O professor Pedro Arroja diria que uma família tem de revolver em torno de uma figura forte, seja ela matriarcal ou patriarcal. A ideia não é novel e encontra eco na socio-mitologia Bretã – antes de Artur, com Vortigern, o reino era estéril por nao haver um Rei Uno, porque o espírito e a expressão da terra eram frágeis e quebradiças. Assim será com uma família.
Hoje, o mundo ocidental é urbanita. Os requisitos mínimos de conforto e a satisfação com a provedoria já não se medem em géneros essenciais. Mesmo perante a falência da doutrina vigente, consequência do choque frontal com a realidade, ainda impera a renitência em largar o paradigma “abracinhos e emoções” versus “rigor e empenho”. Exige-se ao provedor que possa e queira prover não só ao que falta, como ao que os providos entendem que há-de faltar.
E assoma a questão, pervasiva e imanente na esfera pessoal como no cenário político: mas o que é que fazes aos que não querem trabalhar? Deixas à sua sorte alguém que cá anda, só porque não quer ou não está virado para prover a si mesmo?
Isto deve ser visto ao longo de três patamares.
Aritmeticamente é tautológico que nao se pode prover, nem Deus, quando as exigencias excedem os recursos.
Eticamente, deve dar-se, podendo, qb para que o recipiente da dadiva possa fazer algo de si mesmo, mas nao tanto que a provisao o impila a nada fazer enquanto o maná durar, sob pena de empenhar nao só a geração que recebe, mas tambem o desenvolvimento que dele, ou dos seus pares igualmente beneficiados, dependeria.
Por último convém ver isto à luz da justiça, que é objectiva, que é a tradução do facto de que a Lua está lá mesmo que ninguém olhe para ela.
– Eu dou-te isto.
– Tens de dar-me mais.
– Não, isto basta.
– És injusto, isso é a tua apreciação.
– Sim, sou eu quem dá.
– Mas sou eu quem precisa.
– Contudo, não sabes do que precisas, estás a avaliar por forma a que te sobre para outras coisas.
– Então, tenho esse direito.
– Certamente, mas não a expensas minhas.
– Mas se queres que esteja bem, terás de dar-mo.
– Não to darei.
– Então abusas do teu lugar.
– Menos do que tu do teu, e nem sequer me arrogo saber do que preciso, apenas dou.
– Isso não compreendo, mas vejo em meu redor que os outros não encontram as mesmas limitações.
– Se me disseres isso daqui por uns meses, dar-te-ei razão. Mas agora estás iludido pela aparente facilidade com que gozam ainda um idílio que nao pode durar.
– Não interessa, nao me compreendes e sinto-me rejeitado.
– Isso é algo que recai sobre mim mais do que sobre ti. Não levarás mais desta bolsa antes de mostrares que aprendeste a humildade e o esforço.
Deixe um comentário
Tem de iniciar a sessão para publicar um comentário.