
«Greed is good.»
«Proposta para a TAP abaixo das expectativas do Governo
Como era de prever.
É óbvio que este claramente não é o momento para privatizar empresas, por muito que os cofres públicos estejam necessitados, pela simples razão que nas actuais condições de mercado e de investimento, o Estado nunca poderá arrecadar receitas minimamente interessantes em troca do património que perde, por muito que sejam cumpridas as regras estabelecidas. E arrisca-se a atrair simples oportunistas sorridentes que dizem o que o português quiser ouvir.
Era evidente que, com apenas um candidato à compra, com o Estado a tentar fazer dinheiro apressadamente e num ambiente de crise e de grande incerteza quanto ao futuro (na vizinha Espanha, a Iberia prepara-se para despedir 22% dos seus trabalhadores e desfazer-se de 15% dos seus aviões, segundo o Financial Times de sexta), a proposta seria sempre má. E cito Pedro Sousa Carvalho, hoje no Diário Económico:
Naturalmente que o investidor colombiano/brasileiro/polaco German Efromovich (que adquiriu a Avianca quando a esta se encontrava à beira da falência) age como lhe compete e argumenta como pode para justificar a sua proposta, referindo riscos potenciais e até uma suposta necessidade de gastar milhares de milhões de euros para renovar a frota da TAP como se ninguém se lembrasse que a empresa renovou há pouco tempo parte dos seus aviões numa polémica compra à Airbus (que não obteve contrapartidas para a indústria portuguesa), negociada pelo governo de José Sócrates.
Com a perspectiva de simplesmente ceder a TAP a troco de uma menos-que-ninharia de 20 milhões de euros (convém referir que o Grupo TAP inclui todo um conjunto de empresas, da Portugália ao handling e ao catering, os 20% na Air Macau, e o ramo de manutenção, cuja filial brasileira tem desde há pouco tempo um valioso cliente, a Força Aérea Brasileira; ou seja, há muita coisa que poderá ser desmembrada da empresa-mãe e eventualmente vendida sem romper o compromisso de não vender o Grupo TAP nos próximos dez anos exigido pelo Governo), parece-me óbvio que não resta outra solução que não desistir da privatização.
E é bom que o PSD e o CDS compreendam que, a prosseguir este negócio, hipotecarão para sempre a sua credibilidade já que a opinião pública não esquecerá nem perdoará, sendo o erro estratégico evidente que é. Já basta o facto de o Governo ter sequer considerado este investidor com base numa proposta preliminar superior em apenas 15% à agora apresentada.
Depois da má experiência com a Swissair nos anos 90, esta será a segunda desistência da privatização da TAP, mas ao menos desta vez o erro poderá ser evitado a tempo. Há que ser realista e ver que a situação é o que é, que não se arranjam bons investidores por decreto, e que ao Estado só resta fazer uma coisa: arregaçar as mangas e gerir a empresa com eficiência, e enfrentando o maior obstáculo ao seu sucesso: os sindicatos. Se isso for feito, a TAP, que é reconhecidamente uma das melhores companhias aéreas do Mundo e que há décadas se mantém ininterruptamente entre as cinco mais seguras (juntamente com a australiana Qantas), deixará de ser uma fonte de preocupações e será uma fonte de lucros para o Estado, tal como foi no passado.
Por fim, e já que aqui recorri ao filme Wall Street, de Oliver Stone: a quem não se lembrar, aconselho que o reveja para ver como Gordon Gekko obtém e o que quer fazer de uma companhia aérea chamada Blue Star Airlines.
Uma coisa que não vejo aqui referida e que é muito importante:
Quanto o estado gastou através de aumentos de capital desde por ex: 1990.
Quanto o estado vai deixar de gastar e poupar nos proximos 20 anos? Quanto vai deixar de estorquir os contribuintes?
Aqui no estado sentido, o patriotismo é uma coisa que gosto de ler, sinceramente faz-me bem ler o vosso blog.
Mas por favor patriotismo é defender os portugueses exigindo-lhes que não paguem o que não devem pagar.
O ganho implicito está no que o estado vai deixar de gastar.
A TAP vai dar lucro, ai vai vai.
Quando for gerida como privada. Agora um luxo, é ter a tap a funcionar, e os contribuintes a pagar, quando tem empresas a operar muito mais barato.
Caro Asa, não se pode reduzir tudo a contas e a dinheiro mas, começando por aí, a TAP não recebe um tostão do Estado desde 1998, por imposição da União Europeia. Não estamos a falar da CP, da Carris ou da RTP. A TAP passou a sustentar-se a si própria e nos últimos anos tem dado lucro, apesar de tudo (incluindo as perturbações causadas pelo sindicato de pilotos, o aumento brutal do preço dos combustíveis e a concorrência das low-cost) e decisões políticas de utilidade duvidosa, como por exemplo a compra da Portugália ao grupo Espírito Santo, quando esta empresa estava com os dias contados, pelo governo de José Sócrates. A TAP tem dívidas, sim, tal como têm muitas outras empresas (como Ibéria, não indo mais longe) e nenhum dos outros estados tenciona deitá-las borda fora sem procurar resolver a questão com boa gestão (acredito que tenha pessoal a mais, essa é uma questão que deve ser abordada). Por isso é que estar a vender neste momento é apenas e tão só para arrecadar receita; só que neste caso o Estado não vai arrecadar nada e vai perder centenas de euros em património, para além de tudo o que não pode ser contabilizado: uma transportadora nacional útil ao país (não apenas economicamente, mas também politicamente), know-how, prestígio internacional, e mão-de-obra altamente qualificada. E todos os países com os quais nos comparamos e que têm uma dimensão internacional importante (como nós temos, com milhões de portugueses no exterior, cinco países ex-colónias em África; nós não somos a Finlândia ou a Hungria) têm a sua companhia aérea e não tencionam vendê-la. Seria incompreensível vermos nos nossos aeroportos a Espanha com a Ibéria, Marrocos com a Royal Air Maroc e até Cabo Verde com a sua TACV, e nós a vermos passar uma companhia estrangeira a fingir que é portuguesa. Não há razão para não termos a TAP.
Muito obrigado por seguir-nos e pelas suas palavras amáveis.
Com os melhores cumprimentos,
JQ