Ser-me-á difícil evitar a influência que o trabalho foi introduzindo na minha forma de pensar e agir.
Portugal está doente, não há dúvida. Tem vindo a adoecer progressivamente, diante dos olhos de quem o observa com atenção, desde há anos. Hoje nem mesmo os parasitas do sistema digestivo conseguem ficar indiferentes a esta situação. Para toda parte onde olhemos, os sinais e sintomas de doença sistémica grave estão lá: nas denúncias que enchem os noticiários, nas injustiças que tocam sempre aos mesmos, nas declarações espantosas e contradições recorrentes dos políticos, na banalização da mentira, no esvaziar do sentido das palavras mais graves e extremas, na relativização de tudo, no culto dos dótores e no desprezo pelos empreendedores, na vertigem destrutiva dos media, na superficialidade e inconclusividade de todas as discussões públicas, na corrupção epidémica de indivíduos e instituições, na confusão generalizada.
A instalação da doença foi permitida pelo desculpar da ignorância bruta, pelo elogio do chico-espertismo, pela glorificação do cábula, pelo entronizar do caciquismo e do amiguismo, pelo desprezo do mérito, pela humilhação do individualismo e exultação do espírito de manada, pela aceitação acrítica de ideias utópicas e assentes em premissas falsas, pelo facilitismo autodestrutivo, pelo esfumar da palavra-de-honra, pelo apreço declarado a tudo o que é negativo e escandaloso, pela normalização da pulhice, pela tolerância de tudo e de todos, pela legalização da incompetência e da falta de rigor.
O resultado só poderia ser a generalizada pequenez de ideias, a incapacidade de articular um raciocínio sem sofrer palpitações e sentimentos de culpa, a bruteza e abundância de opiniões sem ligação ao real ou fundamentação lógica – baseadas meramente no que se ouviu no corredor, no partido, no que fulano-de-tal disse, ou no que se leu na diagonal dum livro politicamente correcto. A doença revela-se em todo o seu esplendor na opacidade dos relacionamentos entre indivíduos e instituições, na impossibilidade de se conversar com quer que seja de forma honesta, na depressão generalizada, na incrível amnésia retrógrada e anterógrada e, sobretudo, no tremendo mau cheiro que sai da carcaça de Portugal – uma mistura fétida de urina, mofo e maresia.
Terá sido um vírus? Há quem diga que sim e até tem nome.
Uma mutação genética?
Estaremos perante um caso de degenerescência neurológica provocada por prião? Creutzfeldt-Jakob?
Portugal ainda sai da cama todos os dias para ir trabalhar o que faz julgar que a enfermidade seja, apesar de muito grave e aparatosa, curável. Dotado de um sistema imunitário que atira anticorpos para cima de tudo que é novo e estranho, não fazendo destrinça entre o que lhe é benéfico ou prejudicial, era previsível que chegaria a este estado. Qualquer anti-génio o estimula, qualquer pseudo-génio o destrói. Pensa-se que a hiper-reactividade imunitária de Portugal resulte do isolamento geográfico e cultural que nuns casos o protege e noutros o prejudica. No geral suspeita-se que o isolamento lhe seja favorável já que o convívio excessivo com o exterior o deslumbra ao ponto de lhe toldar o raciocínio, já de si pobre. Em particular, após contacto com os estrangeiros europeus, desenvolve tendências megalómanas que não pode bancar e europeíza-se. Este último efeito é especialmente pernicioso pois Portugal, lendariamente incapaz de captar a essência de uma ideia, apressa-se a interpretá-la com paixão desenrascada, amolgando as suas subtilezas e dando-lhe aquele “toquezinho” português que estraga tudo. Esta *raciocinite anquilosante* é uma maleita que partilha com os países africanos.
Não obstante, obriga a teoria das probabilidades que não ignoremos o outro lado da moeda: tem Portugal, na sua História “clínica”, momentos de desempenho excelentes, de grande saúde e estamina, de brio e coragem mais concretamente aguçados pelo tal isolamento. A proximidade do Atlântico, a alimentação mediterrânica, o clima ensolarado e o efeito fortificante das tradições e dos laços comunitários, têm-lhe permitido sobreviver aos períodos de anemia e convulsão. A sua desorganização e relaxe criam ambientes propícios aos artistas, aos românticos, aos “criativos”, aos amantes de festa e farra, exibicionistas e calões em geral.
Vou escusar-me de bater no ceguinho ocidental. O diagnóstico está mais que feito e mesmo neste blogue o que não falta é denúncias, que mais não são que o apontar de sintomas. Ao olhar a TAC e as análises ao sangue de Portugal tem-se a certeza que uma equipa multidisciplinar dos melhores especialistas será chamada a intervir na raiz do problema. Está na hora de curar!
Mas antes de iniciar o tratamento é necessário olhar para o todo, conhecer este doente em pormenor, analisar a sua vida de excessos e privações, ver quais as suas forças e fraquezas. Conhecer se tem alergias ou mutações genéticas; ou se já passou por outras maleitas semelhantes no passado. Depois, é fazê-lo tomar consciência de que está gravemente doente, explicar-lhe por que ficou doente e sobretudo fazê-lo entender que precisa de se curar. A maior honestidade, ética e sentido pedagógico serão necessários neste diálogo. Tomará remédios criteriosamente escolhidos – de modo a evitar reacções adversas graves e potencialmente fatais – e, sobretudo, mudará de estilo de vida. O tratamento exige monitorização constante (é um facto!) e é possível que um ou outro órgão sejam removidos cirurgicamente. Ou se trata como deve ser ou enfrentará a caquexia e agonia eternas.
Por tudo isto desconfio muito desta equipa de “especialistas” de fato e gravata que a democracia se encarregou de “nomear” para tratar Portugal. Como é que gente com a competência técnica e humana para tratar de seborreia capilar e unhas encravadas, poderá ter tido o desplante e a desfaçatez de se propor tratar um problema desta gravidade? Estarão a fiar-se na sorte? Nalgum santo? E é isto o melhor que a democracia sabe fazer? E os amiguinhos estrangeiros, especializados em alta finança patológica e burocracia xenobiótica, que aconselham esta equipa de arrancadores de unhas: serão donos de uma gigantesca agência de funerais?
É que está montado o cenário para matar Portugal da forma mais cruel: por erro médico.
Muito bem!
Uma verdadeira análise de Regina!
Magnífica Regina:
Era impossível dizer mais e melhor em tão pouco espaço.
Tudo se joga entre estes dois momentos:
« Está na hora de curar! …. está montado o cenário para matar Portugal da forma mais cruel: por erro médico. »
Agora, não tenha esperanças quanto à subsistência política autónoma da entidade chamada “Estado português”. Quanto a esta, foi comprometida em 1974 e desapareceu em 1 de Janeiro de 1986.
Resta a nação portuguesa, a matriz de portugueses e portuguesas da qualidade destes jovens que têm aparecido aqui neste Portugal Sentido. Restam e resistem pessoas de qualidade. Isso é o que hoje, como dantes, sempre contou.
Obrigada. As vossas mensagens dão-me motivação para continuar.
É para vós, para os leitores do ES, independentemente das simpatias políticas, que escrevo com a maior seriedade e honestidade possíveis.
A propósito do post, achei interessante ver Marques Mendes, com uma sintonia que me surpreendeu, dizer o mesmo com um desfasamento de horas. Terá visitado o ES? 😉
Bem-hajam!