Um relato anedótico, na total acepção do termo, que descobre ainda mais a fragilidade arenosa do castelo em que a tribo ficou presa: há uns meses, quis por graça ir ver um terreno que estava para venda. Só por ver, como quem paira à cata do rasto das lebres antes de decidir voar picado. Um vizinho pôe-me em contacto com o vendedor, compareço, surge-me à frente um rapaz de meia-idade, baixo, olheiras até às rótulas, cabelo empastado, suor nas mãos, espreitando de esguelha por cima do ombro a cada quinze ou vinte segundos. Mostra-me o terreno, cujas dimensões e características diferem do que está na caderneta predial.

 

Pois, isso foi lá ele na Conservatória, na altura não vieram ver, e eu não dei por nada…

 

Então e o valor? Isto é assim?

 

Bom, sabe, é que eu tinha já tudo pronto, um crédito, estruturado, com outros rapazes, até foi um amigo do Vara que assinou, mas isto correu mal, agora dividimos isto tudo, eu preciso de ter este fora do meu nome, os carros já estão em nome dos miudos, divorciei-me, ainda me falta pagar a uns quantos, você nem imagina quantos casos como o meu andam por aí para rebentar, isto vai ser um estoiro, um estoiro…

 

Mas olhe, então não pode ser nada, lamento, também é mais pequeno do que eu pensava, enfim olhe, boa sorte.

 

Espere, espere, e não conhece ninguém? Eu já ando há dois meses sem pagar nada com cartões nem coisa parecida, dava-me mesmo jeito livrar-me disto.

 

Não, não, deixe que se eu conhecer alguém aviso, vá…

 

 

Bom, isto passou-se há cerca de um ano. De lá para cá, é seguir o trilho de degradação, no valor das acções e na qualidade dos accionistas ligados aos bancos portugueses. Hoje foram publicados na imprensa diária os valores das “imparidades”, ou seja, do malparado com que estão a contas esses bancos. BCP, BES, CGD e Montepio, por esta ordem, são aqueles cuja situação maiores cuidados inspira, e muito me admiraria se um dos bancos citados não viesse a ser alvo de uma forma qualquer de nacionalização ou reforma forçada, tal é o rombo de credibilidade que as suas estruturas, já infladas além da razoabilidade e sujeitas a pressões assinaláveis, têm levado nos últimos tempos.

 

Falarei a seu tempo, à semelhança do que fez Pedro Braz Teixeira ao longo de 42 aturados posts no extinto Cachimbo de Magritte, sobre as consequências, em todos os prazos, de uma saída do Euro. Mas mesmo antes disso, conviria que os mais atentos incluissem, também, no seu radar esta outra bomba-relógio que parece ameaçar a pacatez da aldeia.