O homem-massa está a entrar em ebulição. O fim do modo de vida dissipador empoleirado no pastiche pequeno-burguês terminará em breve, disseminando os seus escombros por todo o lado. O universalismo democrático, que produziu este homem atomizado, e que fez, também, as delícias de tanta intelligentsia ignara, sucumbirá sob o peso da dívida interminável. E a liberdade? Eis a questão do milhão de dólares. O Miguel Castelo Branco descreveu bem a coisa, alertando para um problema que, bem vistas as coisas, é o nó górdio da questão: os homúnculos que compõem os modernos regimes democráticos são “gente igual, violenta e incontrolável, presa dos instintos, falando com os punhos.” Acreditam que, nestas condições, a liberdade será defendida? Não me parece. Mais, acredito que o que vem aí será, em grande medida, um futuro liberticida. Com a suprema unção dos estatistas do costume.
O homúnculo democrático
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Caro João Pinto Bastos:
Como sabe, a liberdade, se existe ou não na realidade e em que medida, é questão sumamente difícil, muito controversa e debatida. E há pessoas de não pouca inteligência e experiência que negam tal realidade, total ou parcialmente.
Mas, na “política” e no mundo dos políticos, tudo já está resolvido sem dúvidas nenhumas, e foi uma das mais entoadas sereias com que nos toaram aos ouvidos e cativaram a imaginação desde 1974, e mesmo antes. É um dos grandes mitos modernos ocidentais, que só tem paralelo no da “Educação”.
Não disse que não há liberdade. Mas, em termos políticos, parece-me certo que, desde que perdemos o controlo dos recursos e mercados de África, e nos submetemos sem condições nenhumas à “Europa”, perdemos enquanto Estado qualquer autonomia política credível; muito mais ainda quando estamos amarrados ao “serviço da dívida” por décadas sem fim à vista. De maneira que o “futuro liberticida” já o temos por cá, conforme experimentam aqueles pobres que, depois das 8 da noite, se trancam em casa e não se atrevem a sair à rua. (E aqueles ricos que se amuralham em condomínios fechados com segurança à porta e no interior.)
Isto quanto à “política”, no velho sentido do termo. Mas questões decisivas já não estão (e nunca estiveram) a esse nível. Se me permite uma sugestão amiga, meu caro João Bastos, preocupe-se com a SUA libertação e a dos que lhe são próximos. Acredito tanto na liberdade que até acho que é possível estar livre dentro da mais apertada cela. (Lembre-se de Sócrates. E compreenderá o que eu quis dizer com libertação se, antes de quem importa, quando eu falei em Sócrates se lembrou do outro descontrolado que desgovernou primeiro para ir “estudar” depois.)
Permita-me relembrar as inolvidáveis palavras proféticas do grande Tocqueville:
« Vejo uma multidão inumerável de homens semelhantes e iguais, que sem descanso se
voltam sobre si mesmos, à procura de pequenos e vulgares prazeres, com os quais
enchem a alma. Cada um deles, afastado dos demais, é como que estranho ao destino de
todos os outros: seus filhos e seus amigos particulares para ele constituem toda a
espécie humana; quanto ao restante dos seus concidadãos, está ao lado deles, mas não
os vê; toca-os e não os sente; existe apenas em si e para si mesmo, e, se ainda lhe resta
uma família, pode-se ao menos dizer que não tem mais pátria.»
E é sobre esta multidão anónima que se eleva um Leviatânico « poder imenso e tutelar,
que se encarrega sozinho de garantir o seu prazer e velar sobre a sua sorte. É absoluto,
minucioso, regular, previdente e brando … »
E este poder duma “brandura” melíflua e letal , meu caro João, não é já e será cada vez menos o dos “estatistas do costume”, que andam a fazer de “políticos” nas televisões.
Duarte,
Estou a reler Tocqueville, em grande medida, devido à minha preocupação relativamente a esta questão. A Liberdade é um princípio fundamental, repetidamente sujeito a abalos das mais variadas e insuspeitas origens. O que me parece evidente é que, hoje, mais do que nunca, não basta falar da liberdade em abstracto. É preciso mais, bem mais. É necessário conjugar a Liberdade com as liberdades. O futuro do liberalismo universalista, o que é discutível e daria azo a uma grande discussão, encontra-se, a meu ver, ameaçado. E o cerne desta ameaça começa e termina na Liberdade com maiúscula.