TAP – Tempo de Alienar Património.

Em relação à venda da transportadora aérea portuguesa muito se tem dito sem no entanto se apontarem soluções construtivas – compreendo a dificuldade eu mesma não poderei dar o meu contributo nesse sentido deixando aqui apenas uma opinião, que vale o que vale e na humilde condição de espectadora, sem grande voz nem poder (tal como a oligocracia o determina).

Custa-me claro, e por que tem valor simbólico e afectivo, ver esta companhia ser vendida. É para todos os efeitos uma marca portuguesa da qual nos podemos orgulhar pois, se bem me recordo, é das companhias aéreas mais seguras com um histórico de fazer inveja. Além de que sabe muito bem, após ter passado uma longa estadia no estrangeiro – a falar inglês, por exemplo – entrar num avião de regresso a Portugal e ser saudado em português. É bom sentir que pertencemos a algum lado. Custa-me ver a TAP ser vendida e sobretudo custa-me vê-la ser vendida ao preço que oferece o *único* interessado. Citando – de memória – o Ricardo Araújo Pereira no Governo Sombra da semana passada, a TAP vai ser vendida pelo equivalente a meio Witsel (o futebolista).
Meio Witsel. 
Parece-me realmente pouco para uma companhia aérea.

 

No entanto se analisarmos o perfil financeiro da empresa – e desculpem se sou imprecisa no jargão – vemos que os capitais próprios (diferença entre activo e passivo) estão negativos em cerca de 400 milhões de euros e que a sua dívida ronda os mil milhões de euros.

Mil milhões de euros?!

Todos os números das dívidas portuguesas têm a capacidade de me fazerem corar de estupefacção. Como foi possível uma catástrofe destas?
Hoje, lê-se nas notícias que a dívida pública da República Portuguesa atingiu os 120.5% do PIB em Setembro, o que equivale a dizer que estamos também a falar de uma dívida na ordem de centenas de milhares de milhões de euros.
É de uma magnitude incompreensível.

 

Teria sido possível evitar que a TAP chegasse ao estado em que chegou se as gentes/agentes que a governaram foram as mesmas que trouxeram a nação portuguesa para o ponto em que estamos? Tenho sérias dúvidas.

 

Venda-se pois a TAP mas não sem fazer algo que me parece fundamental: uma profundíssima reflexão pública para memória futura. Na impossibilidade de se apurarem responsabilidades por este descalabro – coisa que em Portugal nunca é possível! – que se peça perdão às gerações que hoje assistem ao património português ser vendido ao desbarato, património esse que poderia ser gerador de chorudas receitas para Portugal, não fosse a má gestão dos que se apoderaram de forma irresponsável de cargos para os quais não tinham nem competências técnicas e muito menos morais. Faça-se a reflexão em jeito de cerimónia fúnebre, com luto e bandeira a meia haste. Se um presidente da república serve para alguma coisa é certamente para fazer as exéquias de estado.

10 Comments

  1. Anonimo

    Não se esqueça dos 4.000.000.000 necessários para renovar frota.

    Não é Meio witsel – são 100 witsel em material deperciavél.

    Mais 25 witsel em divida que troca de dono.

    10 witsel em capitais próprios negativos.

    Total: TAP encaixe de 135 Witsel

    • Regina da Cruz

      Ou não.

      • Luis F

        Utilizando essa nova moeda, podemos ver a coisa de outra forma: 

        O Estado, além do 0,5 Wit, estaria também efectivamente a receber os 30Wit de dívida a que deu aval. 

        Assim, agora que se sabe que não vai ser vendida, para já, ficamos todos mais contentes: o Estado não recebe o 0,5 Wit, e continua com uma canga de 30Wit às costas. 

  2. Regina da Cruz

    Parece que subsistem dúvidas na interpretação do que escrevi.
    Repito:

    Venda-se pois a TAP mas não sem fazer algo que me parece fundamental: uma profundíssima reflexão pública para memória futura. Na impossibilidade de se apurarem responsabilidades por este descalabro – coisa que em Portugal nunca é possível! – que se peça perdão às gerações que hoje assistem ao património português ser vendido ao desbarato, património esse que poderia ser gerador de chorudas receitas para Portugal, não fosse a má gestão dos que se apoderaram de forma irresponsável de cargos para os quais não tinham nem competências técnicas e muito menos morais.

    Caríssimos leitores, eu teria aplaudido de pé a venda da tap se o negócio fosse realmente bom para ambas as partes – mas a verdade é que não é. E estando Miguel Relvas envolvido na avaliação eu tenho 200% de certeza que seria um péssimo negócio para os contribuintes ao longo prazo, como todos foram até hoje. Tudo isto já de si mau, temos que o comprador não dá garantias bancárias. Estão ou não reunidas as condições para este ser um negócio mais uma vez ruinoso para os contribuintes? Acreditam mesmo que com esta cepa de gente a fazer negócios iríamos respirar de alívio no futuro?

