Ontem, os deputados do CDS demonstraram três factos.
Um: que optaram por cavar ainda mais o fosso entre eleitores e eleitos, alienando os votos recém-conquistados e sepultando de vez a possibilidade de emergir uma ala liberal oriunda de dentro da máquina partidária.
Dois: má escala de valores tendo equiparado a responsabilidade partidária ao dever para com os constituintes. Por analogia, foi como se um piloto de aviação civil, com um Boeing 767 cheio de gente às costas, tivesse obedecido pronta e cegamente a uma ordem da torre que o mandasse afocinhar a direito contra um penedo.
Três: estupidez, muita estupidez… o momento político foi-se e agora a AR vai tornar-se um grande centro comercial à espera da falência.
Post-scriptum: houve deputados que apresentaram declarações de voto que vale a pena ler. Adolfo Mesquita Nunes é um deles. Gosto bastante de AMN. Contudo, uma declaração daquelas seguida de um voto a favor é como ter fumado e dizer que não inalou.
Caro Fernando:
Já saberia que entre nós, em política, os princípios, as ideias, a coerência sempre foram a excepção da habital e secular regra.
O CDS nunca foi e dificilmente alguma vez poderia ser liberal, com mais ou menos alas; e o que sempre foi (com expções pessoais de categoria), foi uma muleta faminta dos restos do poder que outros lhe consentem abocanhar.
Tudo isto é pedagógico, e que ao menos a lição não fique esquecida.
De resto, a crescente habituação estatista, em que temos vivido há mais de cinco séculos, se não foi invertida com sucesso após 1834, em que a corrupção do liberalismo terminou com a destruição da monarquia, – também não vejo como será agora viável, sem independência política nenhuma. Gravitamos em torno do eixo Paris-Berlim, como no futuro em torno do eixo Berlim-Moscovo, numa “democracia” cada vez mais concentracionária e totalitária. Não são bons auspícios para os liberais.
O liberalismo (como muitas coisas mais) tem de ser pensado de raiz, e os princípios têm de ser firmados noutro plano, que não o da “política” tal como a temos conhecido. Aliás de acordo com a transformação que o próprio “Estado”, como o temos conhecido desde a Renascença, está a passar.
Viva, caro Duarte, e muito obrigado pela sua presença.
Interessa-me o insight contido na expressão “o eixo berlim-moscovo”; eu consigo ver uma NATO com a Russia a bordo enquanto broker de tecnologia, mas nao me entra a ideia de os ter na UE. Era essa a sua hipotese?
Precisamente, caro Fernando. Ainda o verá em dias da sua vida, que predumo jovem e desejo longa. Com a França cada vez mais irrelevante, quando a Alemanha já não conseguir aguentar sozinha esta UE (ou já com a Ucrânia dentro) e toda a Europa actual depender cada vez mais das energias russas… (Quando falo em energias, não estou a pensar apenas nas energéticas… Mas, neste caso, a dependência é tanta que ainda há poucos meses alemães e russo inauguram condutas submarinas através do Báltico a ligá-los directamente…)
Não sei é se chegará a ver o fim dessa UE transformada em Império Eurasiata. Serão décadas muito pouco agradáveis. (Mas sem guerras nenhumas, no sentido clássico. A guerra também se está a transformar. Viver-se-á uma espécie de “paz perpétua” kantiana, que será a perversão total de Kant…)