Viva, Estado Sentido e Tente não Emigrar

Chegada a altura de estrear-me perante a plateia do Estado Sentido, começo por agradecer o simpático convite que o Samuel de Paiva Pires me endereçou. A oportunidade de escrever neste blog é um privilégio mas também um dever; o dever de assumir uma regular posição crítica na defesa de ideias que continuam tão negligenciadas na nossa praça pública. Quem (muito dificilmente) conhece o meu nome, certamente associar-me-á ao Movimento Libertário e saberá, provavelmente, que é um projecto que tem a sua génese na iniciativa de estudantes universitários, dando ainda os seus primeiros passos. Nessa condição, a juventude lança aqui um atencioso convite a todos os leitores para que passem por lá, se assim vos convier, pois todo o feedback e apoio são de valor. Já devidamente apresentada, outras particularidades virão ao de cima ao longo do meu contributo. Como se costuma dizer, não existem segundas oportunidades para causar uma primeira impressão. Como levo essa recomendação muito a sério, vou tentar não escandalizar, para já, e desenvolver apenas um modesto comentário ao marasmo que se faz sentir em Portugal e a apelar, de forma paradoxal e descarada, a não fazerem as malas (embora possam continuar a ler, este e outros estimados blogs, no estrangeiro).

 

Aqui há dias – numa daquelas manhãs em que questionamos o sentido da vida, no país das perpétuas reformas adiadas para “amanhã” e sacudido de vitalidade pela corja habitual – tive oportunidade de ler um texto vigoroso do Carlos Guimarães Pinto, no Insurgente, em que enumerava alguns dos escapes práticos ao pesadelo que se aproxima. Passado o abanão e interiorizados os preciosos conselhos, fiquei a pensar naquela sugestão que surge invariavelmente nestes contextos: emigrar. Por circunstâncias pessoais ou por algum tipo de aversão mais profunda (que não sei bem de onde vem) a opção de “desertar” não encontra grande eco nos planos pessoais que idealizo para o futuro. Contudo, compreendo e estimo bastante a audácia daqueles que, apercebendo-se que atingem um limite em que a defesa das aspirações pessoais, do bem-estar familiar e da honra pessoal ultrapassam os custos impostos dentro de um Estado que somente enjeita e humilha, decidem embarcar em algo mais promissor. Visto isto, e considerando que ninguém tem de passar os valiosos anos de vida a servir de mártir perante tão hedionda imoralidade – pois há a óbvia diferença entre respeitar o país e vergar-se as imposições dos governos – aventuro-me, porém, a fazer o exercício inverso, temendo levar com tomates em cima. A minha ideia é que uma forma muito eficaz e digna de resistir é ficar cá. Sei que muitos não simpatizarão com esta sugestão branda mas agradecia que meditassem nela com base em três fortes argumentos: primeiro, eu vou ficar cá; segundo, não quero que me deixem aqui sozinha; e terceiro…porque a minha geração não pode ser abandonada “do pé para a mão”, enquanto os mais maduros batem em retirada (mais dramático e convincente, só mesmo se eu solicitasse ao inimitável Portas para enumerar).

 

Falando mais a sério, vejo como defensável a permanência na área hostil, não enquanto postura de submissão a tudo o que é apresentado mas como resistência; resistência tão, ou mais, digna que o escape migratório. Quando nos deparamos com ocorrências do nível mais animalesco e cobarde que pode haver, ou com a repetição de uma insistente e bacoca retórica em favor das ruínas do intervencionismo que nos enterrou, percebemos a urgência de remar contra a maré e impedir que o espaço político tão desgastado, fique vazio e entregue de bandeja aos abutres mais apressados. Os mesmos que enterraram os frutos e as sementes, digladiam-se numa obstinada tentativa de enterrar também os sacrifícios de quem já percebeu, ou começa a perceber, que a reforma do Estado é urgente e só peca por tardia.

 

Numa cena trágico-cómica em que o governo embaraça-se na, não surpreendente, acrobacia de fazer prevalecer o interesse de todos os seus sôfregos rentistas, estamos todos de parabéns por termos ajudado ao espectáculo, na semana da aprovação do Orçamento de Estado. Com alguma ingenuidade, nós liberais, e aqui me incluo, conseguimos gastar energia a fingir estupefacção, crucificando deputados liberais, cujo principal erro, digo eu, foi o terem mantido as expectativas muito elevadas quanto ao que era exequível atacar pela via interna. Aqui, o meu pessimismo serviu de analgésico para assistir a um triste espectáculo que até apelidei de “traição”. Admito que um acto de rebeldia numa aprovação do Orçamento de Estado daria fôlego e compensação psicológica a muitos de nós mas não seria mais do que mera congratulação a meio da “travessia do deserto”.