    2 cenários: ou aparece algum génio que assuma a gestão da TAP e ponha a companhia a dar lucro ou então fecha-se de vez – desmantele-se. É como eu analiso a situação, tentando assim minimizar o risco dos portugueses serem prejudicados.
    E quem fala da TAP fala da RTP…feche-se e acabe-se de uma vez com as negociatas! Mas que os políticos venham a público explicar (ou tentar) por que estranho motivo é impossível uma empresa portuguesa com gestão publica dar lucro…

    • Luis F

      Cara Regina, umas notas soltas:
      1)”(..)património português ser vendido ao desbarato ” 



      A TAP não estava a ser vendida ao desbarato. Uma companhia com capitais próprios negativos vendida por + -1500 ME?



      2) “se o negócio fosse realmente bom para ambas as partes – mas a verdade é que não é. E estando Miguel Relvas envolvido(..) “


      Porque diz que o negócio não era bom para ambos? Para o vendedor, receber 1 euro que fosse, e livrar-se de 1200 ME em dívida, mais a obrigação de repor os 300 e tal ME de capital negativo, não parece mau (já agora, espero que não esteja a basear-se no artigo de Ricardo Cabral, ridicularizado por meio mundo). 
      Mau negócio é ficar com a TAP, sabendo que em 2013 dificilmente a conjuntura será melhor. 

      Quanto à avaliação, enfim: a base são as contas da empresa, que são públicas. 

      3)  “ou aparece algum génio que assuma a gestão da TAP e ponha a companhia a dar lucro ou então fecha-se de vez – desmantele-se. É como eu analiso a situação, tentando assim minimizar o risco dos portugueses serem prejudicados. “


      Fechar a TAP tem um custo brutal. Antes de mais, a dívida está garantida pelo Estado, e é para pagar. 
      O activo, já de si inflacionado (goodwill são 200 ME salvo erro), dificilmente seria alienado ao valor contabilístico – e parte dele é de cobrança duvidosa.  Sobram os custos laborais – umas centenas de milhões.  
      Prof. Cosme Vieira estima em pelo menos 700 ME o custo de encerramento da TAP, dizendo mesmo que não seriam surpreendentes uns 1000 ME  

      É estranho, encarar um cenário destes como alternativa à entrega a quem a queira. .. 

      4)  “Mas que os políticos venham a público explicar (ou tentar) por que estranho motivo é impossível uma empresa portuguesa com gestão publica dar lucro”


      Não é preciso virem políticos. Ignorando eventuais aldrabices, o motivo é o mais óbvio de todos: uma empresa pública é vista (pelo público em geral) como uma extensão do Governo, que deve servir “estratégias”, “políticas”, e todo o tipo de fantasias. 
      É pacífico para a generalidade do cidadão. Logo, o lucro deixa de ser uma preocupação. O que importa se não há passageiros para o Pólo Norte, quando o governo determina que o Pólo Norte é estratégico e merece uma ligação diária? 


      • Regina da Cruz

        Luis F,

        Agradeço o contributo para a discussão e a consideração que demonstrou trazendo argumentos de forma bastante sistematizada.

        Não me baseio nos artigos ou comentários de ninguém. E o facto de meio mundo ridicularizar um artigo não é atestado para coisa nenhuma porque o mundo está pejado de ignorantes, como bem sabemos.

        Ora vejamos, eu pergunto, se se resolvia bem a questão vendendo a TAP por 1 Eur (por que não dá-la, oferecê-la simplesmente), por que é que não se faz isso?

        • Anónimo

          Este Luis f deve ser o Borges, lol. É impressionante ler tanto disparate e tanta idiotice juntas. A esta hora já deve estar a fazer contactos, para ver se despedem pessoal e/ou fecham e reabrem a companhia para não pagar ao pessoal e fornecedores. Faz lembrar a Swissair (hoje Swiss International Airlines). À boa moda caloteira.
          Vá Luís, trabalha e paga.

          • Luis F

            Tantas letrinhas alinhadas, e nem um argumento – só tentativas de insulto. Enfim, por alguma razão a TAP é o que é. 

        • Luis F

          Não tem que agradecer. 

          1) Quanto à venda por 1 euro – bom, dos 15 candidatos que levantaram a informação sobre a TAP, só 1 apresentou proposta. 
          Infelizmente, temo que aqueles que agora celebram este falhanço se venham a confrontar com cenários em que o Estado tenha que meter capital na TAP antes de a despachar. 

          2) Quanto ao artigo do Ricardo Cabral, foi amplificado nos media generalistas (porque dizia o que os jornalistas querem ouvir: que a TAP estava a ser oferecida) e arrasado pelos pares, por cometer erros de raciocínio básicos (ver: http://theportugueseeconomy.blogspot.pt/2012/12/german-efromovichs-offer-for-tap.html#comment-form (http://theportugueseeconomy.blogspot.pt/2012/12/german-efromovichs-offer-for-tap.html#comment-form))

          Enfim, daqui a um ano cá estaremos, espero, para ver o resultado disto. 

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