Ratzinger, a polemização necessária

Não tenho por norma dissentir das postas dos meus ilustres confrades, aliás, concordo geralmente com tudo o que os escribas deste blog escrevem. Contudo, e como há sempre uma primeira vez para tudo, desta feita sou obrigado a discordar em parte do longo comentário da Regina da Cruz a propósito da Mensagem de Ano Novo, de Sua Santidade Bento XVI. Subscrevo a opinião da Regina no tocante ao erro que Bento XVI cometeu ao afirmar que o “capitalismo desregulado” é o grande responsável pela crise económica e financeira do último lustro. Erro esse, justificado pela observância imprescritível da doutrina social da igreja que não é propriamente um receituário ou uma súmula de prescrições liberais. Como podem depreender do que venho escrevendo neste blog e noutros fóruns não considero o capitalismo como o grande responsável pela crise. Sou, à semelhança da Regina, um apreciador inveterado das virtudes do capitalismo. Gosto do frémito da liberdade induzido pela criatividade que só um regime de mercado e livre concorrência consegue gerar. Liberdade e criatividade devidamente temperadas pela ética, como muito bem sublinhou a Regina. O busílis do argumento desfiado pela caríssima colega prende-se não com a apologia do capitalismo, que acompanho e suporto, mas sim com o breve libelo contra o Papa e a Igreja. A Igreja, não obstante os erros, desvios e imperfeições que qualquer instituição naturalmente possui – e, aqui, mais uma vez sigo a opinião da Regina – é uma das derradeiras formas de vida inteligente que existem neste mundo pós-moderninho. Mais, se há alguém que tem apelado à renovação espiritual do homem, esse alguém tem sido Bento XVI. Com os vitupérios do costume provindos dos artesãos do politicamente correcto. Portanto, quando a Regina fala em reabilitação dos valores humanos fundamentais deveria olhar, em primeiríssimo lugar, para a Igreja, por uma razão bastante singela: em tudo o que diga respeito à vida humana, a Igreja está e estará sempre na primeira linha de defesa do justo e do direito. Ontem, hoje e amanhã. A raiz do catolicismo bebe, justamente, nesta predisposição para a dádiva.

 

A Igreja não tem uma história impoluta? É um facto indesmentível. A Igreja deixou em vários momentos de viver a palavra de Cristo? Sim, é verdade. A Igreja favoreceu, em muitas circunstâncias, os grandes deste mundo? Infelizmente, sim. Tudo isso é verdade, porém, o que atrás foi dito não ajuda, de todo, a explicar o porquê de, ainda hoje, muitas pessoas devotarem à autoridade papal um respeito invejável. A relevância da Igreja mostra-se no dia-a-dia, nos magistérios da palavra e da acção, com o Homem como pano de fundo. As “palavras vazias” e os “rituais anacrónicos” são a razão de ser da Igreja. Sem eles nada faria sentido. Com eles a comunidade de fiéis alarga e fortalece os seus horizontes. O Governo da Igreja, tão criticado por alguns, é a prova de que a conjugação entre autoridade e liberdade é uma possibilidade bem real, testada ao longo de dois mil anos. Não são muitas, se não mesmo nenhumas, as formas políticas que podem gabar-se de combinar hierarquia com autonomia, justapondo autoridade pessoal com descentralização. O Governo da Igreja, considerado amiúde como uma antigualha bárbara, é um resguardo imprescindível em tempos de niilismo político e cultural. Bento XVI soube interpretar, como poucos, a impessoalidade do mundo contemporâneo, chamando a atenção para o relativismo que acomete todos os recantos da vida social. Impessoalidade que não brota apenas da falta de ética que perpassa os mecanismos económicos. A origem desta maleita é bem mais funda, grave e periculosa. É por isso que, por mais que eu possa discordar desta ou daquela afirmação do Santo Padre, nada me levará a dizer que a Igreja pouco ou nada faz pelo bem-estar espiritual do Homem. Faz e muito, sobretudo junto dos que mais precisam, assim como, dos que anelam por um futuro melhor. Talvez o tom seja demasiado apologético, mas a verdade é que nunca como hoje a Igreja foi tão necessária. O filisteísmo relativista só será combatido com autoridade e auctoritas. Bento XVI encarna na perfeição estes dois predicados.

1 Comment

  1. Duarte Meira

    Caro João:

    Parabéns, em seu nome, pelo alto interesse e nível das considerações feitas sobre certos temas e problemas com que este blogue entrou – muito bem – a abrir o ano.

    Pessoalmente, estou de há muito cansado do comentário político às miudezas da provinciana rasquice portuguesa. Só o desassombro acutilante e acuidade crítica com que o fazeis me compensa a paciência. – Que admirável ala de jovens o alferes Samuel aqui reuniu!

    Quanto ao que diz neste seu de hoje, parece que estamos de acordo na importância primaz de o que a Regina diz quando fala na “regeneração espiritual” das pessoas em processo de impersonalização. Eis o que importa e por onde começar. (Ou recomeçar ou continuar, porque não é coisa nova senão na escala.)

    A Igreja de Cristo, por isso Universal (“Católica”), está ancorada no fundo deste mundo, e não será arrancada do fundo até ao fim do tempo deste mundo. Os fundos são escuros, muitas vezes lodosos: lá se encontram e combatem o que de pior e de melhor o humano pode dar. Por isso a lógica destas coisas – desde a Encarnação – não pode ser senão a do paradoxo, em que um Kierkegaard tão vivamente certeiramente insistia.

    Pelo cabo da âncora, tanto se pode subir como descer. Quem subir, sem perder o cabo, virá à tona e encontrará outra atmosfera para respirar. Primeiro só temos uma pequena parte do corpo fora de água – a cabeça. Então é capital reparar na barca amarrada à âncora, e fazer um supremo esforço para erguer todo o corpo para dentro dela, só então salvos das turbulências e monstros das profundezas.

    Entretanto, convém que a Igreja Católica tenha a âncora no coração de Roma, símblo perene do Império. (Onde tudo recomeçou, ou continuou, com o “Tratado de Roma”…)

    Arrastados às profundezas, o Portugal que respira pela Tradição Portuguesa não pode ser senão o que o seu primeiro rei se comprometeu ser: – miles Sancti Petri…

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