 

Não negligenciando a importância de algum espectáculo e evasão nestas alturas, parece evidente que a nossa arma deve ser apontada a um alcance mais ambicioso. Um ataque mais silencioso é perpetrado contra toda a viv ’alma, conjunto de bloggers, velhos do Restelo solitários, contra o mais pacato cidadão e contra reacções da sociedade civil, sempre que um destes se levanta para dizer o óbvio: “Este orçamento não é bom, o caminho é destrutivo”. A resposta enviada reveste-se de cinismo: “Mas também não é mau, podia ser pior. Se querem um melhor, façam vocês mesmos e proponham-nos”. Dizem isto com a mesma leviandade de um comunista a prometer aumento das pensões sociais; sabem que é fisicamente impossível, alguém aproximar-se para construir um orçamento alternativo. Ora, cidadãos pacatos, não se deixem intimidar nem tomar por parvos como quem teme um sádico cirurgião que se aproxima para vos revirar os órgãos ao seu arbitrário e louco critério. Algum de vós é remunerado para desempenhar tais funções? Quantos assessores têm ao vosso dispor? Foram eleitos? Com certeza terão actividade profissional que vos toma o tempo e serão especializados em determinada “horta”. Não estão, nem conseguiriam estar, na posse de informação que um governo reúne. Como tal, a minha resposta a esta afronta, típica de uma tirania silenciosa, só pode ser uma: se querem ajuda no orçamento, enviem para cá. Sim, “para cá“, leia-se, para os governos locais. Não é complicado imaginar a resposta; claro que o governo tem todo o interesse em guardar a besta na gaveta e assustar com o tamanho incomportável da coisa para servir de chantagem e justificação à própria força que o reveste. Se tivessem algum interesse em contar com a mãozinha dos portugueses – para além da mão cativa que saca a carteira do bolso sob pena de lhe ser amputado o dito membro – já tinham sacudido a administração central e iniciado reformas substanciais na concessão de autonomia e responsabilidade na educação, na saúde e demais áreas onerosas por falta de freio de mercado.

 

Por vezes existe quem sugira que a pasta das Finanças estaria melhor a cargo de uma dona de casa. É uma imagem simpática e arrisco até a imaginar Vítor Gaspar de pantufas e robe a organizar a “lista de compras” mas é uma imagem que se aproxima mais da realidade se a deslocarmos para a realidade local. Em vez de corajosa descentralização, somos assombrados por consensos engrossados à pressa que favorecem a ideia de uma união orçamental europeia; pobre dona de casa numa empreitada dessas. Saídas indolores não existem, como já estamos treinados a ouvir na propaganda diária que é emitida com frequência, não no nosso pátio rodeado a arame farpado, mas nos nossos meios de comunicação, bastante semelhantes. Há toda a diferença entre um processo doloroso e uma amputação a sangue frio.

 

Mais do que nunca, parece perigoso que uma pessoa intelectualmente honesta e com uma réstia de patriotismo, se demita de assumir uma posição firme que vise dinamitar: os arreigados vícios das empresas estatais e da administração pública em geral, os insultos ao discernimento e autonomia de cada português, a usurpação às gerações futuras, o apunhalar das conquistas dos mais velhos e as encenações político-partidárias que presenciamos diariamente. Por isso mesmo, projectos como o Estado Sentido e tantos outros, merecem ocupar um lugar de relevo a cada dia que passa.  

2 Comments

  1. Duarte Meira

    Daniela:

    Gostei muito desta sua estreia neste blogue. Mas os meus maiores parabéns vão endereçados  à sua  decisão de ficar. Nos tempos que correm, essa decisão é tanto ou mais audaciosa do que a de partir.

    Escolheu outra posição difícil – a libertária – numa nação secularmente aconchegada ao Estatismo. É a posição certa, porque as diferenças políticas do futuro (no velho sentido da velha política) não serão entre “esquerdas” e “direitas” – mas entre o Estatismo e… a libertação dele.

    (Agora, como é que consegue ser libertária e…”filiada no CDS” , é que não sei como seja possível! Terei lido bem ?)

    • Daniela Silva

      Caro Duarte,

      Fico satisfeita que tenha apreciado e agradeço as suas palavras de incentivo.

      Em relação à sua dúvida, percebo-a perfeitamente e entendo que cause distúrbio na cabeça de muita gente. Já esperava que alguém avançasse com ela. A resposta que lhe posso dar não é nem muito linear nem muito rápida. A minha filiação no CDS, que ainda não se revestiu de nenhum compromisso muito sério até ao dia de hoje, (o que também não será de espantar tendo em conta a minha idade) precedeu ligeiramente o meu contacto com as ideias libertárias. 

      Se são duas escolhas inconciliáveis? Acho que a resposta a essa questão deve caber à consciência de cada um e à ordem de prioridades que estabelece para si. Se me perguntar qual das duas eu priorizo, obviamente que a filiação num partido político reduz-se a uma importância muito mais supletiva, sobretudo quando a nossa tendência vai no sentido do crescente cepticismo face ao poder. Ainda assim, levando os pressupostos libertários às últimas consequências, ainda não encontrei inconveniente em manter uma filiação que até certo ponto, me despertou efectivamente para os problemas, em estado bruto, que persistem a nível local (o único nível em que o meu pessimismo é um pouco refreado). 

      Espero que os meus futuros textos no Estado Sentido ajudem a revelar melhor aquilo que penso, da forma mais transparente e inequívoca possível. E se ajudar em alguma coisa, posso recomendar por agora um texto que escrevi no Movimento Libertário (http://movimentolibertario.net/?p=352) que toca em algumas ideias (desde já lamento se o texto assume uma postura muito demolidora e generalização abusivas). 

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