Estas divagações têm como ponto de partida os últimos desenvolvimentos da já avelhentada crise portuguesa. As recentes declinações passistas a propósito da refundação do memorando, ainda que imerecedoras de interpretações rebuscadas, são dignas de algumas notas. O que significa, em concreto, a “refundação” do memorando de entendimento? Esta pergunta, objectiva como não poderia, aliás, deixar de ser, é fruto da incompreensão berrante que a narrativa política construída por este Governo amiúde impõe. A proclamação de Passos Coelho, além de nebulosa e torva, obliterou a menção aos detalhes e pormenores que irão ser arrolados na árdua tarefa da refundação. Não basta afirmar que se pretende reformar e refundar, é necessário, outrossim, dizer como e quando. Ademais, há um aspecto que passou completamente despercebido na comunicação do primeiro-ministro: a revisão da Constituição. Será que Passos Coelho acredita na reforma do Estado sem a alteração da vigente narrativa constitucional? É assim tão espinhoso compreender que a superação dos bloqueios nacionais exige, pede, e demanda o fim do verniz socializante vertido na CRP.
Como se isto tudo não fosse suficiente, António José Seguro resolveu brindar-nos com mais uma reflexão política de fôlego. O secretário-geral do PS, nas já famosas alocuções facebookianas – o exemplo do preclaro Presidente da República fez escola -, veio rememorar aos mais desprevenidos que o PS, e passo a citar (sic), ” não está disponível para nenhuma revisão constitucional que ponha em causa as funções sociais essenciais do Estado.” Estamos, pois, conversados quanto à viabilidade de uma “refundação” verdadeiramente consequente do memorando de entendimento. Contar com o PS para uma revisão constitucional que reenquadre as funções sociais do Estado num cenário de escassez de recursos? Nunca, ou como diria o saudoso Mário Lino, jamais! A partidocracia do regime chegou ao pináculo irrecuável da irreformabilidade. Já escrevi sobre isto, e volto a repetir: “este regime, na catrefada de erros que o tem caracterizado, chegou ao seu crepúsculo terminal. O tribalismo “devorista” das nossas elites, e a impermeabilidade das mesmas ao pulsar da vida quotidiana, conduzirão, mais dia menos dia, a um fim súbito.”
Para terminar esta breve glosa das declarações do primeiro-ministro trago à colação um facto que, devidamente menosprezado pelo comentarismo caseiro, é de enorme revelância para o que se seguirá neste “torpe dejecto de romano império”: o Governo não está, nem estará interessado em seguir a teoria da “negociação honrada” tão cara a Miguel Cadilhe. Renegociar prazos, juros, não, nem pensar, cruzes credo. Não congregar esforços com os restantes PIIGS (que acrónimo mais horroroso) é a senha de ordem de Gaspar e companhia. Espero que – concedo que talvez seja mero wishful thinking -, o credo aventado por Paulo Portas nas jornadas parlamentares PSD/CDS se concretize: Portugal deve ser proactivo nas negociações com a troika. É tempo de Portas levar à prática o conselho dado à estampa nas páginas do Público por Paulo Rangel: proactividade e autonomia negocial no seio do MNE. Ironia ou não, começo a achar que uma diplomacia bifronte até teria algumas virtualidades.
As breves reflexões acima esparramadas têm como corolário lógico a seguinte conclusão: com esta política, com estes protagonistas, com estas elites, não sairemos deste letargo. Caros leitores, convençam-se que, enquanto permanecermos enrodilhados no cárcere da perfídia regimental alinhavada pelos cortesãos do costume, não lograremos sair desta austeridade brutal que atinge o âmago da nossa existência. Munch retratou na perfeição o frenesi do homem moderno, todavia, receio que hoje o grito seja bem mais arrebatado e impetuoso. Talvez Hemingway tivesse razão ao dizer que um homem pode ser destruído mas não derrotado. Falta saber se o povo português concorda com esta tese.

“…começo a achar que uma diplomacia bifronte até teria algumas virtualidades.”
No fundo é isso que o Governo está a fazer. Tenta passar por cumpridor, ao mesmo tempo que procura aliviar as condições a que está sujeito. Passos Coelho e Vítor Gaspar fazem a primeira tarefa, enquanto Paulo Portas e Santos Pereira (agora saído da “casca”) fazem a segunda, com o reforço de Cavaco Silva.
PIIGS (que acrónimo mais horroroso)
Krugman e muitos outros usam o termo GIPSI, o que já parece ser uma melhoria…
Em parte é verdade. Contudo, parece-me, e digo isto tendo em linha de conta os dados avançados na imprensa, que a diplomacia de Gaspar é demasiado pífia. No tocante ao MNE penso que o labor diplomático poderia ser bem mais pronunciado. Não critico Paulo Portas por aquilo que tem feito globalmente, aliás, no que concerne à diplomacia económica o MNE merece uma nota muito positiva, apenas constato que poderia haver uma maior vocalização do interesse nacional nas instâncias europeias, sendo que, bem vistas as coisas, Portas teria tudo a ganhar, até a nível interno, com a adopção de uma posição mais vincada.
Krugman, não obstante as suas boutades económicas, tem uma qualidade curiosa: uma ironia bastante fina. Passar de porco a cigano revela um humor bastante engenhoso.