O desastre do Mal calvinista

Num país fortemente cunhado por uma cultura de raiz protestante, como é manifestamente o caso dos EUA, o crime recentemente ocorrido não surpreende de todo. A noção do Mal, deficientemente arrimada num conceito visível e palpável de comunidade, leva, com alguma facilidade, a extremos criminais deste género. Todas as pessoas são más, logo, todos nós, com maior ou menor razoabilidade, podemos portar uma arma, não importando as consequências que esse suposto direito de defesa pessoal possam carrear para o todo constituído pela colectividade. A liberdade nos EUA convive facilmente com a restrição e, mais cedo ou mais tarde, este direito, elevado ao altar da intocabilidade por alguns tolos, será naturalmente restringido. Seria bom que, neste aspecto, não emulássemos o pior da tradição liberal-saxónica. Há coisas que não se copiam nem se imitam, simplesmente criticam-se.

4 Comments

  1. Carlos Velasco

    Num país fortemente cunhado por uma cultura de cariz católico, onde antes o porte de armas era livre, resolveram banir o comércio legal de armas por meios variados e subreptícios. O resultado foi esse:

    http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/12/111214_mapaviolencia_pai.shtml (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/12/111214_mapaviolencia_pai.shtml)

    É impossível não ser tocado pela violência do último massacre, mas é um dever não se deixar levar pela chantagem emocional dos media corporativos.

  2. Duarte Meira

    «… elevado ao altar da intocabilidade por alguns tolos.»

    Caro João Pinto Bastos:

    Antes de chamar nomes, argumente, que não me tenho na conta de “tolo”.

    O “suposto direito” não é o natural e básico direito de um normal cidadão maior de idade defender a própria vida e a dos seus (especialmente os menores)?

    Nesse caso, se o Estado não pode ter sempre um polícia atrás de cada um, temos todos de ir aprender cursos de artes marciais, aliás muitas vezes inúteis contra armas de fogo ?

    Quanto ao lamentável caso que lhe motivou este comentário menos reflectido, partilho dos seus sentimentos, como é evidente. Mas coloque a questão na devida perspectiva, sem necessidade de ir rebuscar metafísicas protestantes. Na norte-América há muitos milhões de pessoas com milhões de armas à mão, cuja aquisição legal  não é dificilmente acessível. (Também existem muitas por cá mas, tirando as caçadeiras, na maior parte ilegais.) Ora, considerando isto, o que admira e não deve deixar de ser sublinhado é que não hajam mais casos como este, e sejam relativamente raros. E julgo que isto não conta a favor do “Mal” ou de que “todas as pessoas são más”.

    • João Pinto Bastos

      Duarte,


      Não me referia a si evidentemente, mas, sim, aos representantes da National Rifle Association que, a meu ver, vivem numa realidade paralela, provavelmente em Marte. Trouxe à colação a questão do Mal por uma razão muito simples: a cultura americana, para o bem e para o mal – e eu sou suspeito, pois, admiro imenso os EUA -, está imbuída de um preconceito de matriz protestante que a leva a considerar o Homem como um animal inerentemente mau. Logo, é natural que numa cultura com estas características, o porte de armas seja visto como uma verdade inalienável, com as consequências que todos nós conhecemos: homicídios em massa perpetrados por loucos. Ademais, não há, nem deveria haver, qualquer problema em alterar a lei neste aspecto em concreto, pois não me parece – o que é discutível, sei bem disso – que haja qualquer dissonância constitucional a este respeito. 

      • Carlos Velasco

        Esses homicídios em massa perpetrados por loucos mataram 88 pessoas no ano de 2012. Já a histeria em torno deles é digna de um massacre a catanadas no Ruanda.
        Morre muito mais gente nas estradas portuguesas e ninguém anda a falar em acabar com os carros ou restringir o seu uso.
        É preciso ter cuidado para não se ser pautado ou influenciado pelos mass media. A realidade é muito diversa do que vem estampado.

Deixe um comentário

© 2026 Estado Sentido

Theme by Anders NorenUp ↑