevitavelmente, sem a intervenção correctiva – e liberalizadora – do Estado. (Foi isto que Rothbard iludiu na sua crítica a Nozick.)

    O problema é que o Estado, hoje, no mundo ocidental, está ele próprio cartelizado e refém da simbiose mortal com a Banca e outras “corporations”. Eis a tarefe ingente e gigantesca do liberalismo: libertar a sociedade civil e o próprio Estado…

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