Entrementes, no meio do ruído mediático, Miguel Cadilhe fez, porventura, a intervenção pública mais lúcida dos últimas dias. A renegociação da dívida será, a breve trecho, inevitável. Está escrito nas estrelas. Não é difícil intuir que, com este plano de emergência assente sobretudo no aumento dos impostos, a economia será pura e simplesmente arrasada. Ademais, a renegociação da dívida, ao inverso do que proclamam os “progressistas” de salão da esquerda passadista, não impedirá, nem sequer pressuporá o fim da austeridade. Desenganem-se os papalvos. Uma renegociação bem gizada e conduzida, significaria a manutenção e até o aprofundamento da austeridade, porém, o horizonte de esperança dos contribuintes esmifrados seria manifestamente outro. Além de que a insistência na via impostadeira, com a compressão esmagadora da procura privada, produzirá um contigente ainda maior de falências, ruína e desemprego. Renegociar, mantendo intocado o actual regime cambial, é uma promessa mirífica, sem sustentação nem valimento.


Onde está o debate acerca destas matérias? Ninguém discute, ou sequer vislumbra, a possibilidade bem forte de Portugal, para crescer, ter de abandonar o euro? Há, ou tem havido, alguma produção intelectual sobre os desafios que impendem sobre a inserção estratégia do país no futuro? A resposta a estas questões é negativa. O nosso estado de espírito é de pura navegação à vista. Não há estudo, debate, diálogo, polémica, controvérsia, nada, absolutamente nada. Tudo isto é de uma pobreza confrangedora. O provincianismo em que vivemos resume-se a isto: deixar andar, à espera de que algo, um acontecimento exógeno, por exemplo, resolva os problemas. É pena, e digo isto com enorme pesar, que não haja na direita portuguesa um pensamento ponderado e reflectido sobre esta questão – tirando algumas excepções, como são os casos do insurgente Filipe Faria, ou do ex-cachimbo Jorge Costa. Até porque, ao contrário do que comummente se alvitra, renegociação, mercado, propriedade e liberalismo, não são termos inconciliáveis. É absolutamente triste conceder à esquerda o património deste debate. Triste e angustiante.