António Borges é dono de um verbo pouco subtil. Mais do que isso, é um sentenciador turbulento desprovido do menor tacto político, qual Torquemada vindo directamente das catacumbas dos aerópagos da grande finança internacional. Que a austeridade é um facto da vida, originado pela orgia prebendista das elites do regime, é algo que não oferece dúvidas de vulto. O que já provoca alguma espécie, para não dizer outra coisa, é a asseveração, típica em Borges, de que a economia portuguesa está, finalmente, equilibrada. Equilibrada em quê? No desemprego galopante? No amesendamento interminável da partidocracia? Na tirania fiscal sugadora das energias da cidadania esbulhada? Há momentos em que, por mais que queiramos evitar que o verniz estale, o famoso gesto do manguito, imortalizado por Bordalo Pinheiro, é a única resposta a tanta desfaçatez.