Norberto Neves, nascido na vila de Rio Cabrão, perto de Arcos de Valdevez, sempre trabalhou. Filho de pai agricultor e mãe sopeira, desde tenra idade começou a ajudar nos campos e a fazer-se vigoroso. Cresce sabendo o que são dificuldades e sente-se grato por ter vindo ao Mundo num tempo em que a República, laica e plebeia, bafeja os audazes (e os outros) com as copiosas graças dos amanhãs que cantam.
Norberto estuda. Aprende muito. Imerge-se com viço e valor numa vida dedicada ao progresso e à mudança, de olhos sempre postos no dia seguinte, e depois, com o discernimento que os meses lhe vão conferindo, na hora seguinte. Parar é morrer e fazer coisas, muitas coisas, é a forma varonil que escolhe para sobrepujar as origens. Nunca transcende, porém, a memória daquilo que sempre verá, até ao fim dos seus dias, como uma injustiça: a existência de pessoas mais pobres que outras. Despontam nesta era da sua vida as primeiras considerações acerca do que é ser rico, e decidido cunha para si mesmo a noção de que os ricos são aqueles que não são pobres.
Volvidos trinta anos, mercê do seu mérito e maior mestria no exercício das artes comunicativas, Norberto ascende meteoricamente ao longo de uma carreira profissional impoluta e socialmente útil, mitigando ainda mais os recalcamentos de antanho. Amadurecido e ameno, sabe hoje que o país é menos pobre e que isso obriga a um reposicionamento dos seus valores. Os ricos passam a ser aqueles que têm ao seu alcance um conforto material que ainda é vedado à restante maioria , em concreto à própria classe onde se inclui Norberto.
Os anos são bons para Norberto. Consegue aplacar a voragem paladinesca que sentiu durante a travessia de um enorme Peloponeso de dúvidas, e aos quarenta, vidas feitas, desfeitas, reconstruídas e repensadas, assume-se como um homem comum, devidamente inserido. Aufere oito vezes mais do que o salário mínimo nacional, estando portanto, de acordo com as suas últimas aferições, perfeitamente enquadrado na classe média, acima de cujo limite superior habitam, ainda, alguns ricos, outros muito ricos, e ainda gente que considera demasiadamente rica. Norberto abarca a totalidade destes entes num amplexo social-igualitário, por entender que é deles a culpa de haver, ainda, pessoas a quem a vida quotidiana exige sacrifícios e opções duras.
Entretanto, como é de justiça, gasta o seu estipêndio mensal em bens de consumo, como se cada hora fosse a final, nem olhando para trás. Se o fizesse, o que certamente não faz por ter a mente ocupada a pensar na justa redistribuição da riqueza (alheia), perceberia que um só dia das suas despesas equivale a quanto pensou precisar, nos idos da juventude, para sobreviver durante semanas. Se ao menos os ricos, essa fugaz quimera teratológica, cessassem de mandar no Mundo.
“Quem conduz mais devagar que eu é um atadinho e quem conduz mais depressa é doido”