Dinastias democráticas e o eterno retorno dos medíocres – uma reflexão.

Ver a leveza de espírito com que Durão Barroso se mostra disponível e se oferece, de forma despudorada, para voltar à cena política portuguesa é, e desculpem utilizar esta palavra gasta, revoltante. É o eterno retorno, é a maldição, é a cruz que carregamos, é a razão pela qual Portugal nunca sairá do socialismo imbecil e da ignorância.

Perguntar-me-ão os viciados no jogo da democracia: “Mas se não for Durão Barroso, será quem?” No entendimento do comum dos mortais esta farsa tem de ser perpetuada irracionalmente mesmo que os resultados sejam aberrantes. Há uma dependência psicológica causada, talvez, pela sensação de segurança e familiaridade que o conhecido oferece por oposição às oportunidades de mudança do desconhecido. Os portugueses estão paralisados numa zona de conforto paradoxalmente desconfortável. A ignorância, a confusão e o medo justificam a parálise.

Sejamos concretos: o eleitor dirige-se à urna, munido de pujança democrática, convencido que vai realmente escolher alguma coisa; esquece-se porém que só lá vai, quanto muito, validar os que já foram escolhidos; os escolhidos a dedo pelos aparelhos partidários, portugueses e europeus. Se tem dúvidas quanto à (in)utilidade de votar, olhemos para um sinal mais concreto, mais visceral e intuitivo: refiro-me à sensação de desconforto que certos eleitores experimentam quando se confrontam com a necessidade de ter de escolher um candidato que está longe de ser o seu candidato ideal; são então forçados a validar um candidato que se apresente como o menos mau entre todos os maus que figuram no boletim. Há hesitação e há insatisfação. Azia para os mais simples, inquietação metafísica para os holistas.

Se reflectirmos mais profundamente, esta coisa de validar um “mau” com a justificação frágil de que *supomos* que ele seja ou venha a ser o “menos mau entre os maus” levanta uma dilema ético interessante, o qual não vou tratar aqui mas que deixo como sugestão aos intelectos mais despertos.

Caríssimo leitor/eleitor tome consciência que em matéria de decisões “você é o elo mais fraco – adeus”.  A democracia foi ejectada pela partidocracia e pela imoralidade pura e simples. Numa sociedade de consumo e de informação é dado a um cidadão mais liberdade de escolha e autonomia na plataforma da Amazon do que na plataforma eleitoral democrática. Pergunto com toda a honestidade e sem saber ainda uma resposta: se as sociedades mudam e se a cidadania se transforma, será razoável que os sistemas políticos acompanhem essa mudança e se adaptem aos novos níveis de exigência, ou não? Pergunto genuinamente.

Ainda assim, a abstenção apenas ronda em média os 60% a cada acto eleitoral – os combustíveis ainda não estão suficientemente caros. Os cordeirinhos do regime acreditam com fé devota que após cada eleição Portugal ficará “melhor”; acreditam na melhoria constante mesmo que a evidência acumulada mostre que tal não se verifica. “Evidência”? Mas de que falo eu? Para o melhor povo do mundo “evidência” é um esoterismo quase tão evitável como a disciplina de matemática.

É uma dura realidade: se não for um medíocre, será outro, e depois outro, e mais outro, e outro novamente até à decadência e ruptura.

Se gostam tanto de jogo, ponham cruzinhas onde calhar: suspeito que o acaso fará uma selecção mais acertada do que as vossas boas intenções. Ninguém verdadeiramente ousado e diferenciado sairá de uma eleição pois a rês é fraca – todos provêm das mesmas “universidades”, da mesma forma inquinada de fazer as coisas e de pensar o mundo.

Partilho convosco o meu comportamento perante a desconfiança que nutro por este sistema político: deixei de votar. Não alinho em farsas, em gigantescas mentiras encenadas com dinheiro dos contribuintes, não concordo com a oferta de empregos inúteis a gente que não sabe o valor do trabalho nem conhece o este país e sobretudo não valido nem perpétuo um sistema corrupto, imoral e ineficiente. Não contem comigo para desenhar cruzes em papéis em que um dos objectivos é dar de mão-beijada 3.60 EUR (sim, sim, leu bem, é quanto vale um voto, incluindo o branco!) para os partidos. Por que acha que se dão ao trabalho de contar os votos brancos se politicamente nada valem, hã? Já tinha tomado consciência disto?
Os boletins de voto são cheques que os cidadãos passam aos partidos, literalmente.

Pede-me a consciência e o respeito que tenho por mim mesma que não pactue com o que suspeito errado e potencialmente prejudicial. Só lamento ter de viver nesta matrix que os sonâmbulos do regime alimentam: parece que já estou a ver um Durão Barroso PM ou PR (tanto faz!) ou um António Costa PM, um Marcelo Rebelo PR… Ou seja, a continuação da dinastia sucessória PS/PSD. E ainda há quem reprove a monarquia pelo simples facto de que lhe soa aberrante a ideia da herança de poder (pessoalmente, soa-me aberrante a ideia do *poder* em si). A Grécia é um caso paradigmático de deformação democrática, com o governo a ser disputado por duas famílias durante anos a fio: os Papandreos e os Karamanlis. Fossem ao menos famílas honestas e íntegras, mas não. Os resultados estão à vista.

Como resolver resolver um problema estrutural tão vasto, tão transversal e tão grave sem derramar sangue?
Serão o estudo aturado das temáticas, o debate público honesto e a palavra suficientes? É um Renascimento possível em Portugal?

Deixo à vossa reflexão.

1 Comment

  1. Duarte Meira

    Soberana Regina:

    Mais um texto em cheio no alvo.

    Quanto às questões difíceis e à reflexão a que nos convida no final, é o que eu espero ir continuando a ver aqui neste blogue.

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